A revolução silenciosa que mudou a forma como milhões de católicos compreendem a Santa Missa
Há perguntas que são incómodas precisamente porque nos obrigam a olhar para além das aparências.
Uma delas é:
Por que razão a liturgia católica mudou tão profundamente depois do Concílio Vaticano II?
Foi simplesmente para permitir que os fiéis compreendessem melhor aquilo que estava a acontecer?
Para favorecer uma participação mais consciente?
Para aproximar a celebração do homem moderno?
Ou será que a reforma modificou tão profundamente a linguagem, os gestos, a orientação, a música, o papel do sacerdote e a percepção do sacrifício, que a Missa começou a assemelhar-se, sob alguns aspectos, a determinadas formas de culto protestante?
Uma resposta católica séria não pode ser reduzida a um simples “sim” ou “não”.
Porque o Concílio Vaticano II não ensinou que a Missa deveria tornar-se protestante. Nem ordenou a abolição do latim, a supressão do canto gregoriano, a disposição obrigatória do altar voltado para o povo ou a transformação do sacerdote numa espécie de mestre de cerimónias ou moderador da assembleia.
Mas, do mesmo modo, não se pode negar que, nas décadas posteriores ao Concílio, ocorreu uma mudança litúrgica extraordinariamente profunda.
E essa mudança não foi apenas linguística.
Modificou, em muitos lugares, a experiência espiritual do católico diante do altar.
Modificou a percepção do sacerdote.
Modificou a relação entre o altar, o sacrário e o povo.
Modificou a música.
Modificou o silêncio.
Modificou a quantidade de participação exterior exigida aos fiéis.
Modificou a arquitectura.
Modificou o calendário.
Modificou a maneira de receber a Sagrada Comunhão.
E, sobretudo, modificou, em alguns contextos, a percepção daquilo que realmente acontece na Santa Missa.
Aqui encontra-se o coração da questão.
1. Antes de falar de “protestantização”, precisamos de compreender o que é a liturgia católica
O primeiro erro consiste em pensar que a liturgia é simplesmente uma maneira antiga de organizar uma assembleia religiosa.
Não é assim.
A liturgia não é um espectáculo.
Não é uma conferência.
Não é uma reunião comunitária.
Não pertence nem ao sacerdote nem aos fiéis.
A liturgia é, antes de tudo, adoração de Deus.
O Catecismo ensina que a Eucaristia é o memorial sacramental do sacrifício de Cristo e que nela Cristo está realmente presente.
Por isso, a pergunta fundamental nunca deveria ser:
«Sinto-me confortável durante a Missa?»
A pergunta deveria ser:
«Estou verdadeiramente a prestar culto a Deus e a entrar no mistério de Cristo?»
A diferença pode parecer pequena.
Mas muda completamente a nossa concepção da liturgia.
2. A Missa não nasceu no século XX
Antes de falarmos do Concílio Vaticano II, devemos recordar algo fundamental.
A Igreja não inventou a Missa no Concílio Vaticano II.
A Eucaristia vem do próprio Cristo.
Na Última Ceia, Nosso Senhor tomou o pão e o vinho e disse:
«Fazei isto em memória de mim.»
(Lucas 22,19)
Mas a Última Ceia não pode ser separada do Calvário.
Cristo instituiu a Eucaristia antecipando sacramentalmente o sacrifício que realizaria na Cruz no dia seguinte.
Por isso, São Paulo escreve:
«Todas as vezes, pois, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor, até que Ele venha.»
(1 Coríntios 11,26)
A Missa é, portanto, inseparável do sacrifício de Cristo.
Não recordamos simplesmente algo que aconteceu há dois mil anos.
O único sacrifício de Cristo torna-se sacramentalmente presente.
Esta verdade é fundamental para compreender qualquer discussão sobre a liturgia.
3. A Igreja sempre reformou a sua liturgia
Aqui devemos evitar outro erro.
Afirmar que a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II era exactamente idêntica à liturgia dos primeiros cristãos também não seria historicamente correcto.
O rito romano desenvolveu-se ao longo dos séculos.
São Gregório Magno teve um papel decisivo na configuração da liturgia romana.
Posteriormente houve mudanças medievais.
O Concílio de Trento, na sequência da crise provocada pela Reforma Protestante, realizou um importante trabalho de clarificação e uniformização litúrgica.
São Pio V promulgou em 1570 um Missal Romano que se tornou, durante séculos, a forma normativa do rito romano.
Portanto:
Uma reforma da liturgia não é, por si mesma, contrária à Tradição.
As verdadeiras perguntas são:
O que é reformado, por que é reformado e o que é conservado?
4. O Concílio Vaticano II: o que pediu realmente?
Chegamos aqui a uma das questões mais importantes de todo o debate.
A Constituição Sacrosanctum Concilium não pedia a criação de uma liturgia completamente nova.
Pelo contrário.
