Vivemos numa época que aprendeu a controlar quase tudo, mas que, paradoxalmente, sabe cada vez menos como enfrentar aquilo que não pode controlar.
Podemos comunicar em poucos segundos com alguém que se encontra do outro lado do mundo. Podemos consultar as previsões meteorológicas com uma precisão surpreendente, controlar a nossa conta bancária através do smartphone, prever algumas doenças, programar viagens com meses de antecedência e utilizar a inteligência artificial para resolver problemas que, até há poucos anos, pareciam pertencer à ficção científica.
E, no entanto, basta uma doença inesperada, a perda de uma pessoa querida, um fracasso profissional, uma crise familiar, dificuldades económicas ou uma decisão que escapa completamente ao nosso controlo para descobrirmos uma verdade inquietante: não somos os senhores absolutos da nossa vida.
É precisamente aqui que encontramos uma das verdades mais consoladoras e, ao mesmo tempo, mais exigentes da fé católica: a Divina Providência.
Acreditar na Providência não significa pensar que tudo acontecerá exatamente como desejamos. Também não significa interpretar cada acontecimento agradável como um “milagre” e cada desgraça como um castigo de Deus. E muito menos significa cruzar os braços e esperar que Deus faça aquilo que nós deveríamos fazer.
A Providência é algo muito mais profundo.
Significa acreditar que Deus não criou o mundo para depois o abandonar ao seu destino. Deus sustenta tudo aquilo que existe, conhece perfeitamente cada uma das suas criaturas e conduz misteriosamente a criação para o seu fim último, respeitando a liberdade humana e servindo-se tanto das causas naturais como das nossas próprias decisões.
O Catecismo da Igreja Católica define precisamente a Providência como aquelas disposições pelas quais Deus conduz a sua criação para a perfeição à qual a destinou.
E esta doutrina tem uma consequência extraordinariamente consoladora:
O cristão nunca está verdadeiramente abandonado.
Mesmo quando não compreende.
Mesmo quando Deus parece guardar silêncio.
Mesmo quando uma porta se fecha.
Mesmo quando uma oração parece permanecer sem resposta.
Mesmo quando nos encontramos a percorrer um caminho que nunca teríamos escolhido.
1. O que significa realmente “Divina Providência”?
A palavra “Providência” deriva do latim providentia, relacionado com o verbo providere: prever, ver antecipadamente, prover.
Na teologia católica, porém, não significa simplesmente que Deus sabe o que irá acontecer.
Deus não é um espectador que, desde a eternidade, observasse um filme cuja história nós vamos descobrindo cena após cena.
A Providência implica algo muito mais ativo: Deus conhece, sustenta, governa e conduz todas as coisas para o seu fim último.
O Catecismo ensina que a criação se encontra num “estado de caminhada”: ainda não está plenamente consumada, mas está orientada para uma perfeição última. A Providência é precisamente a ação através da qual Deus conduz a criação para essa plenitude.
Isto é fundamental.
O mundo não é um mecanismo autónomo que funciona independentemente de Deus.
A criação depende continuamente do seu Criador.
Deus não criou simplesmente o universo no princípio para depois se retirar.
Deus mantém continuamente na existência aquilo que criou.
O universo existe porque Deus quer que exista.
Nós existimos porque Deus quer que existamos.
Cada instante da nossa vida é sustentado pelo poder criador de Deus.
Como ensina o Catecismo, Deus conserva o universo pela sua Palavra e pelo Espírito criador.
Por isso, não devemos conceber a Providência como uma espécie de “mão invisível” que intervém ocasionalmente na nossa vida.
É algo muito mais radical:
tudo aquilo que existe depende continuamente de Deus.
2. Deus não é um relojoeiro que depois abandonou o seu relógio
Existe uma conceção do mundo muito difundida na mentalidade moderna: Deus talvez tenha criado o universo, mas depois o teria deixado entregue a si mesmo para que funcionasse segundo as suas próprias leis.
É uma imagem semelhante à de um relojoeiro que constrói um relógio, lhe dá corda e depois o deixa funcionar.
A fé católica rejeita radicalmente esta conceção.
Deus não é um fabricante distante.
É o Criador e Conservador de todas as coisas.
A criação não é simplesmente um acontecimento do passado.
Depende ainda de Deus.
Por isso podemos compreender melhor as palavras do Livro da Sabedoria:
«Amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado.»
Sabedoria 11,24
A própria existência é um dom.
A nossa presença aqui não é um acaso sem significado.
A nossa existência tem uma origem e um destino.
E esse destino não consiste simplesmente em viver muitos anos, acumular experiências, ganhar dinheiro, ter sucesso ou obter o reconhecimento dos outros.
