Diante do cristianismo domesticado: Viva Cristo Rei! Quando o Evangelho deixa de incomodar o mundo

Existe um cristianismo que o mundo moderno pode tolerar sem grandes dificuldades.

Um cristianismo que fala muito de valores, mas pouco de pecado.
Que fala de fraternidade, mas evita falar de conversão.
Que fala de Jesus como exemplo moral, mas quase nunca como Senhor.
Que defende a dignidade humana, mas se envergonha de proclamar a soberania de Deus.
Que quer ser aceito por todos, mesmo ao preço de não dizer claramente aquilo que Cristo mandou ensinar.

É um cristianismo confortável.

Um cristianismo domesticado.

Um cristianismo que pode entrar perfeitamente numa sociedade secularizada, desde que não pretenda transformá-la, questioná-la nem recordar-lhe que existe uma Verdade acima das opiniões humanas.

Diante disso, a Igreja proclama algo muito maior, mais exigente e também mais libertador:

Viva Cristo Rei!

Não se trata de um grito político.
Não é nostalgia de uma determinada época histórica.
Não significa transformar o Evangelho num programa partidário.
Também não significa impor a fé pela força.

Significa algo infinitamente mais profundo:

Jesus Cristo é verdadeiramente Rei.

Rei dos corações.
Rei das consciências.
Rei da história.
Rei da Igreja.
Rei da criação.
Rei dos vivos e dos mortos.

E se Cristo é Rei, então o cristão não pode viver como se Cristo fosse simplesmente uma personagem admirável do passado.

A questão fundamental do nosso tempo não é apenas se continuamos a falar de Jesus.

A questão é qual lugar Jesus ocupa realmente na nossa vida.

Porque podemos falar de Cristo sem obedecer a Cristo. Podemos admirar Cristo sem seguir Cristo. Podemos defender certos valores cristãos sem aceitar o cristianismo. Podemos até utilizar o nome de Jesus enquanto eliminámos cuidadosamente da nossa fé tudo aquilo que possa ser incómodo.

E é precisamente aqui que aparece uma das grandes tentações espirituais do nosso tempo: transformar o cristianismo em algo que já não possa escandalizar ninguém porque previamente eliminámos dele tudo aquilo que exige conversão.

Mas o verdadeiro Cristo não se deixa domesticar.

Cristo não é um adorno cultural.

Cristo não é simplesmente um mestre de ética.

Cristo não é um símbolo de solidariedade.

Cristo não é uma inspiração entre muitas.

Cristo é o Senhor.

E por isso a Igreja pode dizê-lo com toda a força da fé:

«Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra» (Mt 28,18).


1. O que significa realmente dizer «Viva Cristo Rei!»?

Antes de utilizar esta expressão, devemos compreendê-la corretamente.

A palavra «rei» pode produzir hoje diferentes associações. Podemos pensar imediatamente em monarquias, governos, instituições políticas ou estruturas de poder.

Mas quando a Igreja proclama a realeza de Jesus Cristo, está a falar, antes de mais, de uma realidade cristológica e teológica.

Cristo é Rei porque é o Filho eterno do Pai feito homem.

Não estamos diante de um governante humano que recebeu temporariamente uma autoridade.

Estamos diante do Verbo encarnado.

São João começa o seu Evangelho afirmando:

«No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus» (Jo 1,1).

E esse Verbo «fez-se carne» (Jo 1,14).

Por isso, a realeza de Cristo possui uma profundidade incomparável.

Pio XI explicou na Quas Primas, a encíclica de 1925 dedicada à instituição da festa de Cristo Rei, que a realeza de Cristo não deve ser entendida simplesmente como uma metáfora. Cristo possui verdadeiramente autoridade régia. O Papa fundamenta esta realeza tanto nas Sagradas Escrituras como na união de Cristo com o Pai e na sua condição de Redentor.

O Catecismo da Igreja Católica ensina igualmente que Jesus Cristo é Senhor, que possui todo o poder no céu e na terra e que o seu senhorio alcança o cosmos e a história.

Portanto, quando um católico diz:

«Viva Cristo Rei!»

está a fazer uma verdadeira profissão de fé.

Está a dizer:

Jesus não é apenas alguém que admiro. É alguém a quem pertenço.

Está a dizer:

A minha vida tem um Senhor.

