Sucesso. Uma palavra que desperta admiração, ambição, esforço e, em muitos casos, obsessão. Desde pequenos aprendemos que devemos “vencer na vida”, destacar-nos, acumular conquistas, obter reconhecimento e construir uma vida que os outros considerem admirável. As redes sociais multiplicaram essa pressão a níveis inimagináveis há apenas vinte anos. Hoje, o sucesso parece ser medido pelo número de seguidores, pelos bens materiais, pelos títulos académicos, pelas viagens, pela influência, pela aparência física ou pela riqueza.
No entanto, há uma pergunta que muito poucas pessoas se atrevem a fazer:
O que acontecerá com tudo isso quando chegar a morte?
A fé católica responde com uma clareza profundamente contracultural: tudo aquilo que não estiver unido a Deus acabará por se tornar pó.
Esta afirmação não pretende desprezar o trabalho, o estudo, o progresso humano ou o desenvolvimento profissional. A Igreja nunca condenou o sucesso entendido como fruto de um esforço honesto. O que ela denuncia continuamente é transformar esses bens temporais no centro da existência, substituindo o único Bem absoluto: Deus.
Vivemos numa época que confundiu sucesso com felicidade, fama com dignidade e riqueza com bênção. Mas a Sagrada Escritura, a Tradição da Igreja e o testemunho dos santos oferecem uma perspetiva completamente diferente.
Este artigo pretende ser uma reflexão incómoda, sim, mas profundamente libertadora.
Porque aquilo que hoje o mundo aplaude pode desaparecer amanhã.
E aquilo que hoje parece invisível aos olhos dos homens pode resplandecer para sempre diante de Deus.
A miragem do sucesso moderno
Nunca uma geração teve tantas oportunidades para se tornar visível.
Um vídeo viral.
Uma empresa de sucesso.
Milhares de seguidores.
Reconhecimento público.
Prémios.
Cargos prestigiados.
E, no entanto, nunca uma geração experimentou tanta ansiedade, tanto vazio existencial e tanto medo do fracasso.
Porquê?
Porque o ser humano foi criado para o infinito.
Nenhum sucesso limitado pode preencher um coração que foi criado para Deus.
Santo Agostinho expressou esta verdade numa das frases mais profundas da história do cristianismo:
«Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousar em Ti.»
O problema não é alcançar o sucesso.
O problema é esperar que o sucesso faça aquilo que só Deus pode fazer.
A Bíblia já nos tinha advertido
Há quase três mil anos, o livro do Eclesiastes descrevia com impressionante precisão a sociedade moderna.
«Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes; vaidade das vaidades, tudo é vaidade.» (Eclesiastes 1,2)
A palavra hebraica utilizada, hebel, significa literalmente:
- vapor;
- fumo;
- neblina;
- algo que aparece e desaparece.
Isto não significa que a criação seja má.
Significa que tudo o que é terreno é passageiro.
O homem trabalha durante décadas.
Acumula riquezas.
Constrói empresas.
Escreve livros.
Ergue edifícios.
Mas chegará o dia em que outro herdará tudo.
O Eclesiastes faz eco de outra grande verdade bíblica presente no Livro de Job:
«Nu saí do ventre de minha mãe e nu para lá voltarei.» (cf. Job 1,21)
Nada de material atravessa o limiar da morte.
Nada.
O maior erro espiritual do nosso tempo
Talvez o maior pecado cultural do nosso tempo seja termos esquecido a eternidade.
Vivemos como se nunca fôssemos morrer.
Planeamos a reforma.
Investimos para os próximos trinta anos.
Pensamos em seguros.
Em empréstimos para habitação.
Em férias.
Na carreira profissional.
Mas raramente pensamos na nossa alma.
No entanto, Cristo nunca escondeu esta realidade.
Disse-o com absoluta clareza:
«Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?» (Marcos 8,36)
É uma das perguntas mais radicais de todo o Evangelho.
Reparemos que Jesus não diz:
«Ganhar uma parte do mundo.»
Ele diz:
«O mundo inteiro.»