Afirmava explicitamente que na liturgia existem elementos imutáveis porque foram instituídos por Deus, e elementos que podem ser modificados.
E quando fala da reforma do rito da Missa, diz algo extremamente importante:
«Os ritos sejam simplificados, conservando cuidadosamente a sua substância.»
Pede também que sejam eliminadas repetições ou elementos de menor utilidade e que sejam recuperados outros elementos antigos, quando isso fosse oportuno.
Isto é fundamental.
Porque o Concílio não disse:
«Criem uma nova Missa.»
Disse:
«Reformem o rito.»
E fê-lo com um claro objectivo pastoral:
que os fiéis pudessem participar de modo mais consciente, devoto e activo.
5. O que significava, então, a “participação activa”?
Aqui encontramos provavelmente um dos maiores equívocos da época moderna.
Para muitos católicos, “participação activa” significa:
- ler;
- cantar;
- responder;
- levar as oferendas;
- fazer monições;
- falar continuamente;
- ser ministro extraordinário da Comunhão;
- fazer anúncios;
- participar visivelmente em diferentes actividades.
Mas isto não é necessariamente o significado da participação na liturgia.
O próprio Concílio Vaticano II falava de participação interior e exterior.
E pedia aos fiéis que compreendessem os ritos e as orações e deles participassem consciente, piedosa e activamente.
Uma verdadeira participação pode ser profundamente silenciosa.
Uma pessoa idosa que, durante o Cânon, se ajoelha e oferece interiormente os seus sofrimentos pode participar na Missa mais profundamente do que alguém que faz cinco intervenções públicas sem compreender o mistério.
Por isso Bento XVI recordaria posteriormente que a verdadeira participação não pode ser reduzida à actividade exterior. O recolhimento, a conversão interior, o jejum e a confissão fazem parte das condições para uma participação frutuosa.
6. O problema surge quando “participar” significa “fazer alguma coisa”
Aqui chegamos a um dos grandes problemas pastorais surgidos depois do Concílio.
Em alguns contextos ocorreu uma verdadeira mudança de mentalidade.
A pergunta passou de:
«Como posso entrar interiormente no sacrifício de Cristo?»
para:
«O que posso fazer durante a Missa?»
E as duas perguntas podem parecer idênticas.
Mas não são.
A liturgia não precisa que todas as pessoas estejam ocupadas.
Precisa que todas as pessoas estejam orientadas para Deus.
Sacrosanctum Concilium recorda explicitamente a importância do sagrado silêncio.
É, portanto, paradoxal que uma reforma destinada a favorecer a participação tenha podido produzir, em alguns lugares, celebrações extraordinariamente ricas em palavras, cânticos, intervenções e movimentos, mas com pouquíssimo silêncio.
E o silêncio não é ausência de participação.
Por vezes é a sua forma mais profunda.
7. O latim: o Concílio Vaticano II aboliu-o?
Não.
Este ponto deve ser esclarecido, porque existe uma enorme confusão histórica a este respeito.
Sacrosanctum Concilium afirma explicitamente:
«O uso da língua latina, salvo direito particular, seja conservado nos ritos latinos.»
Ao mesmo tempo, permite uma maior extensão do uso das línguas vernáculas, sobretudo nas leituras, nas monições, em algumas orações e nos cânticos.
Além disso, o parágrafo 54 estabelece que os fiéis sejam capazes de recitar ou cantar juntos em latim as partes do Ordinário da Missa que lhes competem.
É, portanto, historicamente falso afirmar:
«O Concílio Vaticano II ordenou a abolição do latim.»
Não é assim.
O que aconteceu posteriormente foi uma difusão extraordinariamente ampla das línguas vernáculas.
E aqui coloca-se uma questão pastoral.
Foi útil?
Sob muitos aspectos: sim.
Os fiéis podem compreender directamente as leituras e as orações.
Mas em muitos lugares perdeu-se também alguma coisa: uma dimensão universal do culto romano.
Um católico podia entrar numa igreja em Espanha, França, Alemanha, Itália ou Polónia e reconhecer imediatamente a mesma língua litúrgica.
O latim não era simplesmente uma língua “difícil”.
Era também um sinal de universalidade, continuidade e sacralidade.
8. E quanto ao ad orientem?
Outra mudança de enormes consequências psicológicas e teológicas foi a difusão da celebração versus populum, isto é, a celebração na qual o sacerdote está voltado para o povo.
Também aqui devemos ser precisos.
O Concílio Vaticano II não ordenou explicitamente que a Missa fosse celebrada com o sacerdote voltado para o povo.
A orientação do altar não foi prescrita por Sacrosanctum Concilium nesses termos.
Contudo, a celebração versus populum difundiu-se enormemente depois do Concílio.
E isto tem consequências simbólicas.
Quando sacerdote e povo estão orientados para o mesmo altar, transmite-se uma imagem particularmente forte:
Todos estão orientados para Deus.
O sacerdote não parece falar ao povo.
Conduz o povo para o Senhor.