Está a dizer:

A verdade não depende da minha opinião.

Está a dizer:

A moral não nasce das modas sociais.

Está a dizer:

A minha consciência não é um reino absolutamente independente de Deus.

Está a dizer:

Cristo tem o direito de reinar em mim.

E é precisamente aqui que começa a verdadeira revolução cristã.


2. O problema do cristianismo domesticado

O cristianismo domesticado conserva determinadas palavras cristãs, mas elimina progressivamente o seu conteúdo sobrenatural.

Fala de amor, mas elimina o sacrifício.

Fala de misericórdia, mas elimina o arrependimento.

Fala de acolhimento, mas elimina a conversão.

Fala de dignidade, mas elimina Deus como fundamento dessa dignidade.

Fala de Jesus, mas evita falar da sua divindade.

Fala de Reino, mas transforma o Reino de Deus numa simples melhoria social.

Fala de paz, mas esquece que Cristo também é juiz.

Fala de liberdade, mas esquece que a verdadeira liberdade está orientada para a verdade e para o bem.

E assim produz-se uma transformação silenciosa.

O cristianismo deixa de ser uma religião de salvação e transforma-se numa espécie de filosofia humanitária.

Cristo é reduzido a um mestre de bons sentimentos.

O Evangelho transforma-se numa coleção de conselhos para sermos pessoas melhores.

A Igreja transforma-se numa organização social.

A liturgia transforma-se numa experiência comunitária.

A oração transforma-se em bem-estar emocional.

O pecado transforma-se em «fragilidade».

A conversão transforma-se em «crescimento pessoal».

A santidade transforma-se em «ser uma boa pessoa».

E o céu acaba por se transformar numa espécie de metáfora da esperança.

Mas isso já não é o cristianismo completo.

Porque o cristianismo começa precisamente com uma afirmação muito mais radical:

Deus entrou realmente na história.

O Verbo fez-se carne.

Cristo morreu pelos nossos pecados.

Cristo ressuscitou verdadeiramente.

Cristo subiu ao céu.

Cristo enviou o Espírito Santo.

Cristo fundou a sua Igreja.

Cristo instituiu os sacramentos.

Cristo chama à conversão.

Cristo julgará os vivos e os mortos.

E Cristo voltará na glória.

Isto é muito mais do que uma ética.


3. Um cristianismo que não incomoda já não se parece muito com o Evangelho

Há uma frase do Evangelho sobre a qual deveríamos refletir profundamente:

«Se fôsseis do mundo, o mundo amaria o que é seu; mas, porque não sois do mundo, pois Eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia» (Jo 15,19).

Cristo não está a dizer que o cristão deve procurar deliberadamente a rejeição.

Também não está a ensinar que devemos ser desagradáveis, agressivos ou incapazes de dialogar.

A Igreja não tem como missão provocar conflitos artificialmente.

Mas está a anunciar uma realidade inevitável:

a verdade cristã entrará necessariamente em conflito com determinadas formas de pensar quando estas contradizem o Evangelho.

E aqui aparece a tentação de adaptar a fé.

Se determinados ensinamentos são impopulares, podemos sentir a tentação de os suavizar.

Se a castidade parece antiquada, podemos deixar de falar dela.

Se a indissolubilidade matrimonial parece exigente, podemos reduzi-la a uma idealização.

Se o pecado incomoda, podemos substituí-lo por uma linguagem exclusivamente psicológica.

Se o inferno parece politicamente incorreto, podemos evitar mencioná-lo.

Se a Cruz parece demasiado dura, podemos substituí-la por uma mensagem permanente de bem-estar.

Mas Cristo nunca disse:

«Segui-me sempre que não for demasiado incómodo».

Disse:

«Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16,24).

Esse é o cristianismo real.


4. Cristo Rei não significa Cristo tirano

Aqui é necessária uma precisão teológica fundamental.

A realeza de Cristo nada tem a ver com a tirania.

Cristo não reina como os tiranos.

Não governa destruindo a liberdade humana.

Não obriga a amar.

Não conquista as almas através da violência.

O seu trono é a Cruz.

A sua coroa é uma coroa de espinhos.

O seu cetro é o serviço.

A sua vitória passa pelo sacrifício.

O próprio Cristo explicou-o diante de Pilatos:

«O meu reino não é deste mundo» (Jo 18,36).