Fomos criados para Deus.
A Providência conduz-nos precisamente para essa meta.
3. A Providência não é o destino
Chegamos aqui a uma distinção absolutamente necessária.
A Providência não significa fatalismo.
O fatalismo sustenta, de uma forma ou de outra:
«Tudo está predeterminado e nada do que faço tem importância.»
Se isto fosse verdade, as nossas decisões seriam desprovidas de significado.
Não haveria motivo para nos convertermos.
Nenhum motivo para rezar.
Nenhum motivo para nos empenharmos.
Nenhum motivo para amar.
Nenhum motivo para evitar o pecado.
Mas o cristianismo ensina precisamente o contrário.
Deus governa o universo sem destruir a liberdade das suas criaturas.
O Catecismo explica que Deus se serve também das criaturas para realizar o seu desígnio e concede-lhes a dignidade de agirem como verdadeiras causas.
Isto significa algo extraordinariamente importante:
Deus quer que nós colaboremos com a sua Providência.
Deus poderia agir diretamente.
Mas, muitas vezes, escolhe agir através de nós.
Pode alimentar um pobre.
Normalmente, porém, fá-lo através de alguém que partilha com ele o seu alimento.
Pode consolar uma pessoa desesperada.
Mas frequentemente fá-lo através de um amigo que lhe telefona.
Pode transmitir a fé a uma criança.
Normalmente fá-lo através dos seus pais.
Pode ajudar um doente.
Mas frequentemente fá-lo através de médicos, enfermeiros e familiares.
Pode transformar uma sociedade.
Mas quer fazê-lo também através de homens e mulheres que vivem cristãmente no mundo.
A Providência não elimina a nossa responsabilidade. Fundamenta-a.
4. «Seja feita a vossa vontade»: a oração central da Providência
Poucas frases resumem esta doutrina melhor do que um dos pedidos do Pai-Nosso:
«Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.»
Estamos tão habituados a pronunciar estas palavras que podemos esquecer a sua profundidade.
Quando dizemos «Seja feita a vossa vontade», confessamos:
«Senhor, eu não sei tudo.»
«Senhor, Vós vedes aquilo que eu não vejo.»
«Senhor, eu conheço apenas o presente; Vós conheceis toda a minha vida.»
«Senhor, os meus projetos são limitados; a vossa sabedoria é infinita.»
«Senhor, quero aceitar a vossa vontade mesmo quando ela é contrária à minha.»
Isto não significa que devemos deixar de pedir.
O próprio Jesus ensina-nos a pedir.
Podemos pedir saúde.
Podemos pedir trabalho.
Podemos pedir a conversão de uma pessoa.
Podemos pedir que uma dificuldade desapareça.
Podemos pedir proteção.
Podemos pedir uma graça particular.
Mas devemos estar sempre preparados para concluir, como Cristo no Getsémani:
«Contudo, não se faça a minha vontade, mas a vossa.»
Lucas 22,42
Esta é provavelmente uma das expressões mais difíceis de toda a vida espiritual.
Porque é fácil dizer: «Meu Deus, confio em Vós» quando tudo corre bem.
A verdadeira confiança manifesta-se quando somos capazes de o dizer quando tudo corre mal.
5. A Providência aparece com particular clareza no Evangelho
Um dos textos fundamentais sobre a Providência encontra-se no sexto capítulo do Evangelho segundo São Mateus.
Jesus diz:
«Não vos preocupeis, dizendo: “Que havemos de comer? Que havemos de beber? Que havemos de vestir?” […] Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso. Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.»
Mateus 6,31-33
Cristo não diz que o cristão pode viver irresponsavelmente.
Não diz que não devemos trabalhar.
Não diz que não devemos poupar com prudência.
Não diz que podemos ignorar os nossos deveres.
Ensina algo muito mais profundo:
A preocupação não deve tornar-se o nosso deus.
Existe uma enorme diferença entre responsabilidade e ansiedade.
A responsabilidade diz:
«Farei aquilo que está ao meu alcance.»
A ansiedade diz:
«Tenho absolutamente de controlar tudo.»
A responsabilidade trabalha.
A ansiedade tenta ser omnipotente.
A responsabilidade reconhece os seus limites.
A ansiedade desespera precisamente porque não pode controlar o futuro.
A Providência devolve-nos à realidade:
Eu devo fazer a minha parte; Deus fará a sua.
6. A Providência não significa que tudo acontecerá como eu quero
Este é talvez o maior mal-entendido pastoral acerca da Providência.
Algumas pessoas pensam:
«Se eu confiar suficientemente em Deus, no final tudo correrá exatamente como desejo.»
Mas esta não é a fé católica.
É uma forma de espiritualidade de autoajuda religiosa.
A Providência não garante que conseguiremos o emprego que desejamos.
Não garante que uma determinada relação funcionará.
Não garante que nunca ficaremos doentes.
Não garante que os nossos projetos terão sucesso.
Não garante que a pessoa que amamos se converterá.
A Providência garante algo muito maior:
que Deus pode conduzir a nossa vida para o bem supremo, mesmo quando as nossas circunstâncias imediatas não correspondem aos nossos desejos.
E aqui aparece uma distinção fundamental.
Podemos pedir:
«Senhor, fazei que isto aconteça.»
Mas devemos estar preparados para aceitar:
«Senhor, se isto não acontecer, ensinai-me o que quereis realizar em mim através desta situação.»
Este é o abandono cristão.
7. A Providência e o mistério do sofrimento
Chegamos aqui à pergunta mais difícil.
Se Deus é bom…
Se Deus é omnipotente…
Se Deus cuida das suas criaturas…
Porque permite o sofrimento?
Esta pergunta não é uma objeção superficial.
Pertence às questões mais profundas de toda a teologia.
O Catecismo reconhece que o problema do mal é um mistério doloroso e que a resposta cristã não consiste numa explicação simplista. A resposta definitiva encontra-se na totalidade da fé e, de modo particular, em Cristo, morto e ressuscitado.
Aqui devemos evitar uma frase pastoralmente muito perigosa:
«Deus quis que isto te acontecesse.»
Não podemos afirmá-lo indistintamente.
Existe uma diferença entre querer diretamente um mal e permitir um mal dentro de uma Providência capaz de dele tirar um bem.
Deus não é o autor do pecado.
Deus não é o autor da maldade humana.
Deus não aprova a injustiça.
Deus não precisa que alguém peque para realizar os seus planos.
Mas Deus pode permitir aquilo que não quer moralmente e, contudo, fazer nascer dessa situação um bem que nós ainda não somos capazes de ver.
Esta distinção é essencial.
8. A Cruz é a chave da Providência
Se queremos compreender a Providência, devemos olhar para o Calvário.
Porque ali encontramos a aparente contradição suprema.
Cristo é inocente.
Cristo é santo.
Cristo não cometeu pecado.
E, no entanto, acaba pregado na cruz.
Do ponto de vista puramente humano, parece o fracasso definitivo.
Jesus é traído.
Abandonado.
Condenado.
Humilhado.
Flagelado.
Crucificado.
Morre.
Tudo parece terminado.
Mas é precisamente ali que começa a vitória.
A Ressurreição revela que Deus estava a agir também naquilo que parecia ser a derrota definitiva.
Por isso São Paulo pode dizer:
«Sabemos que Deus concorre em tudo para o bem daqueles que O amam.»
Romanos 8,28
Isto não significa que tudo aquilo que acontece seja bom.
Significa algo muito mais poderoso:
Deus pode tirar o bem até daquilo que em si mesmo é mau.
A Cruz não era boa porque a injustiça fosse boa.
A Cruz era boa porque Cristo transformou o sofrimento e a morte em instrumentos de redenção.
Esta é a lógica da Providência.
9. Deus pode escrever direito mesmo sobre as nossas linhas tortas
A nossa vida está cheia de acontecimentos que não compreendemos.
Uma porta que se fecha.
Uma oportunidade perdida.
Uma doença.
Uma mudança que nunca tínhamos planeado.
Uma amizade que termina.
Uma pessoa que entra inesperadamente na nossa vida.
Uma decisão que parecia errada e da qual, anos mais tarde, descobrimos que nos conduziu para algo bom.
Não devemos transformar cada coincidência numa intervenção sobrenatural.
Mas também não devemos cair no extremo oposto e pensar que Deus está completamente ausente da nossa vida.
O olhar cristão aprende a descobrir que a história da humanidade é atravessada por uma dimensão providencial.
O Catecismo recorda que os caminhos da Providência permanecem frequentemente escondidos aos nossos olhos. Só no fim poderemos compreender plenamente como Deus conduziu a criação, inclusive através do drama do mal.
Esta afirmação exige humildade.
Não possuímos o mapa completo.
Temos apenas o passo seguinte.
10. A Providência e a nossa liberdade
Um dos grandes erros acerca da Providência consiste em imaginar que não somos verdadeiramente livres se Deus conhece e governa tudo.
A teologia católica, pelo contrário, mantém simultaneamente duas verdades:
Deus é soberano.
O homem é verdadeiramente livre.
Não existe contradição.
Deus não precisa de destruir a nossa liberdade para conduzir a história.
Precisamente porque é Deus, pode servir-se das nossas decisões livres no âmbito da sua Providência.
O Catecismo sublinha que Deus concede às criaturas a dignidade de agirem e de colaborarem livremente nos seus desígnios.
Isto significa que as nossas decisões têm significado.
Um significado enorme.
Uma oração conta.
Um sacrifício conta.
Um pecado conta.
Uma palavra de consolo conta.
Um ato de caridade conta.
Uma confissão conta.
Uma decisão de fidelidade matrimonial conta.
Uma vocação religiosa conta.
Um pai que educa os seus filhos na fé colabora com a Providência.
Um sacerdote que celebra dignamente os sacramentos colabora com a Providência.
Um cristão que guarda a fé no meio de uma cultura secularizada colabora com a Providência.
Deus não quer espectadores. Quer colaboradores.
11. A Providência também atua através das pequenas coisas
Temos uma tendência muito humana para procurar a ação de Deus apenas nos acontecimentos extraordinários.
Esperamos milagres.
Sinais.
Experiências excecionais.
Coincidências espetaculares.
Mas a Providência normalmente não precisa de fazer barulho.
Pode agir através de uma conversa aparentemente insignificante.
Através de uma palavra que ouvimos no momento certo.
Através de um sacerdote que pronuncia uma homilia.
Através de um livro que chega às nossas mãos.
Através de uma pessoa que nos corrige.
Através de uma dificuldade que nos obriga a crescer.
Através de uma oportunidade para oferecer um pequeno sacrifício.
Através de uma doença que nos recorda a nossa dependência de Deus.
Através de uma porta que se fecha.
Através de uma porta que se abre.
Através de um dever quotidiano realizado com amor.
O cristão aprende assim uma espiritualidade profundamente sacramental: Deus pode servir-se de realidades visíveis e ordinárias para nos conduzir a realidades invisíveis e eternas.
12. A Providência não substitui a prudência
Isto é particularmente importante nos nossos dias.
Algumas pessoas utilizam a Providência como desculpa para não agir.
«Não preciso de fazer nada; Deus providenciará.»
Isto não é confiança.
É presunção.
Se uma pessoa está doente, deve consultar um médico.
Se tem dívidas, deve organizar as suas finanças.
Se cometeu uma injustiça, deve reparar o dano.
Se precisa de estudar, deve estudar.
Se tem responsabilidades familiares, deve assumir o seu peso.
Se precisa de pedir perdão, deve fazê-lo.
Se pode ajudar alguém, deve ajudá-lo.
A Providência não elimina os meios humanos.
Inclui-os.
O Catecismo ensina que Deus concede às criaturas a capacidade de participarem nos seus desígnios através das suas ações, das suas orações e até dos seus sofrimentos.
Por isso, a oração nunca deve ser separada da ação.
Podemos rezar:
«Senhor, dai-me um trabalho.»
Mas também devemos enviar o nosso currículo.
Podemos rezar:
«Senhor, salvai o meu casamento.»
Mas também devemos aprender a escutar, a perdoar e a mudar.
Podemos rezar:
«Senhor, convertei o meu filho.»
Mas também devemos dar testemunho.
Podemos rezar:
«Senhor, ajudai-me a vencer este pecado.»
Mas também devemos evitar as ocasiões próximas de pecado e ir confessar-nos.
A graça não destrói a natureza. Eleva-a.
13. A Providência na vida dos santos
A história da Igreja está cheia de homens e mulheres que aprenderam a viver esta confiança.
Santa Catarina de Sena sublinhava que até aquilo que confunde o homem deve ser contemplado à luz do amor de Deus e orientado para a salvação.
São Tomás Moro viveu a Providência em circunstâncias extremas: não como uma teoria abstrata, mas diante da possibilidade concreta do martírio.
E Santa Juliana de Norwich chegou a uma das intuições mais conhecidas da espiritualidade cristã: uma confiança radical no facto de que Deus levará finalmente todas as coisas à sua realização.
O próprio Catecismo retoma estes testemunhos quando fala da confiança na Providência.
Mas talvez o mais importante seja compreender que os santos não confiavam na Providência porque levavam uma vida confortável.
Confiavam precisamente porque tinham aprendido a olhar para além das circunstâncias.
O santo não é aquele a quem nunca acontece nada de mau.
O santo é aquele que aprendeu a viver até o mal em comunhão com Deus.
14. A Providência e a vida quotidiana
Como podemos, então, viver concretamente a Providência?
Não basta saber o que significa.
Deve tornar-se um estilo de vida.
Primeiro: rezar antes de decidir
Não devemos reduzir a oração a pedir a Deus que abençoe decisões que já tomámos.
A verdadeira oração pergunta:
«Senhor, que quereis de mim?»
Antes de uma decisão importante podemos pedir luz, conselho e prudência.
E depois devemos agir.
Segundo: fazer bem aquilo que depende de nós
A Providência não é uma desculpa para a mediocridade.
Faz bem o teu trabalho.
Cuida da tua família.
Cumpre os teus deveres.
Estuda.
Reza.
Descansa adequadamente.
Cuida do teu corpo.
Ajuda o próximo.
Mantém os teus compromissos.
E depois de fazeres tudo aquilo que é razoavelmente possível, deixa o resultado nas mãos de Deus.
Terceiro: aprender a aceitar aquilo que não podemos mudar
Existem acontecimentos contra os quais nada podemos fazer.
O passado não pode ser alterado.
Uma morte não pode ser anulada.
Uma doença talvez não desapareça.
Uma oportunidade talvez não volte.
Uma pessoa pode decidir partir.
A aceitação cristã não significa dizer:
«Não me importa.»
Significa dizer:
«Não era aquilo que eu queria, mas ainda posso perguntar a Deus o que Ele quer fazer de mim através disto.»
Esta frase pode mudar radicalmente uma vida.
15. A Providência diante da ansiedade moderna
A nossa época apresenta um problema particular.
Estamos constantemente ligados.
Notícias.
Redes sociais.
Notificações.
Mercados.
Guerras.
Crises.
Catástrofes.
Opiniões.
Discussões.
Escândalos.
Informação permanente.
O homem contemporâneo recebe diariamente uma quantidade de informação para a qual o coração humano não foi criado.
E nasce uma tentação:
queremos controlar tudo aquilo que conhecemos.
Mas conhecer algo não significa poder controlá-lo.
Podemos saber o que acontece do outro lado do mundo e, ao mesmo tempo, ser incapazes de resolver esse problema.
Aqui a Providência adquire uma extraordinária atualidade.
Cristo já conhecia a ansiedade humana quando disse:
«Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã; o dia de amanhã preocupar-se-á consigo mesmo.»
Mateus 6,34
Isto não significa que o amanhã não tenha importância.
Significa que não devemos viver hoje carregando antecipadamente todos os sofrimentos que talvez nunca tenhamos de carregar.
16. A Providência não significa passividade diante da injustiça
Devemos evitar também outro extremo.
Algumas pessoas dizem:
«Se Deus o permite, deve necessariamente haver uma razão.»
E usam esta frase para justificar a sua indiferença perante o sofrimento dos outros.
Isso também não é cristianismo.
Se alguém tem fome, devemos ajudá-lo.
Se alguém sofre uma injustiça, devemos defender a verdade.
Se alguém é perseguido por causa da sua fé, devemos ser solidários.
Se um inocente é tratado injustamente, não podemos esconder-nos atrás de uma falsa confiança na Providência.
Porquê?
Porque Deus pode ter disposto que a nossa intervenção seja um dos instrumentos da sua Providência.
Talvez o pobre que encontramos não seja simplesmente alguém que «Deus ajudará quando quiser».
Talvez Deus o tenha colocado diante de nós para que sejamos nós a ajudá-lo.
A Providência não nos liberta da caridade.
Torna-nos instrumentos dessa caridade.
17. A Providência e a oração de súplica
Alguém poderia perguntar:
«Se Deus já sabe aquilo de que preciso, por que deveria rezar?»
A resposta é maravilhosa.
Não rezamos para informar Deus.
Deus já conhece as nossas necessidades.
Rezamos para entrar livremente em relação com Ele e colaborar com o seu desígnio.
A oração transforma, antes de mais, aquele que reza.
Quando pedimos:
«Senhor, ajudai-me»,
reconhecemos que não somos autossuficientes.
Quando pedimos:
«Senhor, convertei esta pessoa»,
exercemos a caridade.
Quando pedimos:
«Senhor, dai-me paciência»,
reconhecemos que precisamos de crescer.
Quando dizemos:
«Senhor, seja feita a vossa vontade»,
começamos a abandonar a soberba de querer dominar tudo.
Por isso, a oração é uma das formas mais importantes através das quais colaboramos com a Providência.
18. A Providência e a Eucaristia
Existe também uma dimensão profundamente eucarística.
Na Santa Missa, o cristão aprende novamente a lógica da Providência.
Cristo oferece-se ao Pai.
Cristo acolhe a vontade divina.
Cristo oferece o seu Corpo e o seu Sangue.
E o cristão é convidado a unir a sua própria vida a este sacrifício.
Isto significa que podemos colocar sobre o altar as nossas preocupações:
o nosso trabalho,
a nossa família,
os nossos problemas,
os nossos doentes,
os nossos defuntos,
os nossos projetos,
os nossos fracassos,
os nossos pecados,
os nossos desejos.
A Missa ensina-nos a dizer com Cristo:
«Não a minha vontade, mas a vossa.»
E isto não significa resignação.
Significa confiança.
19. A Providência e a confissão
Também o sacramento da Penitência pode ser compreendido a partir desta perspetiva.
Quando pecámos podemos pensar:
«Estraguei tudo.»
Mas a Providência não é anulada pelo nosso pecado.
Deus pode até transformar a nossa queda numa oportunidade de humildade, arrependimento e conversão.
Isto não significa que o pecado seja bom.
Não é.
Significa que a misericórdia de Deus é capaz de reconstruir aquilo que nós destruímos.
O pecador que se confessa sinceramente descobre uma das formas mais impressionantes da Providência: Deus não abandona o homem precisamente quando este se afastou d’Ele.
Procura-o.
Chama-o.
Espera por ele.
Restabelece-o.
20. «E se Deus não ouvir a minha oração?»
Esta é uma das experiências mais dolorosas da vida espiritual.
Rezamos.
Pedimos.
Insistimos.
E aparentemente nada muda.
Aqui devemos recordar algo essencial:
O silêncio de Deus não significa a ausência de Deus.
O próprio Cristo experimentou o silêncio.
No Getsémani pediu que o cálice passasse d’Ele.
O cálice não passou.
Mas a oração não foi inútil.
A vontade do Pai cumpriu-se.
E a Ressurreição mostrou que o silêncio da Sexta-Feira Santa não era o fim da história.
Às vezes queremos uma resposta imediata.
Deus pode agir num plano que ainda não conseguimos ver.
Às vezes pedimos a Deus que mude uma circunstância.
E Deus começa por mudar-nos a nós próprios.
Às vezes pedimos que uma cruz desapareça.
E Deus dá-nos a força para a carregar.
Às vezes pedimos uma solução.
E Deus dá-nos perseverança.
Às vezes pedimos que se abra uma porta.
E Deus conduz-nos para outra, na qual nunca tínhamos pensado.
21. A Providência e o discernimento dos espíritos
Devemos, contudo, evitar outro extremo.
Nem todo pensamento que temos vem de Deus.
Nem toda coincidência é um sinal.
Nem todo desejo é uma vocação.
Nem toda oportunidade é necessariamente determinada pela Providência.
A espiritualidade católica sempre atribuiu grande importância ao discernimento.
Devemos, portanto, recorrer a:
- a oração;
- a Sagrada Escritura;
- o ensinamento da Igreja;
- os sacramentos;
- o conselho bom e prudente;
- a direção espiritual, quando possível;
- a razão;
- a prudência;
- e a consideração dos frutos.
Um suposto «sinal de Deus» que nos conduz ao pecado não pode vir de Deus.
Uma interpretação providencial que contradiga a fé católica deve ser rejeitada.
Deus não se contradiz.
A Providência nunca deve ser utilizada para justificar algo que Deus revelou ser mau.
22. Onde está Deus quando tudo parece desmoronar?
Talvez esta seja a pergunta que resume todo o tema.
Quando perdemos o emprego.
Quando uma família se desintegra.
Quando uma pessoa morre.
Quando chega a doença.
Quando os nossos projetos fracassam.
Quando a sociedade parece afastar-se cada vez mais de Deus.
Quando vemos confusão até dentro da própria Igreja.
Quando o mundo parece ter perdido o sentido do bem e do mal.
Onde está Deus?
A fé responde:
Deus continua a ser Deus.
Não perdeu o controlo.
Deixou de amar? Não.
Não desapareceu.
Não abandonou a sua Igreja.
Não deixou de sustentar a criação.
Mas os seus caminhos nem sempre coincidem com os nossos.
O Catecismo exprime-o claramente: acreditamos firmemente que Deus é o Senhor do mundo e da história, embora os caminhos da sua Providência permaneçam frequentemente ocultos aos nossos olhos.
A fé consiste precisamente em confiar mesmo quando ainda não vemos.
23. A Providência não elimina o mistério: ensina-nos a viver dentro do mistério
A mentalidade moderna quer explicar tudo.
Queremos saber imediatamente:
Porquê?
Por que aconteceu comigo?
Por que Deus permitiu isto?
Por que esta pessoa entrou na minha vida?
Por que fracassei?
Por que adoeci?
Por que esta porta se fechou?
Por que esta oração não foi ouvida?
Mas o cristianismo não promete responder imediatamente a todas as nossas perguntas.
Promete algo melhor:
que podemos caminhar com Deus mesmo quando não conhecemos todas as respostas.
São Paulo recorda-nos:
«Agora vemos como num espelho, de maneira confusa; mas então veremos face a face. Agora conheço de modo imperfeito, mas depois conhecerei perfeitamente, como também sou conhecido.»
1 Coríntios 13,12
A nossa visão é limitada.
A de Deus não.
Nós vemos um instante.
Deus vê o conjunto.
Nós vemos uma ferida.
Deus vê toda a história.
Nós vemos uma porta fechada.
Deus vê o caminho completo.
Nós vemos a Sexta-Feira Santa.
Deus vê também o Domingo de Páscoa.
24. Uma espiritualidade do abandono e não da resignação
Aqui é útil distinguir dois conceitos.
A resignação pode significar:
«É assim e não posso fazer nada.»
O abandono cristão significa:
«Isto escapa ao meu controlo, mas permanece no conhecimento e no amor de Deus.»
A diferença é enorme.
O resignado desiste.
O crente continua a caminhar.
O resignado diz:
«Que posso fazer?»
O cristão diz:
«Senhor, não compreendo, mas confio em Vós.»
O resignado aceita porque não tem outra escolha.
O cristão aceita porque acredita que Deus pode fazer nascer vida até daquilo que parece morte.
Esta é a espiritualidade dos santos.
25. Como podemos fazer crescer diariamente a confiança na Providência?
Podemos começar por algo muito simples.
Todas as manhãs:
«Senhor, coloco este dia nas vossas mãos.»
Antes de começar o trabalho:
«Senhor, ajudai-me a fazê-lo bem e para a vossa glória.»
Diante de uma dificuldade:
«Senhor, dai-me luz para compreender aquilo que devo fazer.»
Diante daquilo que não podemos controlar:
«Senhor, coloco isto nas vossas mãos.»
Diante da tentação:
«Senhor, dai-me a graça de permanecer fiel.»
Diante de uma desgraça:
«Senhor, não compreendo isto, mas não quero separar-me de Vós.»
Antes de dormir:
«Obrigado por tudo aquilo que recebi. Perdoai os meus pecados e velai por mim esta noite.»
São palavras simples.
Mas podem transformar profundamente uma pessoa.
Porque, pouco a pouco, deixamos de viver como se tudo dependesse exclusivamente de nós.
26. Uma pequena regra espiritual para tempos de incerteza
Podemos resumir a espiritualidade da Providência em cinco passos.
1. Reza
Antes de desesperar, reza.
2. Discernir
Pergunta-te o que depende realmente de ti.
3. Age
Faz aquilo que razoavelmente podes fazer.
4. Oferece
Quando acontece algo que não podes mudar, oferece-o a Deus.
5. Confia
Deixa o resultado nas suas mãos.
Esta pequena regra pode ser extraordinariamente útil.
Porque muitas vezes sofremos não apenas por causa daquilo que acontece, mas porque tentamos controlar algo que nunca esteve sob o nosso controlo.
27. A Providência liberta-nos da obsessão pelo controlo
Uma das grandes doenças espirituais do nosso tempo é a necessidade de controlar.
Queremos controlar a nossa imagem.
O nosso futuro.
As nossas finanças.
A nossa saúde.
A nossa família.
A opinião dos outros.
O comportamento dos nossos filhos.
O resultado dos nossos projetos.
Queremos até controlar a maneira como Deus deve agir.
Mas Deus não é um empregado a quem damos instruções.
É Deus.
E nós somos criaturas.
Aceitar isto não nos humilha.
Liberta-nos.
Porque só quando reconhecemos que não somos Deus podemos verdadeiramente descansar em Deus.
28. «O vosso Pai sabe que precisais disso»
Talvez devêssemos repetir frequentemente estas palavras de Cristo numa época de ansiedade:
«Bem sabe o vosso Pai celeste que precisais de tudo isso.»
Mateus 6,32
Ele não diz:
«O vosso Pai dar-vos-á imediatamente tudo aquilo que quereis.»
Diz:
«Ele sabe que precisais disso.»
Deus sabe.
Deus vê.
Deus ouve.
Deus conhece.
E isto muda completamente a oração.
Não rezamos a um Deus indiferente que primeiro teríamos de convencer a prestar-nos atenção.
Rezamos a um Pai.
Mas a um Pai infinitamente mais sábio do que nós.
Por isso, a confiança cristã não consiste em dizer:
«Deus fará exatamente aquilo que eu quero.»
Consiste em dizer:
«Deus fará aquilo que é verdadeiramente bom, mesmo que eu ainda não consiga compreendê-lo.»
29. A maior prova da Providência é Jesus Cristo
Se um dia duvidarmos de que Deus nos ama, não devemos começar por observar as circunstâncias da nossa vida.
Devemos olhar para Cristo.
Deus não permaneceu distante perante o sofrimento humano.
Entrou na nossa história.
Assumiu a nossa carne.
Viveu no meio de nós.
Trabalhou.
Sofreu.
Chorou.
Foi rejeitado.
Foi perseguido.
Foi crucificado.
Morreu.
E ressuscitou.
Por isso, a Providência cristã não é uma doutrina fria sobre um Deus que, do céu, moveria as peças.
É a confiança num Deus que entrou pessoalmente na nossa história.
O centro da Providência não é uma ideia.
É uma Pessoa.
Jesus Cristo.
E em Cristo descobrimos que Deus pode transformar a Cruz em Ressurreição.
30. Quando não compreendes nada, permanece
Há momentos na vida em que provavelmente não encontraremos uma explicação satisfatória.
E talvez não devêssemos procurá-la imediatamente.
Haverá situações em que a única resposta possível será:
permanece.
Permanece na oração.
Permanece na Igreja.
Permanece diante do sacrário.
Permanece na verdade.
Permanece nos sacramentos.
Permanece fiel aos mandamentos.
Permanece mesmo quando não sentes nada.
Permanece mesmo quando não compreendes nada.
Permanece mesmo quando Deus parece guardar silêncio.
Porque a fé não consiste apenas em acreditar quando compreendemos.
A fé consiste também em permanecer quando não compreendemos.
31. A Providência e a esperança cristã
Finalmente, a Providência é inseparável da esperança.
Se Deus conduz a criação para um fim último, então a história não caminha para o absurdo.
A nossa existência tem uma direção.
O mundo tem um destino.
A história chegará à sua consumação.
A morte não terá a última palavra.
O pecado não terá a última palavra.
O sofrimento não terá a última palavra.
A injustiça não terá a última palavra.
A última palavra pertence a Deus.
E, para o cristão, essa última palavra tem um nome:
Cristo.
A Providência conduz para uma plenitude que ainda não vemos.
Por isso, o cristão pode sofrer sem desesperar.
Pode chorar sem perder a esperança.
Pode perder sem pensar que tudo terminou.
Pode atravessar a noite sabendo que existe uma manhã.
Conclusão: quando não vês o caminho, confia n’Aquele que o vê
A Divina Providência não é uma doutrina destinada apenas aos tratados teológicos.
É uma verdade para a segunda-feira de manhã.
Para o hospital.
Para o escritório.
Para a família.
Para o desemprego.
Para o casamento.
Para a doença.
Para o luto.
Para a educação dos filhos.
Para as decisões difíceis.
Para os tempos de incerteza.
Para as noites em que rezamos e parece que ninguém responde.
A Providência recorda-nos algo que o nosso tempo precisa urgentemente de ouvir:
Não somos Deus.
Não precisamos de conhecer o futuro.
Não precisamos de controlar cada acontecimento.
Não precisamos de compreender cada mistério.
Não precisamos de resolver hoje todos os problemas de amanhã.
Precisamos de ser fiéis em fazer aquilo que Deus nos pede hoje.
E depois confiar.
O Catecismo resume esta confiança recordando-nos que Cristo nos convida ao abandono filial à Providência do Pai e que São Pedro nos exorta a lançar sobre Deus todas as nossas preocupações, porque Ele cuida de nós.
Por isso, não desesperes quando uma porta se fecha.
Quando um projeto fracassa, não concluas que Deus te abandonou.
Quando uma oração parece não receber resposta, continua a rezar.
Quando aparece uma cruz, não perguntes apenas:
«Por que isto me está a acontecer?»
Ousa também perguntar:
«Senhor, o que quereis realizar em mim através disto?»
E quando já não puderes fazer mais nada, quando tiveres rezado, discernido, trabalhado, lutado e colocado nas mãos de Deus tudo aquilo que dependia de ti, então faz algo que pode ser um dos maiores atos de fé:
Confia.
Porque a Providência não promete que compreenderemos sempre os caminhos de Deus.
Promete algo muito maior:
que nunca caminharemos sozinhos.
E mesmo que os nossos olhos ainda não consigam ver o sentido da história, Deus já o vê.
Nós vemos uma página.
Ele vê o livro inteiro.
Nós vemos a Cruz.
Ele vê a Ressurreição.
Nós vemos o presente.
Ele vê a eternidade.
E talvez a oração mais simples para aprender a viver sob a Divina Providência seja também uma das mais profundas:
«Senhor, não sei o que o amanhã trará. Mas sei que Vós estareis lá. E isso me basta.»