Quando, pelo contrário, o sacerdote está constantemente voltado para a assembleia, pode – embora não necessariamente – produzir-se uma percepção diferente:
Sacerdote ↔ Povo.
A liturgia pode começar psicologicamente a parecer uma forma horizontal de comunicação.
E isto é particularmente perigoso numa época dominada pelo individualismo.
Porque a Missa não é, antes de tudo, uma conversa da comunidade consigo mesma.
É o povo de Deus que, unido a Cristo, presta culto ao Pai.
9. A Missa tornou-se uma “assembleia”?
Aqui tocamos numa questão muito delicada.
A Igreja é uma comunidade.
Certamente.
Somos o Corpo Místico de Cristo.
Mas a Igreja não é uma comunidade no sentido sociológico moderno.
Não somos uma associação de indivíduos que partilham determinados valores.
A Igreja vem de Cristo.
E a liturgia não existe simplesmente porque nos reunimos.
Reunimo-nos porque Cristo nos introduz no seu sacrifício.
Esta distinção é fundamental.
Quando a comunidade se torna protagonista, existe o risco de a liturgia perder a sua orientação vertical.
Deus deixa de parecer o centro.
E a comunidade começa a olhar para si mesma.
10. Aqui está a grande pergunta: houve uma “protestantização”?
A resposta deve ser matizada.
Não é correcto afirmar que a Igreja Católica tenha adoptado teologicamente uma doutrina protestante.
A doutrina católica sobre a Eucaristia permaneceu a mesma.
A Igreja continua a ensinar:
- a presença real de Cristo;
- a transubstanciação;
- o carácter sacrificial da Missa;
- o sacerdócio ministerial;
- a realidade do altar;
- a necessidade da graça;
- o culto eucarístico.
O Catecismo conserva claramente a doutrina tradicional sobre a Eucaristia.
Seria, portanto, teologicamente irresponsável dizer:
«A Igreja já não acredita no sacrifício da Missa.»
Não.
Mas existe outra questão.
A doutrina oficial e a percepção litúrgica dos fiéis são duas coisas diferentes.
E é precisamente aqui que existe um problema que não podemos ignorar.
11. Lex orandi, lex credendi
A Tradição Católica sempre compreendeu que existe uma ligação profunda entre a maneira como rezamos e a maneira como cremos.
Lex orandi, lex credendi.
A lei da oração está ligada à lei da fé.
Bento XVI recordou explicitamente esta ligação quando falou da liturgia tradicional.
Isto significa algo extraordinariamente importante:
A liturgia não exprime apenas a fé.
Ela também nos educa na fé.
Uma criança não aprende teologia apenas através de um livro.
Aprende-a também observando:
- onde se encontra o sacrário;
- como os adultos se ajoelham;
- como se recebe a Santa Comunhão;
- como está vestido o sacerdote;
- que cânticos são cantados;
- quanto silêncio existe;
- para onde se volta o sacerdote;
- como é tratado o altar;
- que palavras são pronunciadas.
Tudo isto é catequese.
12. Uma geração aprendeu que a Missa é um sacrifício
Durante séculos, o rito romano foi rico em sinais que indicavam constantemente o carácter sacrificial da Eucaristia.
O altar.
O silêncio.
O Cânon.
As genuflexões.
A orientação.
Os gestos sacerdotais.
A linguagem sacramental.
O uso do incenso.
A centralidade do sacrário.
A solenidade das palavras da consagração.
Tudo isto constituía um verdadeiro ecossistema teológico.
Um católico podia não conhecer a palavra “transubstanciação”.
Mas sabia que estava diante de algo desconcertante e sublime.
Estava diante de Deus.
13. Depois nasceu uma liturgia muito mais explicativa
A reforma procurava facilitar a compreensão.
E isto possui, sem dúvida, aspectos positivos.
O novo Leccionário ampliou significativamente o contacto dos fiéis com a Sagrada Escritura. O próprio Concílio Vaticano II tinha pedido que os “tesouros da Bíblia” fossem abertos mais amplamente.
Esta é uma conquista extremamente importante.
Mas existe um paradoxo:
Tornar algo mais compreensível não garante que seja compreendido mais profundamente.
Pode-se traduzir uma oração para a língua do povo e ninguém compreender, ainda assim, a sua profundidade teológica.
Pode-se explicar cada gesto e destruir o mistério.
Pode-se tornar tudo imediatamente compreensível e acabar por fazer com que nada pareça mais transcendente.
14. O perigo de uma liturgia excessivamente “horizontal”
Aqui encontramos uma das críticas mais sérias que podem ser dirigidas a determinadas formas de aplicação da reforma.
Não à reforma enquanto tal.
Mas à sua recepção prática.
Quando tudo está orientado para ser imediatamente compreensível, participativo e acessível, corre-se o risco de eliminar precisamente aquilo que distingue o culto católico de uma assembleia normal.