Isto não significa que o seu Reino seja irrelevante para o mundo.

Significa que o seu Reino não procede das lógicas mundanas do poder.

Cristo não precisa de um exército para ser Rei.

Não precisa de propaganda.

Não precisa de manipulação.

Não precisa de violência.

A sua autoridade procede daquilo que Ele é e da verdade que anuncia.

Por isso, o cristianismo autêntico não precisa de se transformar numa ideologia.

O cristão não proclama Cristo Rei para substituir um partido político por outro.

Proclama Cristo Rei porque nenhum poder humano pode ocupar o lugar que pertence exclusivamente a Deus.


5. A Cruz: o trono desconcertante do Rei

Aqui encontramos um dos paradoxos mais profundos do cristianismo.

O Rei vence sendo aparentemente derrotado.

O Rei reina a partir de uma cruz.

O Rei vence morrendo.

O Rei conquista entregando-se.

O Rei salva através do sacrifício.

No Calvário encontramos um contraste extraordinário.

Os homens colocam sobre Jesus uma inscrição:

«Jesus Nazareno, Rei dos Judeus».

Eles pretendem transformá-la numa acusação.

Deus transforma-a numa proclamação.

A Cruz revela que tipo de Rei é Cristo.

Não é um rei que exige que outros morram por ele.

É um Rei que morre pelos seus súbditos.

Não é um rei que procura a sua própria glória.

É um Rei que se humilha por amor.

São Paulo exprime-o magistralmente:

«Humilhou-Se a Si mesmo, obedecendo até à morte, e morte de cruz. Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu o Nome que está acima de todo o nome» (Fl 2,8-9).

A realeza cristã começa na Cruz.

Por isso, qualquer tentativa de proclamar «Cristo Rei» sem aceitar a Cruz corre o risco de se transformar numa caricatura.


6. «Viva Cristo Rei!» perante o medo humano

Uma das grandes doenças espirituais do nosso tempo é o medo.

Medo de sermos diferentes.

Medo de sermos considerados antiquados.

Medo de confessar publicamente a fé.

Medo de falar do pecado.

Medo de defender a moral cristã.

Medo de dizer que algo está objetivamente errado.

Medo de utilizar palavras como «verdade», «conversão», «juízo», «inferno», «sacrifício» ou «santidade».

Medo, inclusive, de sermos identificados como católicos.

E quando o medo entra na vida cristã, acontece algo terrível:

o cristão começa a negociar com o mundo antes mesmo que alguém lho tenha pedido.

Começa a autocensurar-se.

A suavizar.

A esconder.

A pedir desculpa por acreditar.

A falar da fé como se fosse uma opinião privada que não pode ter qualquer consequência pública.

Mas os Apóstolos não agiram assim.

Depois de receberem o Espírito Santo, Pedro e João foram ameaçados para que deixassem de falar de Cristo.

A sua resposta foi:

«Quanto a nós, não podemos deixar de falar do que vimos e ouvimos» (At 4,20).

Isso é coragem cristã.

Não arrogância.

Não agressividade.

Não fanatismo.

Fidelidade.


7. A história de «Viva Cristo Rei!» e dos mártires

A expressão «Viva Cristo Rei!» adquiriu uma ressonância especial na história contemporânea do catolicismo hispânico, especialmente ligada aos mártires que deram testemunho de Cristo durante períodos de perseguição religiosa.

Mas devemos compreender algo essencial:

a força da expressão não está numa circunstância política concreta.

A sua raiz é muito mais antiga.

Os mártires de todos os séculos confessaram, com palavras ou com o próprio sangue, a supremacia de Cristo.

Os primeiros cristãos viviam num mundo onde o imperador podia exigir determinados atos de culto.

Os cristãos recusavam-se.

Não porque odiassem as autoridades civis.

Não porque quisessem destruir o Estado.

Mas porque havia uma fronteira que não podiam ultrapassar:

só Deus é Deus.

Quando o poder humano pretendia ocupar o lugar de Deus, o cristão dizia «não».

E esse «não» podia custar a liberdade.

Podia custar os bens.

Podia custar a vida.

Os mártires compreenderam algo que nós esquecemos facilmente:

há coisas que valem mais do que a própria vida.

A verdade.

A fé.

A fidelidade a Cristo.

A vida eterna.