Mesmo que alguém alcançasse o maior sucesso imaginável…
Se perdesse a sua alma…
Tudo teria sido um fracasso.
A parábola do rico insensato: uma mensagem para o nosso século
Provavelmente nenhuma parábola descreve melhor a nossa civilização do que a Parábola do Rico Insensato (Lucas 12,16-21).
Aquele homem obtém uma colheita extraordinariamente abundante.
Decide ampliar os seus celeiros.
Faz planos para muitos anos.
Diz para si mesmo:
«Tens bens em abundância para muitos anos.»
Mas Deus responde-lhe:
«Insensato! Nesta mesma noite reclamarão a tua alma.»
Tudo termina num instante.
Não porque a riqueza fosse má.
Mas porque tinha construído a sua segurança sobre algo incapaz de o salvar.
Cristo conclui:
«Assim acontece àquele que junta tesouros para si mesmo e não é rico diante de Deus.» (Lucas 12,21)
O sucesso segundo Jesus Cristo
É impressionante verificar que Jesus nunca avaliou a vida de uma pessoa segundo os critérios pelos quais nós costumamos medir o sucesso.
Nunca perguntou:
Quanto dinheiro tens?
Quantas pessoas te seguem?
Quantos prémios recebeste?
Quantas propriedades acumulaste?
Ele fará uma pergunta completamente diferente.
Tive fome…
Deste-Me de comer?
Estive nu…
Vestiste-Me?
Era estrangeiro…
Acolheste-Me?
(cf. Mateus 25,31-46)
O Juízo Final não girará em torno do prestígio.
Girará em torno do amor.
Porque o amor permanece.
Tudo o resto desaparece.
O pó acaba sempre por chegar
A liturgia da Quarta-feira de Cinzas conserva uma frase que atravessa os séculos:
«Lembra-te, homem, que és pó e ao pó hás de voltar.»
Isto não é uma ameaça.
É um ato de misericórdia.
A Igreja recorda-nos uma verdade que a sociedade procura esconder.
Todos morreremos.
Sem exceção.
O empresário.
O político.
O atleta.
O artista.
O cientista.
O influenciador digital.
O sacerdote.
O Papa.
O mendigo.
A morte elimina todas as aparências de grandeza.
Só permanece aquilo que foi vivido em Deus.
A ilusão do controlo
Outro grande ídolo do nosso tempo é acreditar que controlamos completamente a nossa vida.
A tecnologia leva-nos a pensar que tudo depende de nós.
Mas basta surgir:
Uma doença.
Um acidente.
Uma crise económica.
Uma guerra.
Uma catástrofe natural.
Para descobrirmos quão frágeis realmente somos.
A Sagrada Escritura recorda-nos constantemente:
«Vós não sabeis o que acontecerá amanhã. Que é a vossa vida? Sois apenas um vapor que aparece por um instante e logo desaparece.» (Tiago 4,14)
Isto não é pessimismo.
É realismo cristão.
Os santos compreenderam aquilo que o mundo continua sem entender
Quando contemplamos a vida dos santos, descobrimos um traço comum.
Eles não procuraram a fama.
Procuraram a santidade.
Muitos morreram completamente desconhecidos.
Alguns foram desprezados.
Outros foram perseguidos.
Muitos foram considerados fracassados.
E, no entanto, ainda hoje continuam a iluminar a vida de milhões de pessoas.
Entretanto, inúmeras figuras que dominaram a sua época são hoje apenas algumas linhas nos livros de História.
A glória humana passa.
A santidade permanece.
O sucesso que nunca morre
Existe um sucesso que jamais poderá ser destruído.
Não depende do mercado.
Nem da economia.
Nem da política.
Nem da juventude.
Nem da saúde.
Consiste em chegar ao fim da vida podendo dizer:
«Amei a Deus.»
«Permaneci fiel.»
«Vivi em estado de graça.»
«Servi os outros.»
«Permiti que Cristo transformasse o meu coração.»
Esse sucesso continua para além da morte.
Porque pertence à eternidade.