Uma assembleia normal precisa de:
- comunicação;
- interacção;
- participação;
- clareza.
O culto precisa também de:
- mistério;
- adoração;
- silêncio;
- sacrifício;
- transcendência;
- reverência.
A liturgia não pode tornar-se uma reunião agradável.
Deve conduzir-nos a Deus.
15. O que aconteceu à música?
Este é outro ponto fundamental.
Sacrosanctum Concilium não rejeitou a tradição musical da Igreja.
Pelo contrário.
Pedia que o tesouro da música sacra fosse conservado e cultivado cuidadosamente e incentivava a formação das scholae cantorum.
O canto gregoriano não foi declarado ultrapassado.
Contudo, em muitos lugares, a música litúrgica depois do Concílio abandonou progressivamente a linguagem tradicional.
Surgiram cânticos de estilo popular.
Guitarras.
Melodias características da música profana.
Cânticos centrados na comunidade.
Em alguns casos, até estilos musicais dificilmente distinguíveis daqueles utilizados em eventos juvenis.
E, mais uma vez, surge a pergunta:
A música ajuda-nos a olhar para Deus ou leva-nos a olhar para nós mesmos?
Nem toda a música moderna é má.
E nem toda a música antiga é automaticamente sagrada.
O critério católico deve ser outro:
Esta música exprime a santidade do culto e conduz a alma para Deus?
16. O sacerdote: sacerdote ou presidente?
A palavra conta.
Em ambientes influenciados por uma mentalidade sociológica, o sacerdote pode ser progressivamente percebido como aquele
«que preside à celebração».
Mas o sacerdote católico é mais do que isso.
É sacerdote.
Actua sacramentalmente in persona Christi Capitis.
Não é simplesmente um delegado de uma comunidade.
E a Eucaristia não é simplesmente a celebração de uma comunidade que recorda Jesus.
É Cristo que actua sacramentalmente.
Isto não exclui o povo.
Pelo contrário.
Toda a Igreja participa.
Mas cada um segundo o seu estado.
Sacrosanctum Concilium salienta precisamente isto: cada um deve realizar as acções que lhe correspondem segundo a natureza da acção litúrgica.
17. O grande erro: confundir o sacerdócio comum dos baptizados com o sacerdócio ministerial
Todos os baptizados participam do sacerdócio de Cristo.
Mas nem todos possuem o sacerdócio ministerial.
A diferença não é simplesmente funcional.
É sacramental.
Por isso, a liturgia deve expressar simultaneamente:
a participação de todo o povo
e
a acção sacerdotal própria e única do ministro ordenado.
Quando todos fazem a mesma coisa, existe o risco de apagar precisamente esta distinção.
E isso já não é católico.
18. A Santa Comunhão: uma mudança que também ensina
Também a maneira como se recebe a Eucaristia possui uma enorme importância catequética.
Durante séculos, no rito romano, a Santa Comunhão era normalmente recebida de joelhos e directamente na língua.
A difusão da Comunhão na mão modificou profundamente a experiência corporal do sacramento.
Isto não significa que receber a Comunhão na mão seja automaticamente irreverente quando é legitimamente permitido.
Mas coloca uma questão pastoral:
Que gestos expressam melhor que estamos a receber o Rei do universo?
A liturgia educa-nos através do corpo.
Ajoelhamo-nos diante de Deus.
Inclinamo-nos.
Permanecemos em silêncio.
Não porque Deus precise dos nossos gestos.
Mas porque nós precisamos de aprender através deles quem é Deus.
19. A perda do sentido do sagrado
Esta é talvez uma das consequências mais importantes.
Não necessariamente uma consequência desejada pelo Concílio.
Mas certamente uma consequência observável em determinados contextos.
Quando desaparecem progressivamente:
- o silêncio;
- o latim;
- o canto gregoriano;
- o incenso;
- as genuflexões;
- a orientação comum;
- a distinção entre presbitério e nave;
- a solenidade;
- as frequentes genuflexões;
pode produzir-se uma consequência psicológica:
A igreja começa a parecer-se com qualquer outro espaço humano.
E quando o templo já não parece pertencer a uma ordem diferente, pode também enfraquecer a consciência de que ali acontece algo radicalmente diferente.
20. “Deus está aqui”
A liturgia católica tradicional possui uma pedagogia extraordinariamente poderosa.
Não precisa de explicar continuamente:
«Estamos agora na presença de Deus.»
Exprime-o através do comportamento.
O silêncio.
As genuflexões.
O incenso.
O sagrado.
O canto.
Os gestos.
Tudo diz:
Aqui há algo que transcende infinitamente o homem.
E esta é uma forma de catequese de que o nosso tempo necessita urgentemente.
Vivemos numa cultura que coloca o homem no centro.
A liturgia deveria ensinar-nos precisamente o contrário:
Deus está no centro.
21. A liturgia deveria ser uma resposta ao homem moderno?
Em grande medida: sim.
E isto deve ser reconhecido.