8. Cristo Rei e a liberdade da Igreja

Pio XI relacionou explicitamente a realeza de Cristo com a liberdade da Igreja para cumprir a sua missão. Na Quas Primas, explicou que a Igreja, como instituição fundada por Cristo, não pode ser reduzida a uma organização subordinada aos interesses mutáveis do poder civil.

Isto não significa que a Igreja deva transformar-se num partido político.

Pelo contrário.

A Igreja transcende as estruturas partidárias.

Pode dialogar com diferentes formas de organização política sem se tornar propriedade de nenhuma delas.

Porque o seu Rei não é um presidente.

Não é um primeiro-ministro.

Não é um monarca temporal.

Não é uma ideologia.

É Jesus Cristo.

Por isso, o católico pode participar responsavelmente na vida pública sem jamais confundir o Evangelho com uma plataforma política concreta.

A Igreja pode ensinar princípios morais.

Pode defender a dignidade humana.

Pode proclamar a verdade sobre a vida, o matrimónio, a família, a justiça e a liberdade.

Mas nenhum partido pode apropriar-se de Cristo.

E nenhum católico deveria entregar a um partido a fidelidade que pertence exclusivamente a Jesus Cristo.


9. Cristo Rei também reina sobre a nossa consciência

Este ponto é decisivo.

É fácil falar de Cristo Rei em termos gerais.

É muito mais difícil permitir que Cristo seja Rei da nossa própria vida.

Porque podemos denunciar o secularismo enquanto vivemos como pagãos.

Podemos falar da defesa da fé enquanto negligenciamos a oração.

Podemos discutir sobre liturgia enquanto alimentamos ressentimento.

Podemos defender a doutrina enquanto tratamos mal a nossa família.

Podemos publicar citações dos santos enquanto vivemos escravizados pelos nossos vícios.

Podemos gritar «Viva Cristo Rei!» e, ao mesmo tempo, negar-Lhe o governo da nossa própria existência.

A primeira conquista de Cristo deve ser o nosso próprio coração.

Santo Agostinho compreendeu perfeitamente esta dinâmica.

Deus não quer simplesmente que reconheçamos que Ele existe.

Quer que voltemos para Ele.

Que a nossa inteligência se submeta à verdade.

Que a nossa vontade se submeta ao bem.

Que os nossos afetos sejam purificados.

Que o nosso corpo seja vivido segundo a sua dignidade.

Que o nosso tempo seja ordenado.

Que os nossos bens sejam utilizados corretamente.

Que a nossa família pertença a Cristo.

Que o nosso trabalho seja oferecido a Deus.

Que a nossa morte seja confiada a Ele.

Isto significa realmente que Cristo reine.


10. Cristo Rei da mente

Vivemos numa época de excesso de informação.

Nunca tivemos acesso a tanta informação.

Mas informação não significa sabedoria.

As redes sociais podem fazer com que uma mentira seja repetida milhares de vezes até parecer verdadeira.

Um vídeo de trinta segundos pode substituir anos de estudo.

Uma opinião pode ser apresentada como conhecimento.

Uma emoção pode ser apresentada como argumento.

E a cultura digital pode criar pequenas bolhas onde cada pessoa ouve apenas aquilo que confirma o que já pensa.

Por isso, proclamar Cristo Rei significa também permitir que Cristo governe a nossa inteligência.

O cristão deve perguntar-se:

Aquilo em que acredito é verdadeiro?

Aquilo que partilho é verdadeiro?

Estou a espalhar rumores?

Estou a julgar injustamente?

Estou a transformar a fé numa guerra permanente de opiniões?

Cristo é Rei também da inteligência.

Pio XI destacou precisamente que Cristo reina nas inteligências porque Ele é a Verdade e d’Ele procede a verdade que o ser humano é chamado a receber.

Por isso, um católico não deveria ter medo de estudar.

A fé não teme a verdade.

A fé autêntica procura a verdade.


11. Cristo Rei da família

Uma das grandes batalhas espirituais do nosso tempo trava-se dentro das casas.

Uma família cristã não é simplesmente uma família que tem uma cruz na parede.

É uma família onde Cristo tem um lugar real.

Reza-se?

Bendiz-se a mesa?

Ensina-se as crianças a pedir perdão?

Fala-se de Deus?

Celebra-se o domingo como Dia do Senhor?