A teologia das realidades temporais
A doutrina católica nunca promoveu o desprezo pelo mundo criado. Pelo contrário, ensina que a criação é boa porque procede de Deus (cf. Génesis 1). O trabalho, a ciência, a arte, a cultura, a economia e o desenvolvimento tecnológico fazem parte da vocação do homem de colaborar com o Criador.
Então, onde está o problema?
O problema começa quando a ordem querida por Deus é invertida.
A teologia distingue entre os bens temporais e o Bem Supremo. Os primeiros são verdadeiros bens, mas são bens relativos. Podem e devem ser usados retamente. O segundo é o próprio Deus, o único Bem absoluto. Quando um bem relativo ocupa o lugar reservado ao Absoluto, transforma-se num ídolo.
Este é um dos grandes ensinamentos do primeiro mandamento:
«Não terás outros deuses diante de Mim.» (Êxodo 20,3)
A idolatria não consiste apenas em prostrar-se diante de uma estátua. Ela manifesta-se também quando o dinheiro, o prestígio, o sucesso profissional ou até a própria imagem se tornam o centro em torno do qual toda a vida gira.
É por isso que Jesus afirma com tanta firmeza:
«Não podeis servir a Deus e ao dinheiro.» (Mateus 6,24)
Ele não diz que seja impossível possuir bens.
Diz que é impossível servi-los como se fossem um deus.
Quando o sucesso se transforma numa nova religião
A nossa cultura construiu uma espiritualidade alternativa.
Ela possui os seus próprios templos: os centros financeiros, as plataformas digitais e os palcos onde se procura constantemente o aplauso.
Possui os seus próprios sacerdotes: os gurus do sucesso, os “coaches” que prometem felicidade sem conversão e os influenciadores que exibem uma vida aparentemente perfeita.
Possui os seus próprios dogmas:
«Se quiseres, consegues.»
«O sucesso depende apenas de ti.»
«És aquilo que produzes.»
«O teu valor depende da admiração dos outros.»
Possui até as suas próprias liturgias:
Consultar constantemente as estatísticas.
Comparar a própria vida com a dos outros.
Procurar uma aprovação que nunca satisfaz verdadeiramente.
Do ponto de vista pastoral, este fenómeno merece uma profunda reflexão. O coração humano possui uma dimensão religiosa impossível de eliminar. Se não adorar o verdadeiro Deus, acabará inevitavelmente por absolutizar alguma realidade criada.
O problema não é que o homem deixe de adorar.
O problema é o que ele adora.
A morte: a grande mestra esquecida
Durante séculos, a espiritualidade cristã recomendou meditar frequentemente sobre a morte, não para provocar medo, mas para aprender a viver com sabedoria. Esta prática tradicional era conhecida como memento mori:
«Lembra-te de que hás de morrer.»
Hoje esta prática parece incómoda, porque vivemos numa cultura que procura esconder a morte. Evita-se falar dela. Ela é afastada para os hospitais e para as casas funerárias. Contudo, precisamente porque a morte é uma certeza, continua a ser uma das maiores mestras da vida.
Perguntemo-nos com sinceridade:
- Quais das preocupações que hoje me inquietam terão importância daqui a cem anos?
- Que discussões continuarão a fazer sentido quando estivermos diante de Deus?
- Que bens materiais nos acompanharão no Juízo Particular?
Responder honestamente a estas perguntas ajuda-nos a reorganizar corretamente as nossas prioridades.
O verdadeiro tesouro
Jesus oferece uma alternativa luminosa à corrida incessante pelas riquezas terrenas:
«Não acumuleis para vós tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem os consomem e onde os ladrões arrombam e roubam. Acumulai, antes, tesouros no Céu… Porque onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.» (Mateus 6,19-21)
A expressão «tesouros no Céu» não é uma simples metáfora. Refere-se a todas as obras realizadas na graça de Deus: a caridade, a oração, os sacrifícios oferecidos com amor, as obras de misericórdia, a fidelidade quotidiana, o perdão concedido, a paciência no sofrimento e a perseverança na fé.
Nada disso se perde.
Tudo possui um valor eterno porque participa do amor de Cristo.
Como viver no mundo sem pertencer ao mundo?
O cristão não é chamado a fugir da sociedade nem a desprezar as responsabilidades terrenas. Pelo contrário, é chamado a trabalhar com excelência, a estudar com dedicação, a sustentar a sua família, a exercer honestamente a sua profissão e a contribuir para o bem comum.
Mas tudo isto deve ser feito com um coração livre.
A liberdade cristã consiste em poder dizer:
- Se Deus me conceder o sucesso, colocá-lo-ei ao Seu serviço.
- Se Ele permitir o fracasso, continuarei a confiar n’Ele.
- Se receber honras, vigiarei para que elas não alimentem o meu orgulho.
- Se for esquecido pelos homens, lembrarei que Deus conhece o meu nome.
Esta liberdade interior é um dos maiores frutos da vida espiritual.
Aplicações pastorais para a vida quotidiana
Esta reflexão não pretende desanimar aqueles que trabalham, estudam ou empreendem grandes projetos. Pelo contrário, convida-nos a purificar as intenções com que realizamos todas essas atividades.
Alguns hábitos concretos podem ajudar:
- Começar cada dia oferecendo o próprio trabalho a Deus, pedindo-Lhe que tudo seja para a Sua glória.
- Examinar regularmente se o sucesso profissional não está a ocupar o lugar da vida sacramental, da oração ou da família.
- Praticar a esmola e a generosidade, recordando que os bens materiais nos foram confiados, mas não nos pertencem de forma absoluta.
- Receber frequentemente o Sacramento da Reconciliação, onde os ídolos escondidos do coração são revelados e curados.
- Participar fielmente na Santa Missa, onde aprendemos que a maior vitória da história se manifestou, paradoxalmente, na Cruz de Cristo.
O paradoxo da Cruz
Do ponto de vista puramente humano, Jesus Cristo morreu como um derrotado.
Foi traído.
Abandonado por muitos dos Seus discípulos.
Condenado injustamente.
Executado da forma mais humilhante reservada aos criminosos.
E, no entanto, foi precisamente nessa aparente derrota que se consumou a vitória definitiva sobre o pecado e sobre a morte.
A Cruz revela que o sucesso de Deus nem sempre coincide com o sucesso do mundo.
Enquanto a lógica humana procura dominar, Cristo vence entregando-Se a Si mesmo.
Enquanto o mundo glorifica o poder, Ele revela a força do amor obediente ao Pai.
Por isso, o cristão não deve admirar-se se a fidelidade ao Evangelho nem sempre é aplaudida.
A verdadeira medida do sucesso cristão não é a popularidade.
É a santidade.
Uma última pergunta
Imaginemos que a nossa vida terminasse hoje.
Não daqui a quarenta anos.
Não na reforma.
Hoje.
O que permaneceria?
Um currículo brilhante?
Uma conta bancária recheada?
Um nome famoso?
Ou um coração configurado a Cristo?
A história ensina-nos que os impérios caem, as fortunas mudam de mãos, as modas passam e até os nomes mais célebres acabam por ser esquecidos.
O que permanece para sempre é aquilo que foi unido ao amor de Deus.
Talvez o maior sucesso não consista em que o mundo se recorde do nosso nome, mas em podermos ouvir, no final da nossa peregrinação terrena, as palavras que todo o cristão deveria desejar acima de qualquer reconhecimento humano:
«Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, confiar-te-ei o muito. Entra na alegria do teu Senhor.» (Mateus 25,23)
Então compreenderemos plenamente que aquilo a que o mundo chamava sucesso não passava, muitas vezes, de pó levado pelo vento.
Pelo contrário, uma vida vivida em estado de graça, uma fé perseverante, uma caridade humilde e uma fidelidade inabalável a Cristo terão adquirido um peso de eternidade que nenhuma morte poderá destruir.
Porque o verdadeiro sucesso não consiste em elevar-se acima dos outros.
Consiste em alcançar o Céu.
Lá, onde «nem a traça nem a ferrugem destroem» (cf. Mateus 6,20), tudo aquilo que foi oferecido por amor a Deus permanece para sempre.
Essa é a única vitória que jamais será reduzida a pó.