O Concílio Vaticano II queria que os fiéis compreendessem melhor a liturgia e nela participassem consciente e frutuosamente. Sacrosanctum Concilium insiste repetidamente na importância da formação litúrgica.
O problema não estava necessariamente na intenção.
O problema surge quando uma boa intenção pastoral se baseia numa antropologia errada.
Se pensamos:
«O homem moderno não suporta o mistério.»
então eliminamos o mistério.
Se pensamos:
«O homem moderno precisa que tudo lhe seja explicado.»
enchemos a liturgia de explicações.
Se pensamos:
«O homem moderno quer sentir-se protagonista.»
fazemos do homem o protagonista.
Mas talvez o homem moderno precise precisamente do contrário.
Precisa de descobrir que não é Deus.
Precisa de silêncio.
Precisa de transcendência.
Precisa de se ajoelhar.
Precisa de descobrir que existe uma realidade que não depende das suas emoções.
Precisa de ouvir novamente:
«Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos.»
(Isaías 6,3)
22. Houve uma influência protestante?
Aqui devemos ser extremamente precisos.
Depois do Concílio existia um contexto ecuménico.
Havia contactos com comunidades protestantes.
Teólogos de diferentes tradições participaram como observadores ou peritos em determinados processos.
E alguns críticos da reforma salientaram semelhanças entre determinadas mudanças litúrgicas e algumas preocupações históricas da Reforma Protestante, sobretudo no que diz respeito à ênfase na:
- mesa;
- assembleia;
- proclamação da Palavra;
- compreensão comunitária;
- participação;
- redução de determinados elementos considerados secundários.
Mas daí não resulta automaticamente:
«A nova Missa foi concebida pelos protestantes.»
Uma afirmação desse género seria historicamente excessiva e exigiria provas concretas que não podem ser substituídas por simples semelhanças.
A pergunta mais interessante é:
Determinadas mudanças acabaram por produzir uma percepção da Missa mais próxima de algumas sensibilidades protestantes?
Em determinados contextos, isto pode efectivamente ser defendido como uma crítica teológica e pastoral, sobretudo quando a celebração é vivida principalmente como comunidade e proclamação, enquanto a dimensão sacrificial e adorante da Missa fica obscurecida.
Mas isto não significa que a Igreja tenha abandonado a doutrina católica.
23. A própria Igreja reconheceu que houve problemas
E isto é particularmente importante.
Bento XVI não negou a reforma litúrgica.
Pelo contrário.
Em Sacramentum Caritatis, explicou que a renovação litúrgica ligada ao Concílio Vaticano II tinha sido preciosa e tinha produzido frutos, mas reconheceu também as dificuldades e os abusos que acompanharam a sua recepção; salientou que as mudanças deveriam ser interpretadas na unidade do desenvolvimento histórico da liturgia e não através de “rupturas artificiais”.
Esta afirmação é extremamente importante.
Porque permite-nos superar dois extremos.
Primeiro extremo:
«Tudo o que aconteceu depois do Concílio Vaticano II foi perfeito e toda a crítica é desobediência.»
Não.
Segundo extremo:
«O Concílio Vaticano II destruiu completamente a Igreja e criou uma nova religião.»
Também não é correcto.
A realidade histórica é mais complexa.
24. Bento XVI e a hermenêutica da continuidade
Bento XVI procurou precisamente abordar esta questão numa perspectiva de continuidade.
Em Summorum Pontificum, explicou que o Missal de Paulo VI constitui a expressão ordinária da lex orandi do rito romano, enquanto o Missal de 1962 era então considerado a expressão extraordinária da mesma lex orandi.
O seu objectivo era evitar a ideia de que existiam duas Igrejas.
A questão era:
Como pode a Igreja preservar a sua tradição litúrgica e, ao mesmo tempo, permitir que as suas formas se desenvolvam legitimamente?
Esta pergunta continua a ser extraordinariamente actual.
25. O que aconteceu, então, à liturgia tradicional?
Aqui surge outro fenómeno interessante.
Muitos jovens que nunca viveram a época anterior ao Concílio começaram a descobrir a liturgia tradicional.
E isto é particularmente significativo.
Porque não estamos a falar apenas de pessoas idosas ligadas às recordações da sua infância.
Há jovens que procuram:
- silêncio;
- reverência;
- latim;
- canto gregoriano;
- orientação para Deus;
- recepção reverente da Santa Comunhão;
- um sacerdócio claramente expresso;
- continuidade histórica;
- solenidade;
- transcendência.
Porquê?
Talvez porque uma geração saturada de ruído esteja a descobrir o valor do silêncio.
Uma geração continuamente ligada a um ecrã descobre o valor do distanciamento.
Uma geração habituada ao relativismo procura algo que não muda.
E uma geração habituada a viver tudo em torno do indivíduo começa a descobrir a beleza de uma liturgia que diz:
Tu não és o centro.