Participa-se na Santa Missa?

Ensina-se aos filhos a distinguir o bem do mal?

Ensina-se-lhes que a castidade é uma virtude?

Fala-se da morte e da vida eterna?

Ensina-se-lhes a amar a Igreja?

Ajuda-se os filhos a compreender que ser cristão não consiste simplesmente em ser uma boa pessoa?

Cristo Rei deve entrar na família.

Porque uma família sem Deus pode acabar por depender exclusivamente das modas culturais para educar os seus filhos.

E as modas mudam.

A verdade permanece.


12. Cristo Rei do nosso tempo livre

Pode parecer um detalhe insignificante.

Não é.

O que fazemos com as nossas horas?

O que consumimos?

O que vemos?

O que ouvimos?

O que seguimos na internet?

Sobre o que falamos?

Quanto tempo dedicamos à oração?

Quanto tempo dedicamos ao ecrã?

Cristo não quer apenas uma hora semanal.

Quer a nossa vida.

O cristianismo não consiste em separar:

«Isto é religioso»

de

«Esta é a minha vida normal».

Tudo pertence a Cristo.

O nosso trabalho.

O nosso descanso.

A nossa sexualidade.

A nossa economia.

A nossa educação.

A nossa política.

A nossa cultura.

Os nossos amigos.

Os nossos projetos.

Os nossos sofrimentos.

A nossa morte.

Tudo pode tornar-se lugar de encontro com Deus.


13. Cristo Rei e o pecado

Aqui chegamos a um dos pontos mais difíceis.

Se Cristo é Rei, então existe uma lei.

E se existe uma lei divina, existe também o pecado.

O cristianismo contemporâneo pode sentir a tentação de falar do pecado apenas como uma imperfeição psicológica.

Mas o pecado é muito mais sério.

É uma ruptura com Deus.

É uma rebelião contra a ordem querida por Deus.

É uma escolha voluntária contra o bem conhecido.

Por isso, o cristianismo não pode eliminar a conversão.

João Batista começou a sua pregação dizendo:

«Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus» (Mt 3,2).

Observemos a relação.

Reino e conversão.

Cristo reina.

Portanto, nós devemos converter-nos.

Não pode haver verdadeira proclamação de Cristo Rei sem arrependimento.


14. Misericórdia sem conversão: uma falsificação perigosa

Um dos erros mais frequentes consiste em opor misericórdia e verdade.

Como se tivéssemos de escolher:

ou misericórdia

ou

verdade.

Mas em Cristo ambas se encontram.

A misericórdia não significa dizer que o pecado não importa.

A misericórdia significa que Deus oferece ao pecador a possibilidade de voltar.

O pai do filho pródigo não diz:

«O que fizeste estava bem».

Abraça-o.

Recebe-o.

Restaura-o.

Mas o filho voltou.

Há conversão.

Por isso, a misericórdia cristã nunca é uma simples aprovação.

A verdadeira misericórdia é muito mais exigente:

ama o pecador o suficiente para desejar a sua salvação.


15. Cristo Rei e a santidade

A grande resposta ao cristianismo domesticado não é simplesmente falar mais alto.

É ser santo.

Porque uma Igreja cheia de pessoas santas é muito mais difícil de domesticar.

Os santos não foram necessariamente pessoas barulhentas.

Muitos foram silenciosos.

Santa Teresa de Lisieux viveu escondida.

São José trabalhou em silêncio.

Santa Teresa de Calcutá serviu os pobres.

São Maximiliano Maria Kolbe ofereceu a sua vida.

São Francisco de Assis abraçou a pobreza.

São João Maria Vianney passou incontáveis horas no confessionário.

Os mártires deram testemunho.

A santidade assume muitas formas.

Mas todos tinham algo em comum:

Cristo não ocupava um canto das suas vidas. Cristo era o centro.


16. A Igreja não precisa de um cristianismo mais confortável, mas de cristãos mais santos

Talvez esta seja uma das perguntas fundamentais do nosso tempo.

Não precisamos apenas de novas estratégias.

Não precisamos apenas de melhores campanhas.

Não precisamos simplesmente de uma comunicação mais atraente.

Precisamos de santos.

Santos que rezem.

Santos que conheçam a doutrina.

Santos que confessem os seus pecados.

Santos que eduquem os seus filhos.