26. A Tradição não é nostalgia
Este ponto é fundamental.
A liturgia tradicional não pode ser reduzida a:
«Antes era tudo melhor.»
Isso seria nostalgia.
A Tradição Católica é muito mais profunda.
Tradição significa receber algo que nós próprios não criámos.
O cristão não inventa a sua fé.
Recebe-a.
Recebe a Sagrada Escritura.
Recebe os sacramentos.
Recebe o Credo.
Recebe a doutrina.
Recebe a liturgia.
Recebe a espiritualidade.
Recebe uma herança.
E depois assume a responsabilidade de a transmitir.
São Paulo escreve:
«Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti.»
(1 Coríntios 11,23)
Esta frase poderia quase ser considerada um princípio de toda a espiritualidade tradicional.
Receber.
Conservar.
Viver.
Transmitir.
27. A liturgia não pertence a uma geração
Este é um dos grandes problemas da modernidade.
Existe a tentação de pensar:
«Os jovens preferem isto.»
«Os idosos preferem aquilo.»
«Esta música é mais moderna.»
«Este rito é demasiado antigo.»
Mas a liturgia não deveria estar simplesmente submetida às modas.
Porque a liturgia pertence a toda a Igreja:
- aos vivos;
- aos defuntos;
- aos santos;
- aos anjos;
- aos homens de todas as idades.
Quando vamos à Missa, não participamos num produto cultural do ano de 2026.
Entramos no culto da Igreja.
28. O problema pastoral de uma liturgia excessivamente informal
Nas últimas décadas desenvolveu-se também uma tendência para a informalidade.
Sacerdotes que improvisam constantemente.
Comentários intermináveis.
Aplausos.
Música inadequada.
Celebrações temáticas.
Intervenções espontâneas.
A liturgia torna-se uma espécie de evento.
Aqui devemos recordar algo que Bento XVI salientou com força:
A verdadeira participação é favorecida por uma adequada ars celebrandi.
Isto é: pela arte de celebrar correctamente.
A obediência às normas litúrgicas não é inimiga da participação.
É precisamente um dos seus fundamentos.
29. Quando o sacerdote desaparece… e quando aparece demasiado
Parece contraditório.
Mas existem dois perigos opostos.
Primeiro perigo: o sacerdote desaparece
Tudo parece ser uma actividade comunitária.
Segundo perigo: o sacerdote aparece demasiado
Toda a Missa depende da sua personalidade.
Em ambos os casos existe um problema.
O sacerdote não deve ser invisível, como se não tivesse uma função particular.
Mas também não deve tornar-se o protagonista.
O protagonista é Cristo.
Este é provavelmente um dos princípios mais importantes para recuperar uma verdadeira cultura litúrgica.
30. O altar não é um palco
Um palco serve para que alguém se apresente diante dos outros.
O altar destina-se ao sacrifício.
Esta distinção arquitectónica é extremamente importante.
Quando uma igreja é concebida como um teatro, a atenção concentra-se naturalmente naquele que está à frente.
Quando o espaço está orientado para o altar e para o sacrário, todo o edifício parece proclamar:
Deus está aqui.
Também a arquitectura é teologia.
31. E o sacrário?
Outro elemento de grande importância pastoral.
O lugar do Santíssimo Sacramento transmite uma mensagem.
Quando o sacrário ocupa o centro da igreja e tudo conduz até ele, mesmo um visitante que nada sabe de teologia compreende que ali existe uma presença particular.
Quando o sacrário é colocado num canto, a percepção pode mudar.
Isto não significa que Cristo esteja “menos presente” ali.
Mas muda a nossa pedagogia visual.
E a liturgia também precisa de uma pedagogia visual.
32. A liturgia deve converter o homem, não entretê-lo
Aqui podemos formular uma regra simples:
Se uma liturgia consegue fazer-me sentir protagonista, mas não me conduz à conversão, fracassou pastoralmente.
Se uma liturgia me conduz a ajoelhar-me diante de Cristo, a reconhecer o meu pecado, a escutar a sua Palavra e a oferecer-Lhe a minha vida, alcançou o seu objectivo.
A Missa não existe para provocar uma sensação.
Existe para dar-nos Cristo.
33. Não “assistimos” simplesmente à Missa: oferecemos o sacrifício com Cristo
Existe também uma expressão tradicional católica que vale a pena redescobrir.
Não somos espectadores.
Mas também não somos os produtores do sacrifício.
Cristo é o Sumo Sacerdote.
O sacerdote ministerial actua sacramentalmente na sua pessoa.
E os fiéis participam oferecendo espiritualmente a própria vida.
Isto está muito próximo daquilo que o próprio Concílio Vaticano II pedia:
que os fiéis aprendessem a oferecer-se juntamente com a oferta imaculada, não apenas pelas mãos do sacerdote, mas também juntamente com ele.
Que profundidade existe nisto!
A doença.
O trabalho.
Os problemas matrimoniais.
As preocupações.
Os pecados dos quais nos arrependemos.
Os sofrimentos.
Os sacrifícios.
Os filhos.
Os projectos.
Tudo pode ser colocado sobre o altar.
34. A Missa como escola do sacrifício
A nossa sociedade ensina:
«Procura o teu conforto.»
A Missa ensina:
«Entrega-te a ti mesmo.»
A nossa sociedade ensina:
«Faz tudo aquilo que te torna feliz.»
A Cruz ensina:
«Não se faça a minha vontade, mas a tua.»
A nossa sociedade ensina:
«Tu és o centro.»
A liturgia ensina:
«Santo, Santo, Santo é o Senhor.»
Por isso, uma liturgia verdadeiramente católica deveria formar pessoas capazes de sacrifício.
Porque o cristianismo sem sacrifício é incompreensível.
35. O que devemos reencontrar hoje?
Não precisamos necessariamente de pensar apenas em termos de “voltar atrás”.
Podemos, antes, falar de reencontrar aquilo que nunca deveria ter sido perdido.
1. O sentido do sagrado
A igreja deve ser diferente de qualquer outro edifício.
2. O silêncio
Precisamos de reencontrar autênticos momentos de silêncio antes, durante e depois da Missa.
3. O canto gregoriano
Não como peça de museu, mas como património musical vivo da Igreja latina.
4. O latim
Não como barreira, mas como património comum que pode coexistir com a língua vernácula.
5. A reverência
Genuflexões, inclinações, silêncio e dignidade.
6. A compreensão do sacrifício
A Missa deve voltar a ser explicada claramente como sacrifício de Cristo.
7. A adoração eucarística
Não pode existir uma verdadeira cultura eucarística sem adoração.
8. A confissão
A participação na Eucaristia requer uma vida de conversão.
9. A formação litúrgica
Não basta mudar as formas.
É preciso ensinar o seu significado.
10. A centralidade de Cristo
Acima do sacerdote, do coro, dos leitores, do grupo paroquial e de qualquer movimento.
Cristo.
36. Não precisamos de uma liturgia “mais moderna”
Talvez precisemos de uma liturgia mais católica.
Esta afirmação é muito mais profunda.
Porque “moderno” significa temporário.
“Católico” significa universal.
A Igreja não deve competir com o mundo.
Não deve utilizar exactamente os mesmos códigos do mundo para o atrair.
A Igreja possui algo que o mundo não pode oferecer:
Cristo.
E quando a liturgia torna verdadeiramente Cristo visível, acontece algo extraordinário.
O homem entra.
Encontra algo que ele próprio não criou.
E precisamente por isso pode começar a mudar.
37. A liturgia deve ser acessível, mas não banal
Existe uma enorme diferença entre:
tornar o mistério compreensível
e
eliminar o mistério para o tornar compreensível.
A primeira é evangelização.
A segunda é empobrecimento.
Uma criança talvez não compreenda a teologia da transubstanciação.
Mas pode aprender a ajoelhar-se.
Pode aprender a permanecer em silêncio.
Pode aprender que o altar é sagrado.
Pode aprender que o sacerdote não está a representar um papel.
Pode aprender que a hóstia consagrada não é um simples símbolo.
E com o tempo compreenderá.
38. Também a beleza evangeliza
Santo Agostinho falava da beleza como algo capaz de conduzir a alma para Deus.
A liturgia possui uma beleza que não é simplesmente decorativa.
É teológica.
O incenso diz:
Deus é santo.
O silêncio diz:
Deus é mistério.
O canto gregoriano diz:
Estamos a rezar, não estamos a ser entretidos.
O altar diz:
Cristo oferece-Se.
O sacrário diz:
Cristo está realmente presente.
A genuflexão diz:
Deus merece adoração.
O sacerdote com as vestes litúrgicas diz:
Não age por iniciativa própria.
Tudo fala.
39. O grande ensinamento do Concílio Vaticano II
Seria injusto transformar toda esta análise numa acusação contra o Concílio.
Sacrosanctum Concilium contém afirmações profundamente tradicionais:
- a liturgia como culto da divina majestade;
- a Eucaristia como sacrifício;
- a presença de Cristo;
- a importância do silêncio;
- a conservação do latim;
- a importância do canto gregoriano;
- a participação interior;
- a necessidade da formação litúrgica;
- a reverência;
- a continuidade com a Tradição.
O problema histórico é que a aplicação posterior foi muito além e, em alguns contextos, foi muito mais radical do que aquilo que muitas das disposições do próprio Concílio pareciam exigir.
É precisamente este um dos debates que continuam ainda hoje.
40. E este debate continua actual
Não estamos a falar de uma questão arqueológica.
É uma questão completamente actual.
Em 2026 continuamos a perguntar:
- O que significa participar na Missa?
- Que lugar deve ocupar o silêncio?
- Como deveria celebrar o sacerdote?
- Como é transmitida a fé através dos ritos?