Santos que trabalhem honestamente.

Santos que sofram com esperança.

Santos que saibam defender a verdade sem perder a caridade.

Santos que saibam dizer «não» quando for necessário.

Santos que saibam perdoar.

Santos que não tenham medo de viver cristãmente.

Porque a evangelização começa muitas vezes muito antes de pronunciarmos uma palavra.

Começa quando alguém contempla a nossa vida e pode perguntar-se:

«O que tem aquela pessoa que eu não tenho?»


17. O Reino de Cristo já está presente, mas ainda não chegou à sua plenitude

A teologia católica mantém uma tensão extraordinariamente bela.

Cristo já reina.

Mas ainda esperamos a manifestação plena do seu Reino.

O Catecismo ensina que Cristo reina já através da Igreja, que é o germe e o princípio do Reino na terra, enquanto esperamos a sua consumação definitiva.

Por isso, o cristão vive entre duas realidades:

já

e

ainda não.

Já fomos redimidos.

Mas ainda esperamos a ressurreição gloriosa.

Já temos a graça.

Mas ainda lutamos contra o pecado.

Já conhecemos Cristo.

Mas ainda caminhamos para a visão beatífica.

A vitória já pertence a Cristo.

Mas ainda experimentamos a presença do mal.

Isto impede dois erros.

O primeiro é o pessimismo absoluto:

«Está tudo perdido».

Não.

Cristo venceu.

O segundo é o triunfalismo ingénuo:

«O Reino de Deus já está completamente realizado na terra».

Também não.

Ainda esperamos.

Ainda lutamos.

Ainda sofremos.

Ainda evangelizamos.

Ainda pedimos:

«Venha a nós o vosso Reino».


18. Como se combate o cristianismo domesticado?

Não através do ódio.

Não através da violência.

Não através dos insultos.

Não através de conspirações.

Não através da obsessão política.

Não através de uma guerra permanente contra todos aqueles que pensam de maneira diferente.

Combate-se através da fidelidade.

Primeiro: recuperar a oração

Um cristão que não reza acaba por depender de si mesmo.

E aquele que depende apenas de si mesmo acaba por ficar exausto.

A oração recorda-nos que Cristo é verdadeiramente Rei.

Segundo: recuperar a confissão

O Sacramento da Penitência destrói uma das grandes mentiras modernas:

«Não preciso que ninguém me diga que estou a fazer algo errado».

Precisamos de conversão.

Precisamos de graça.

Precisamos de misericórdia.

Terceiro: recuperar a Eucaristia

Na Eucaristia, Cristo está realmente presente.

Não simbolicamente.

Não metaforicamente.

Realmente.

E diante de Cristo Eucarístico aprendemos quem é verdadeiramente o nosso Rei.

Quarto: recuperar a doutrina

Um católico que não conhece a sua fé é facilmente manipulado.

Por isso, devemos ler o Catecismo.

Estudar a Sagrada Escritura.

Conhecer a Tradição.

Ler os santos.

Conhecer o Magistério.

Quinto: recuperar a vida sacramental

O cristianismo não é uma ideologia.

É uma vida sobrenatural.

A graça de Deus transforma o homem.

Sexto: educar os filhos

Não podemos delegar completamente a formação espiritual dos nossos filhos na cultura.

A família tem uma responsabilidade insubstituível.

Sétimo: viver com coerência

A proclamação de Cristo Rei deve começar na nossa própria casa.


19. O que significa hoje gritar «Viva Cristo Rei!»?

Significa levantar-se todas as manhãs e dizer:

«Senhor, a minha vida é vossa».

Significa escolher a verdade mesmo quando é incómoda.

Significa permanecer fiel mesmo quando ninguém aplaude.

Significa rejeitar o pecado mesmo quando é popular.

Significa perdoar quando custa.

Significa defender a fé sem odiar quem não acredita.

Significa educar os filhos na fé.

Significa trabalhar honestamente.

Significa guardar a pureza.

Significa respeitar o matrimónio.

Significa defender a vida humana.

Significa recorrer a Deus no sofrimento.

Significa ajoelhar-se diante de Cristo.

Significa confessar os nossos pecados.

Significa levantar-se novamente depois de cair.

Significa recordar que nenhuma moda cultural pode tornar-se o critério supremo da verdade.

E significa também aceitar algo profundamente consolador:

não somos nós que temos de salvar o mundo.

O mundo já tem um Salvador.

O seu nome é Jesus Cristo.


20. Cristo não precisa que o tornemos moderno

Existe uma tentação particularmente subtil.

Pensar que temos de «atualizar» Cristo para que possa ser aceite.

Mas Cristo não precisa de ser atualizado.

Somos nós que precisamos de nos converter.

O Evangelho não precisa de se adaptar a cada geração até perder o seu conteúdo.

Precisa de ser anunciado de forma compreensível a cada geração.

Existe uma diferença enorme.

Podemos utilizar novos meios.

Novas tecnologias.

Novas formas de comunicação.

Novas linguagens pedagógicas.

Mas o conteúdo da fé não pode transformar-se numa substância maleável que assume qualquer forma apenas para ser aceite.

O cristianismo não existe para que o mundo diga:

«Que agradável é esta religião, porque não me exige mudar nada».

Existe para anunciar:

«Cristo ama-te e chama-te à conversão, a viver na graça e a entrar na vida eterna».


21. O Rei que voltará

Existe uma dimensão escatológica que nunca deveríamos esquecer.

Cristo não reinou apenas há dois mil anos.

Cristo reina agora.

E Cristo voltará.

O Catecismo ensina que Cristo possui o direito de julgar definitivamente as obras e os corações humanos e que esse direito está ligado à sua obra redentora.

Isto deveria transformar a nossa maneira de viver.

Porque um dia desaparecerão os nossos argumentos.

Desaparecerão as nossas desculpas.

Desaparecerão as nossas máscaras.

Desaparecerá a aprovação dos outros.

Não importará quantos seguidores tivemos.

Não importará quantos «gostos» recebemos.

Não importará se fomos populares.

Não importará se o mundo nos considerou modernos ou antiquados.

A pergunta será muito mais simples:

Amei Cristo?

Vivi na sua graça?

Fui fiel?

Arrependi-me dos meus pecados?

Amei o próximo?

Vivi segundo a verdade?

Porque Cristo é Rei.

E chegará o dia em que toda a criação reconhecerá plenamente aquilo que a fé proclama agora.


22. «Todo o joelho se dobre»

São Paulo escreveu:

«Ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e nos abismos, e toda a língua proclame: Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai» (Fl 2,10-11).

Esta é a perspetiva definitiva.

O mundo pode ignorar Cristo.

Pode zombar de Cristo.

Pode tentar reduzi-lo a uma personagem histórica.

Pode substituí-lo por ideologias.

Pode transformar a sua mensagem numa coleção de valores.

Pode tentar domesticá-lo.

Mas nada disso muda a realidade.

Cristo continua a ser Rei.

A sua realeza não depende das sondagens.

Não depende das tendências.

Não depende dos governos.

Não depende dos meios de comunicação.

Não depende de uma geração o reconhecer.

Cristo é Rei porque é o Senhor.


23. Diante do cristianismo domesticado, recuperar a radicalidade do Evangelho

Talvez o grande desafio do nosso tempo não seja conseguir que o cristianismo seja mais aceitável.

Talvez seja conseguir que nós, cristãos, voltemos a ser verdadeiramente cristãos.

Que voltemos a rezar.

Que voltemos a confessar-nos.

Que voltemos a comungar dignamente.

Que voltemos a conhecer a doutrina.

Que voltemos a ler a Escritura.

Que voltemos a amar os santos.

Que voltemos a ensinar os nossos filhos.

Que voltemos a viver a liturgia com reverência.

Que voltemos a falar do pecado e da graça.

Que voltemos a falar do céu.

Que voltemos a recordar a morte.

Que voltemos a esperar a ressurreição.

Que voltemos a compreender que a Igreja não existe para confirmar as nossas opiniões, mas para nos conduzir à verdade e à salvação.

E, sobretudo, que voltemos a colocar Cristo no centro.

Porque talvez tenhamos tentado resolver demasiadas coisas olhando para todos os lados menos para Ele.


24. Cristo Rei começa por nós

Não podemos exigir que Cristo reine na sociedade se Ele não reina na nossa alma.

Não podemos denunciar o secularismo enquanto vivemos secularmente.

Não podemos lamentar a perda da fé enquanto nós próprios deixamos de rezar.

Não podemos pedir famílias cristãs se não construímos lares cristãos.

Não podemos exigir respeito pela liturgia se participamos nela distraidamente.

Não podemos falar de evangelização se a nossa vida não reflete o Evangelho.

A grande batalha começa no interior.

Cristo quer ser Rei do nosso coração.

E para isso temos de lhe abrir a porta.

Como diz o Apocalipse:

«Eis que estou à porta e bato» (Ap 3,20).

Cristo bate.

Não arromba a porta.

Não obriga.

Espera.

Mas quando abrimos, começa uma transformação.


25. O verdadeiro significado de «Viva Cristo Rei»

Por isso, quando um católico pronuncia:

Viva Cristo Rei!

não deveria fazê-lo como um simples lema.

Deveria ser uma oração.

Viva Cristo Rei na minha inteligência.

Que eu pense segundo a verdade.

Viva Cristo Rei na minha vontade.

Que eu escolha o bem.

Viva Cristo Rei no meu coração.

Que eu ame corretamente.

Viva Cristo Rei na minha família.

Que a nossa casa seja cristã.

Viva Cristo Rei no meu trabalho.

Que eu aja com justiça e honestidade.

Viva Cristo Rei nas minhas palavras.

Que eu não minta nem destrua o próximo.

Viva Cristo Rei nos meus olhos.

Que eu não procure aquilo que corrompe o coração.

Viva Cristo Rei no meu corpo.

Que eu o trate como templo do Espírito Santo.

Viva Cristo Rei nos meus sofrimentos.

Que eu não perca a esperança.

Viva Cristo Rei na minha morte.

Que eu possa entregar a minha vida nas suas mãos.

E então essa expressão deixa de ser apenas um grito.

Torna-se uma existência.


Conclusão: não queremos um Cristo domesticado

O mundo pode tolerar facilmente um Cristo reduzido a mestre de moral.

Pode tolerar um Jesus transformado em símbolo de solidariedade.

Pode tolerar um Jesus transformado em inspiração cultural.

Pode tolerar até um Jesus que apareça em quadros, monumentos, livros e celebrações, desde que permaneça cuidadosamente encerrado no âmbito do privado.

Mas o Cristo do Evangelho não aceita esse lugar.

Porque Cristo não disse:

«Admirai-me».

Disse:

«Segue-me».

Não disse:

«Incluí-me entre as vossas opiniões».

Disse:

«Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida» (Jo 14,6).

Não disse:

«Retirai de mim os valores que vos forem úteis».

Disse:

«Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me» (Mt 16,24).

E por isso, diante de um cristianismo reduzido a valores humanos, diante de uma fé transformada em simples sentimento, diante de uma religião que teme confessar a verdade, diante de um Evangelho mutilado para o tornar mais cómodo, o católico deve recuperar uma certeza simples e radical:

Jesus Cristo é Rei.

Rei quando o mundo o aclama.

Rei quando o mundo o rejeita.

Rei quando somos muitos.

Rei quando estamos sozinhos.

Rei na glória.

Rei na Eucaristia.

Rei na Cruz.

Rei no coração do santo.

Rei no último suspiro do mártir.

Rei da história.

Rei da Igreja.

Rei das nossas famílias.

Rei das nossas almas.

E chegará o dia em que veremos com os nossos próprios olhos aquilo que agora acreditamos pela fé.

Então já não haverá discussão.

Já não haverá opiniões.

Já não haverá ideologias.

Já não haverá modas.

Restará apenas a verdade.

Jesus Cristo é o Senhor.

Por isso, hoje, amanhã e até ao último dia, a Igreja pode continuar a proclamá-lo com humildade, coragem e esperança:

VIVA CRISTO REI!

Não como um grito de ódio.

Não como uma bandeira partidária.

Não como nostalgia política.

Mas como uma profissão de fé.

Como uma promessa.

Como uma oração.

Como uma entrega.

Como o reconhecimento de que, acima de todos os poderes humanos, existe um Rei que não passa, um Reino que não termina e uma Verdade que nenhuma época pode abolir.

Viva Cristo Rei!

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

Veja também

Quando um povo não católico entra na sua terra: o que deve fazer um católico diante de uma invasão, da insegurança e do sofrimento?

Existem situações históricas que obrigam um cristão a fazer perguntas desconfortáveis. O que acontece quando …

error: catholicus.eu