- Como podemos recuperar o sentido do sagrado?
- Como podemos atrair os jovens sem banalizar o culto?
- Como podemos preservar a Tradição sem a transformar em nostalgia?
- Como podemos reformar legitimamente sem romper a continuidade?
- Como pode a Eucaristia voltar a ser o verdadeiro centro da vida católica?
E a resposta não se encontra simplesmente mudando algumas rubricas.
Porque o problema é mais profundo.
Precisamos de uma renovação litúrgica que seja, ao mesmo tempo, uma renovação da fé.
41. O verdadeiro problema não é o latim contra o português
Também não é:
Missa tradicional contra nova Missa.
A questão mais profunda é:
Deus ou o homem?
Quando Deus está no centro:
a língua será um instrumento.
A música será um instrumento.
A arquitectura será um instrumento.
Os gestos serão instrumentos.
O sacerdote será um servo.
Os fiéis serão adoradores.
A liturgia será sagrada.
Mas quando o homem acaba por ocupar o centro:
a liturgia torna-se uma experiência.
O sacerdote torna-se protagonista.
A música torna-se entretenimento.
A participação torna-se actividade.
A igreja torna-se uma sala.
E a Missa pode acabar por parecer uma assembleia.
42. A resposta não é a nostalgia, mas a adoração
Esta é talvez a conclusão mais importante para um católico tradicional.
Não defendemos uma liturgia antiga simplesmente porque é antiga.
Defendemo-la quando as suas formas contribuem para transmitir aquilo que a Igreja crê.
Não queremos o latim pelo latim.
Queremos reencontrar o sentido da universalidade e da sacralidade que ele pode expressar.
Não queremos o silêncio simplesmente porque gostamos do silêncio.
Queremos o silêncio porque precisamos de escutar Deus.
Não queremos o canto gregoriano porque é medieval.
Queremos redescobrir uma música nascida para a oração.
Não queremos ajoelhar-nos porque é um costume antigo.
Ajoelhamo-nos porque Cristo é Deus.
Não queremos que o sacerdote dê as costas ao povo por razões puramente estéticas.
Queremos que toda a comunidade, incluindo o sacerdote, possa expressar corporalmente que todos olhamos para o Senhor.
43. A liturgia de que precisamos
Talvez a Igreja do nosso tempo não precise de uma liturgia que procure ser mais parecida com o mundo.
Talvez precise de uma liturgia que mostre novamente ao mundo algo que o próprio mundo já não é capaz de mostrar.
O silêncio.
A eternidade.
O sacrifício.
A beleza.
A verdade.
O pecado.
A misericórdia.
A presença real.
A Cruz.
A Ressurreição.
E, sobretudo:
Jesus Cristo.
Porque quando o sacerdote diz:
«Isto é o meu Corpo.»
não estamos diante de uma metáfora.
Quando diz:
«Este é o meu Sangue.»
não estamos diante de uma simples representação.
Estamos diante do mistério da fé.
E, por isso, a liturgia não pode ser tratada como qualquer outra actividade humana.
44. Conclusão: mais acessível ou mais protestante?
Voltemos finalmente à nossa pergunta inicial.
A liturgia mudou para ser mais acessível ou para se tornar mais protestante?
A resposta historicamente rigorosa é:
O Concílio Vaticano II procurou uma renovação litúrgica capaz de favorecer uma participação mais consciente, activa e frutuosa, uma maior riqueza de textos bíblicos e uma melhor compreensão dos ritos. Não ordenou que a liturgia católica fosse transformada numa forma de culto protestante.**
Mas é igualmente legítimo perguntar se determinadas formas de aplicação da reforma produziram, em alguns lugares, uma concepção excessivamente horizontal, comunitária ou didáctica da Missa, que, na prática – sem eliminar a sua doutrina – tenha obscurecido o seu carácter sacrificial, sacerdotal e adorante.
E é aqui que se encontra um dos grandes desafios da Igreja no século XXI:
reencontrar o equilíbrio.
Não devemos opor:
Tradição contra Concílio.
Devemos reencontrar:
Tradição + verdadeira reforma + reverência + continuidade.
A Igreja não deve tornar a Missa menos misteriosa.
Deve ensinar o homem moderno a entrar no mistério.
Porque talvez o problema não seja que a liturgia seja demasiado difícil.
Talvez tenhamos esquecido algo muito mais simples:
«Não te aproximes! Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar onde estás é terra santa.»
(Êxodo 3,5)
Moisés não precisava que Deus tornasse a sarça ardente “mais acessível”.
Precisava de aprender a tirar as sandálias diante do mistério.
E talvez esta seja também a lição que a liturgia católica pode oferecer ao homem moderno.
Num mundo que grita, o silêncio.
Num mundo que banaliza tudo, o sagrado.
Num mundo que se adora a si próprio, a adoração.
Num mundo que foge do sacrifício, a Cruz.
E num mundo que procura desesperadamente algo verdadeiro: