Introdução: e se tivéssemos conservado os valores, mas perdido o Evangelho?
Existe uma forma de cristianismo que pode parecer extraordinariamente atraente ao homem moderno.
Fala de amor.
Fala de solidariedade.
Fala de fraternidade.
Fala de justiça.
Fala de acolhimento e abertura.
Fala de paz.
Fala da dignidade humana.
Fala do cuidado pelos necessitados.
E, no entanto, pode acontecer algo profundamente paradoxal: podemos falar de quase tudo aquilo que o cristianismo ensina sem falar verdadeiramente de Cristo.
Poderíamos definir este fenómeno como «cristianismo natural» ou «cristianismo naturalizado», esclarecendo que aqui a expressão não é entendida no sentido católico da lei natural, mas como uma redução do cristianismo àquilo que o homem pode compreender, admirar e realizar com as suas próprias capacidades naturais.
Nesta versão reduzida, Jesus Cristo aparece sobretudo como um grande mestre de moral. O Evangelho transforma-se num programa para a convivência social. A Igreja torna-se uma instituição dedicada à promoção de determinados valores. A conversão é equiparada à ideia de «tornar-se uma pessoa melhor». A santidade é confundida com a simples retidão moral. A caridade sobrenatural é reduzida à solidariedade. A oração torna-se uma forma de bem-estar espiritual. Os sacramentos aparecem como símbolos comunitários. A liturgia é entendida como uma celebração cultural.
E então surge uma pergunta incómoda:
Se eliminarmos a graça, a redenção, o pecado, a cruz, a ressurreição, os sacramentos, a vida eterna e a necessidade da conversão, o que permanece realmente do cristianismo?
Permanece algo de bom.
Mas não permanece o cristianismo na sua plenitude.
Porque o cristianismo não começou quando alguns homens decidiram que seria útil promover a fraternidade.
Começou quando Deus entrou na história.
Não nasceu de uma teoria ética.
Nasceu de um acontecimento.
«E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós» (Jo 1,14).
Esta afirmação contém uma revolução que nenhuma filosofia moral pode substituir.
O cristianismo não é, antes de tudo, um sistema de valores.
É a resposta do homem a um Deus que se revelou, que veio ao encontro do homem, que assumiu a nossa natureza, que morreu e ressuscitou pelos nossos pecados para nos abrir as portas da vida eterna.
1. O grande equívoco: confundir cristianismo e humanismo
Um dos grandes desafios pastorais do nosso tempo consiste em distinguir o humanismo cristão do simples humanismo secular.
O cristianismo tem, sem dúvida, consequências profundamente humanizadoras.
A fé cristã defende a dignidade de cada pessoa porque todo ser humano foi criado à imagem de Deus.
Defende a vida porque a vida é um dom de Deus.
Defende os pobres porque Cristo se identifica misteriosamente com os pequenos e necessitados.
Defende a família porque existe uma ordem querida pelo Criador.
Defende a justiça porque Deus é justo.
Defende a verdade porque Cristo é a própria Verdade.
Mas o pensamento cristão não funciona na direção oposta.
Não dizemos:
«Porque a solidariedade é boa, então o cristianismo é bom».
Dizemos:
«Porque Deus é bom e nos amou em Cristo, a vida cristã produz necessariamente amor, justiça, misericórdia e serviço».
A diferença pode parecer mínima.
Não é.
No primeiro caso, o cristianismo acaba por se tornar um instrumento para promover valores que poderiam ser defendidos também a partir de outras filosofias.
No segundo caso, os valores cristãos provêm de algo infinitamente mais profundo:
da participação do homem na vida de Deus.
2. A Igreja nunca ensinou que a razão seja inimiga da fé
Aqui devemos fazer uma precisão teológica fundamental.
Criticar o «cristianismo naturalizado» não significa desprezar a natureza humana, a razão ou a lei natural, que são todas componentes essenciais da doutrina católica.
A Igreja Católica ensina precisamente o contrário.
A razão humana pode conhecer verdades fundamentais sobre Deus e sobre a ordem moral. O homem pode reconhecer, através da sua própria razão, que existem bens objetivos, que determinados atos são moralmente bons e outros maus, e que existe uma ordem moral inscrita na própria natureza humana.
São Paulo exprime-o claramente quando fala dos pagãos que, embora não possuam a Lei mosaica, mostram que a obra da lei está escrita nos seus corações:
«Eles mostram que a obra da lei está escrita nos seus corações» (Rm 2,15).
A tradição católica desenvolveu profundamente este ensinamento.
A lei natural é real.
A razão é real.
A moral objetiva é real.
A dignidade humana é real.
Mas precisamente aqui o cristianismo naturalizado comete o seu erro:
confunde aquilo que a razão humana pode conhecer com aquilo que só pode ser recebido através da Revelação e da graça.
A razão pode reconhecer que devemos amar o próximo.
Mas a Revelação revela algo infinitamente mais profundo:
que devemos amar o próximo como Cristo nos amou.
A razão pode compreender que devemos perdoar.
Mas o Evangelho revela o mistério de um Deus que perdoa os nossos pecados através da cruz.
A razão pode reconhecer a dignidade do homem.
Mas o cristianismo proclama que o homem é chamado a uma dignidade infinitamente maior:
a participar na vida divina.
3. A distinção decisiva: natureza e graça
Toda esta questão pode ser compreendida através de uma distinção fundamental da teologia católica:
natureza e graça não são a mesma coisa.
A natureza humana é boa porque foi criada por Deus.
Mas foi ferida pelo pecado.
E, além disso, foi elevada por Deus a um destino sobrenatural.
Isto significa que o homem não é simplesmente chamado a «ser uma boa pessoa».
É chamado a ser santo.
Não é simplesmente chamado a melhorar-se psicologicamente.
É chamado a viver em comunhão com Deus.
Não é simplesmente chamado a construir uma sociedade mais justa.
É chamado a participar na vida divina.
Aqui se encontra o coração do problema.
O cristianismo naturalizado fala frequentemente do aperfeiçoamento do homem.
O cristianismo sobrenatural fala da sua transformação através da graça.
Estas duas realidades estão relacionadas, mas não são idênticas.
Um homem pode ser culto, gentil, generoso, trabalhador, misericordioso e honesto sem possuir a fé cristã.
Pode possuir virtudes naturais admiráveis.
Mas a vida sobrenatural é outra realidade.
A graça santificante é uma participação criada na vida divina.
Por isso, o fim último da existência humana não consiste em tornar-nos uma versão melhorada de nós mesmos.
Consiste em entrar em comunhão com Deus.
4. Por que teria Cristo morrido se simplesmente precisássemos de bons conselhos?
Esta pergunta deveria ressoar em toda a catequese contemporânea.
Se o problema do homem consistisse simplesmente em precisar de melhores valores, teria bastado um grande mestre.
Poderíamos ter escutado Cristo.
Poderíamos tê-lo admirado.
Poderíamos ter aplicado os seus ensinamentos.
Mas o Evangelho proclama algo infinitamente mais dramático.
O homem precisa de ser salvo.
O pecado não é simplesmente um erro.
Não é apenas uma lacuna educativa.
Não é simplesmente um comportamento pouco saudável.
É uma rutura com Deus.
O pecado compromete profundamente a relação do homem com o seu Criador.
Por isso Cristo não veio apenas ensinar-nos.
Veio redimir-nos.
A cruz não é uma ilustração pedagógica da solidariedade.
É o sacrifício redentor de Cristo.
A ressurreição não é uma metáfora da esperança.
É um acontecimento real que inaugura uma nova criação.
A Igreja não é simplesmente uma associação de pessoas que partilham determinados valores.
É o Corpo místico de Cristo.
Os sacramentos não são simples símbolos culturais.
São sinais eficazes da graça.
A Eucaristia não é simplesmente uma refeição comunitária.
É o sacramento do Corpo e do Sangue de Cristo.
E a confissão não é simplesmente uma conversa terapêutica.
É o sacramento através do qual Cristo, mediante o ministério da Igreja, perdoa os pecados.
Se eliminarmos esta dimensão sobrenatural, o edifício cristão pode conservar muitas das suas paredes.
Mas perdeu os seus fundamentos.
5. «Jesus era um grande homem»: uma afirmação insuficiente
Uma das afirmações mais frequentes do nosso tempo é provavelmente esta:
«Jesus era um grande homem».
Esta frase parece respeitosa.
Mas teologicamente é radicalmente insuficiente.
Jesus não é simplesmente um grande homem.
É verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Não é apenas um mestre de moral.
É o Verbo eterno feito carne.
Não veio simplesmente para nos ensinar como viver.
Veio revelar-nos o Pai e reconciliar-nos com Ele.
Por isso, reduzir Jesus a uma referência ética modifica radicalmente a identidade do cristianismo.
Podemos admirar Sócrates.
Podemos estudar Aristóteles.
Podemos aprender com Séneca.
Podemos respeitar grandes reformadores sociais.
Mas Cristo é completamente diferente.
Cristo não diz simplesmente:
«Eis um ensinamento interessante».
Diz:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6).
Não diz apenas:
«Aprendei com os meus ensinamentos».
Diz:
«Vem e segue-me».
Não apresenta simplesmente um código.
Apresenta-se a si mesmo.
Este é o escândalo e a beleza do cristianismo.
6. O cristianismo não significa simplesmente «ser uma boa pessoa»
Esta redução é particularmente perigosa porque parece inofensiva.
«Sou uma boa pessoa».
«Procuro não fazer mal a ninguém».
«Ajudo as pessoas quando posso».
«Não preciso de ir à Missa para ser uma boa pessoa».
«Deus sabe que tenho um bom coração».
Naturalmente, o homem deve procurar fazer o bem.
Mas o cristianismo não pode ser reduzido a isto.
Porque a pergunta fundamental não é apenas:
«Sou uma pessoa correta?»
A pergunta cristã é:
«Estou unido a Cristo?»
A vida eterna não consiste simplesmente em receber uma recompensa por termos respeitado determinadas normas sociais.
Consiste na comunhão eterna com Deus.
E esta comunhão começa já aqui na terra através da graça.
Por isso a Igreja não prega apenas a moral.
Prega a conversão.
Prega a fé.
Prega o batismo.
Prega a penitência.
Prega a Eucaristia.
Prega a oração.
Prega a santidade.
Prega a cruz.
Prega a ressurreição.
Prega o juízo.
Prega o céu.
E adverte também para a possibilidade real de rejeitar definitivamente Deus.
Tudo isto é incómodo para uma cultura que prefere um cristianismo terapêutico, positivo e pouco exigente.
Mas precisamente por isso é necessário regressar ao Evangelho.
7. Quando «amor» deixa de significar conversão
Outro sintoma do cristianismo naturalizado é o uso da palavra amor sem um conteúdo sobrenatural.
«Deus é amor».
É verdade.
Mas o amor cristão não significa simplesmente aprovação emocional.
O verdadeiro amor procura o bem da pessoa amada.
E o bem supremo do homem é Deus.
Por isso amar o pecador não significa considerar bons todos os seus comportamentos.
Cristo ama o pecador precisamente porque quer salvá-lo.
No Evangelho encontramos uma união que o nosso tempo tem dificuldade em manter:
misericórdia e verdade.
Cristo perdoa.
Mas também chama à conversão.
Cristo acolhe.
Mas também diz:
«Vai e, de agora em diante, não peques mais» (Jo 8,11).
Misericórdia sem verdade transforma-se em permissividade.
Verdade sem amor pode transformar-se em dureza.
O cristianismo mantém ambas unidas.
8. A cruz é o grande elemento que o cristianismo naturalizado não consegue colocar no seu lugar
Existe uma razão pela qual o cristianismo naturalizado prefere falar de valores e evitar o sacrifício.
A cruz é incómoda.
A cruz recorda-nos que existe o pecado.
Recorda-nos que o homem precisa de conversão.
Recorda-nos que a salvação tem um preço.
Recorda-nos que seguir Cristo implica renúncia.
Recorda-nos que nem todo desejo deve automaticamente transformar-se num direito.
Recorda-nos que existe uma diferença entre a nossa vontade e a vontade de Deus.
Cristo não prometeu:
«Sereis felizes se seguirdes os vossos desejos».
Disse:
«Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me» (Mt 16,24).
Estas palavras são profundamente contraculturais.
A sociedade ensina:
«Realiza-te».
Cristo diz:
«Renuncia a ti mesmo».
A cultura diz:
«Faz tudo aquilo que sentes».
Cristo diz:
«Segue-me».
A cultura diz:
«A tua liberdade consiste em poder escolher tudo aquilo que quiseres».
O cristianismo responde:
A verdadeira liberdade consiste na capacidade de escolher o bem.
9. O cristianismo naturalizado e a cultura da autorrealização
Existe também uma forma particularmente moderna de cristianismo naturalizado: o cristianismo transformado em auto-otimização espiritual.
Deus aparece como uma espécie de terapeuta celestial.
A oração deveria servir para nos fazer sentir melhor.
A Igreja deveria oferecer comunidade.
A Bíblia deveria fornecer pensamentos positivos.
Jesus deveria oferecer inspiração.
A religião transforma-se numa técnica de bem-estar emocional.
Mas o Evangelho não promete simplesmente que nos sentiremos melhor.
Promete algo muito maior e, ao mesmo tempo, muito mais exigente:
que seremos transformados.
Às vezes Deus consola-nos.
Às vezes concede-nos paz.
Mas também pode conduzir-nos por caminhos de purificação, sacrifício e sofrimento.
Os santos compreenderam-no perfeitamente.
Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz, Santo Inácio de Loyola, São Francisco de Assis e muitos outros não procuraram uma religião cómoda.
Procuraram Deus.
E descobriram que o caminho para Ele passa necessariamente pela conversão do coração.
10. Os sacramentos não são elementos secundários
Uma consequência prática do cristianismo naturalizado consiste no facto de os sacramentos serem progressivamente considerados secundários.
«O importante é acreditar».
«O importante é amar».
«O importante é ajudar».
Mas devemos fazer uma pergunta:
Por que razão Cristo quis uma Igreja sacramental?
Porque Deus não salva o homem como se ele fosse um espírito sem corpo.
O homem é composto de corpo e alma.
Por isso Deus utiliza sinais visíveis para comunicar-nos a graça invisível.
A água do batismo.
O pão e o vinho da Eucaristia.
A imposição das mãos.
A unção.
O matrimónio.
A confissão.
Os sacramentos pertencem à própria estrutura da economia da salvação.
Não são, portanto, simples cerimónias.
São encontros com Cristo.
Um cristianismo que conserva os valores mas abandona os sacramentos corre o risco de se transformar numa espécie de estoicismo cristianizado.
Pode continuar a falar de virtude.
Mas já não vive da graça.
11. Só a Eucaristia desmente um cristianismo puramente natural
Pensemos na Eucaristia.
Se o cristianismo fosse apenas uma ética, bastaria recordar os ensinamentos de Jesus.
Mas Cristo quis deixar-nos algo infinitamente mais profundo:
a sua presença real.
A Eucaristia obriga-nos a abandonar uma visão puramente natural da religião.
O altar não é simplesmente uma mesa simbólica.
A Missa não é simplesmente uma reunião.
A liturgia não é simplesmente uma atividade comunitária.
Na celebração eucarística, a Igreja participa sacramentalmente no sacrifício de Cristo.
Por isso a vida cristã não pode ser reduzida a «fazer o bem».
Precisamos primeiro de aprender a receber de Deus.
A vida cristã nasce da graça.
Depois dá fruto.
12. «Sem mim nada podeis fazer»
Cristo pronunciou uma frase que deveria servir como uma vacina permanente contra o pelagianismo:
«Sem mim nada podeis fazer» (Jo 15,5).
O pelagianismo consiste, simplificando, em sobrevalorizar a capacidade do homem para alcançar a salvação pelas suas próprias forças.
O catolicismo ensina algo diferente.
A graça é necessária.
Não somos salvos exclusivamente pelas nossas capacidades morais.
Precisamos de Cristo.
Precisamos da graça.
Precisamos da Igreja.
Precisamos dos sacramentos.
Precisamos da oração.
Precisamos da conversão.
Isto não significa que as nossas obras sejam irrelevantes.
Pelo contrário.
A graça transforma a nossa capacidade de agir.
Mas o cristão não pode dizer:
«Posso simplesmente salvar-me sendo uma boa pessoa».
A resposta do Evangelho é:
Precisas de Cristo.
13. O erro oposto: também não devemos desprezar as boas obras
Aqui devemos evitar outro extremo.
Criticar o cristianismo naturalizado não significa que as boas obras sejam irrelevantes.
Pelo contrário.
Cristo é claríssimo:
«Pelos seus frutos, portanto, os reconhecereis» (Mt 7,16).
A graça produz frutos.
A verdadeira fé transforma a vida.
O cristão que fala continuamente da doutrina mas não possui caridade contradiz o Evangelho.
São Paulo exprime-o com extraordinária força:
«Se não tiver caridade, nada sou» (1 Cor 13,2).
O problema, portanto, não consiste em realizar boas obras.
O problema consiste em separar as boas obras da sua fonte sobrenatural.
A caridade cristã não é simplesmente filantropia.
É o amor de Deus derramado no coração.
A solidariedade pode ser natural.
A Caridade é sobrenatural.
A diferença está na raiz.
14. Caridade não é a mesma coisa que filantropia
Podemos expressar a diferença de maneira simples:
A filantropia ajuda o homem porque reconhece nele um valor humano.
A caridade cristã ama o homem porque reconhece nele uma criatura amada por Deus e, de algum modo, o próprio Cristo.
Por isso a caridade cristã pode alcançar extremos que uma ética puramente natural tem dificuldade em explicar.
Perdoar o inimigo.
Rezar por aqueles que nos perseguem.
Dar sem esperar nada em troca.
Aceitar o sofrimento por amor.
Oferecer sacrifícios pela conversão dos outros.
Amar alguém por quem naturalmente não sentimos qualquer simpatia.
Tudo isto se torna compreensível quando reconhecemos que a vida cristã não nasce apenas da nossa simpatia natural.
Vem de Deus.
15. A graça não destrói a natureza: eleva-a
Uma das grandes contribuições da teologia católica consiste precisamente em evitar dois erros opostos.
Por um lado:
Naturalismo: tudo pode ser explicado e realizado através das capacidades humanas.
Por outro:
Desprezo da natureza: como se tudo aquilo que é humano fosse mau.
A tradição católica ensina algo muito mais belo:
A graça aperfeiçoa a natureza.
A natureza humana é boa, embora ferida.
A razão é boa.
A inteligência é boa.
A liberdade é boa.
O corpo é bom.
A sexualidade, na ordem querida por Deus, é boa.
O matrimónio é bom.
A cultura é boa.
O trabalho é bom.
A política pode ser boa.
A ciência pode ser boa.
Mas nenhuma destas realidades pode tornar-se um substituto de Deus.
O cristianismo não destrói aquilo que é humano.
Ordena-o para Deus.
16. Como surgiu esta tendência para naturalizar o cristianismo?
A tentação é antiga.
Desde os primeiros séculos, a Igreja teve de defender a dimensão sobrenatural da fé contra diversas formas de reducionismo.
O cristianismo teve de explicar continuamente que Cristo não era simplesmente um mestre de moral.
Os Padres da Igreja sublinharam a divindade de Cristo.
Os grandes Concílios defenderam a sua verdadeira humanidade e a sua verdadeira divindade.
A teologia medieval aprofundou a relação entre natureza e graça.
São Tomás de Aquino mostrou que razão e Revelação não se contradizem.
A Reforma e a Contrarreforma levantaram novas questões sobre a graça, a justificação e a liberdade.
A modernidade trouxe um desafio ainda maior:
a possibilidade de construir uma visão do mundo sem referência a Deus.
Desde então, a cultura ocidental começou progressivamente a conservar alguns elementos da herança cristã enquanto o seu fundamento teológico se enfraquecia.
E produziu-se uma situação paradoxal:
Uma sociedade podia continuar a falar de dignidade, igualdade, fraternidade, direitos, solidariedade e justiça enquanto rejeitava a visão cristã do mundo que historicamente tinha contribuído de forma decisiva para moldar muitos destes conceitos.
Isto levou a um cristianismo cultural cada vez mais separado da fé.
17. Cristianismo cultural: quando a forma permanece e o conteúdo desaparece
O cristianismo cultural pode sobreviver durante gerações.
Batismos.
Primeiras Comunhões.
Matrimónios.
Natal.
Semana Santa.
Procissões.
Cânticos natalícios.
Imagens religiosas.
Festas patronais.
Mas quando tudo isto perde a referência à fé, pode permanecer apenas uma tradição cultural.
O problema não é que a cultura cristã seja má.
Pelo contrário.
É uma herança extraordinária.
O problema surge quando a cultura substitui a fé.
Podemos conservar a árvore de Natal e esquecer Cristo.
Podemos conservar as procissões e esquecer a conversão.
Podemos conservar as igrejas e esquecer a adoração.
Podemos conservar palavras cristãs e esvaziá-las do seu conteúdo.
Podemos falar de amor e eliminar a verdade.
Podemos falar de misericórdia e eliminar o pecado.
Podemos falar de dignidade e eliminar Deus.
Podemos falar de Jesus e esquecer que Ele é o Senhor.
18. Um cristianismo «sem pecado»
Existem palavras que o nosso tempo considera particularmente incómodas.
Uma delas é:
o pecado.
Sem pecado não precisamos de um Salvador.
Sem pecado não precisamos de conversão.
Sem pecado não precisamos da confissão.
Sem pecado a cruz transforma-se numa tragédia absurda.
Por isso eliminar o pecado conduz inevitavelmente à naturalização do cristianismo.
Se o homem simplesmente precisa de «crescer», Cristo é um mestre.
Se o homem precisa de ser salvo, Cristo é o Salvador.
A diferença é enorme.
O Evangelho começa precisamente com um chamamento:
«Convertei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1,15).
A conversão não é uma terapia para a autoestima.
É o regresso a Deus.
Significa reconhecer que a nossa vida não nos pertence de maneira absoluta.
Significa abandonar o pecado.
Significa acolher a graça.
Significa recomeçar.
19. Por que razão o cristianismo naturalizado é tão atraente?
Porque é cómodo.
Permite conservar uma identidade cristã sem aceitar todas as suas consequências.
Permite dizer:
«Sou cristão porque acredito no amor».
Mas sem falar da doutrina.
Permite defender a solidariedade sem falar da conversão.
Permite admirar Jesus sem aceitar os seus mandamentos.
Permite falar de misericórdia sem falar do juízo.
Permite falar de dignidade sem falar de Deus.
Permite falar de fraternidade sem falar do pecado.
Permite ter uma religião sem ter de transformar profundamente a própria vida.
E eis que nasce uma das grandes questões pastorais do nosso tempo:
Formamos discípulos ou apenas pessoas que sentem simpatia por determinados valores cristãos?
Porque Jesus não disse:
«Ide e ensinai os homens a admirar-me».
Disse:
«Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações» (Mt 28,19).
Discípulos.
Não espectadores.
Não admiradores.
Não consumidores religiosos.
Discípulos.
20. O cristianismo naturalizado e o smartphone
Este problema também se manifesta no mundo digital.
As redes sociais estão cheias de conteúdos que utilizam uma linguagem cristã.
Citações de Jesus.
Imagens de santos.
Mensagens sobre o amor.
Reflexões sobre a paz.
Vídeos religiosos.
Mas uma frase cristã não produz automaticamente uma vida cristã.
Podemos partilhar vinte citações bíblicas e nunca rezar.
Podemos publicar imagens dos santos e nunca nos confessarmos.
Podemos passar horas a discutir teologia e não amar o próximo.
Podemos defender publicamente a moral cristã e viver secretamente no pecado.
O algoritmo pode até transformar a religião em conteúdo.
Mas Cristo não veio para se tornar conteúdo.
Veio para se tornar a nossa vida.
21. A diferença entre consumir conteúdos religiosos e viver a fé
Esta distinção é decisiva para a pastoral de hoje.
Consumir conteúdos religiosos pode ser positivo.
Ler teologia é positivo.
Ouvir homilias é positivo.
Ver documentários sobre os santos pode ser positivo.
Seguir contas católicas pode ser positivo.
Mas nada disso substitui:
- a oração;
- a confissão;
- a Santa Missa;
- a adoração eucarística;
- a leitura da Sagrada Escritura;
- o exame de consciência;
- a penitência;
- a caridade para com o próximo;
- a luta contra o pecado;
- a vida sacramental.
O cristianismo não se vive principalmente diante de um ecrã.
Vive-se diante de Deus.
22. O cristão não é simplesmente chamado a «ser bom»: é chamado à santidade
Esta distinção merece ser gravada nos nossos corações.
Uma pessoa boa pode evitar muitos pecados.
Um santo, além disso, procura uma união cada vez mais profunda com Deus.
Uma pessoa boa pode ser generosa.
Um santo aprende a amar através de Cristo.
Uma pessoa boa pode respeitar as regras.
Um santo procura a vontade de Deus.
Uma pessoa boa pode levar uma vida moralmente ordenada.
Um santo deseja que toda a sua existência seja oferecida a Deus.
A santidade é muito mais do que correção moral.
É uma transformação interior.
Por isso São Paulo não diz simplesmente:
«Tornai-vos melhores».
Diz:
«Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20).
Aqui encontramos o coração da vida sobrenatural.
Não se trata simplesmente de acrescentar comportamentos religiosos a uma vida natural.
Trata-se de permitir que Cristo transforme toda a nossa existência.
23. A Igreja não é uma ONG religiosa
A Igreja pode realizar obras sociais extraordinárias.
Fá-lo há séculos.
Hospitais.
Escolas.
Universidades.
Orfanatos.
Ajuda aos pobres.
Missões.
Assistência aos doentes.
Ajuda aos perseguidos.
Mas se a Igreja fosse apenas uma organização humanitária, poderíamos substituí-la por uma ONG.
A Igreja existe porque possui uma missão incomparável:
anunciar Cristo e comunicar a salvação.
A ajuda material é necessária.
Mas o homem precisa de mais do que pão.
Precisa de Deus.
Por isso Cristo, enquanto alimenta as multidões, proclama também o pão da vida.
A Igreja não pode contrapor evangelização e caridade.
Deve viver ambas.
Porque o amor cristão nasce da fé e conduz a Deus.
24. O verdadeiro problema pastoral: oferecer um cristianismo sem exigências
Uma pastoral orientada exclusivamente para fazer as pessoas sentirem-se bem corre o risco de esquecer que o Evangelho também nos interpela.
Cristo consola.
Mas Cristo também corrige.
Cristo abraça.
Mas Cristo também chama a deixar tudo.
Cristo perdoa.
Mas pede também:
«Vai e, de agora em diante, não peques mais».
Uma verdadeira pastoral da misericórdia não esconde a verdade.
Proclama-a no amor.
Um médico que ama o seu paciente não lhe diz:
«Não tens nenhuma doença».
Diz-lhe a verdade para que possa ser tratado.
Da mesma forma, a Igreja não ama o homem dizendo-lhe que o pecado não importa.
Ama-o proclamando que a graça é mais forte do que o pecado.
25. O cristianismo sobrenatural não é uma fuga do mundo
Outro equívoco frequente consiste em pensar que defender a dimensão sobrenatural significa desprezar o mundo.
Não.
O cristão vive profundamente no mundo.
Trabalha.
Forma uma família.
Participa na sociedade.
Estuda.
Investiga.
Cria arte.
Faz ciência.
Participa na política.
Ajuda os necessitados.
Mas fá-lo com uma consciência diferente:
este mundo não é Deus.
E também não é a nossa pátria definitiva.
São Paulo diz:
«A nossa pátria, porém, está nos céus» (Fl 3,20).
Esta verdade não nos torna menos responsáveis perante o mundo.
Torna-nos mais responsáveis.
Porque sabemos que a nossa vida possui um destino eterno.
26. Como reconhecer o cristianismo naturalizado?
Podemos fazer algumas perguntas simples.
Primeira pergunta: fala-se de Cristo ou apenas de valores?
Se Jesus aparece apenas como uma inspiração moral, existe um problema.
Segunda pergunta: fala-se do pecado?
Se tudo é explicado através de «erros», «processos» ou «circunstâncias», pode ter-se perdido a categoria bíblica do pecado.
Terceira pergunta: anuncia-se a conversão?
O Evangelho chama-nos sempre à conversão.
Quarta pergunta: fala-se da graça?
Se tudo depende das nossas capacidades, estamos perante uma redução naturalista.
Quinta pergunta: fala-se dos sacramentos?
A vida cristã é sacramental.
Sexta pergunta: fala-se da vida eterna?
O cristianismo orienta o olhar para a comunhão eterna com Deus.
Sétima pergunta: a cruz ocupa um lugar central?
Se a cruz desaparece, algo essencial perdeu-se.
Oitava pergunta: Cristo é apresentado como Salvador ou simplesmente como mestre?
A resposta mostra imediatamente que tipo de cristianismo estamos a anunciar.
27. Como podemos reencontrar o cristianismo sobrenatural?
A resposta não consiste em abandonar a razão ou rejeitar a cultura.
Trata-se de regressar ao centro.
E o centro é Cristo.
Não uma ideologia.
Não uma estética.
Não a nostalgia.
Não uma identidade política.
Não uma guerra cultural.
Não uma coleção de valores.
Cristo.
Tudo deve começar n’Ele e terminar n’Ele.
28. Primeira aplicação prática: regressar à oração
Se queremos superar uma religião puramente natural, devemos redescobrir a oração.
Não apenas ler sobre Deus.
Falar com Deus.
Não apenas publicar citações espirituais.
Ajoelhar-nos.
Não apenas ouvir podcasts religiosos.
Fazer silêncio.
A oração recorda-nos algo essencial:
Eu não sou Deus.
Preciso de receber.
Preciso de pedir.
Preciso de agradecer.
Preciso de adorar.
Preciso de me arrepender.
29. Segunda aplicação: redescobrir a confissão
A confissão é uma das grandes respostas ao cristianismo naturalizado.
Porquê?
Porque aí reconhecemos algo que a cultura moderna quer eliminar:
pecámos.
Mas reconhecemos também algo ainda mais belo:
Deus pode perdoar-nos.
A confissão destrói dois erros.
O primeiro:
«Sou perfeito».
O segundo:
«Sou irremediavelmente culpado».
O cristianismo ensina:
És pecador, mas a misericórdia de Deus é maior do que o teu pecado, quando te arrependes.
30. Terceira aplicação: regressar à Eucaristia
A Eucaristia recorda-nos que a vida cristã não consiste em produzir sozinhos a nossa salvação.
Primeiro recebemos.
Depois damos.
Primeiro Cristo oferece-se.
Depois aprendemos a entregar-nos.
Primeiro recebemos a graça.
Depois podemos dar fruto.
Por isso a Missa não pode ser considerada simplesmente uma obrigação semanal.
É o centro da vida cristã.
31. Quarta aplicação: redescobrir a doutrina
O cristianismo naturalizado prospera onde existe ignorância religiosa.
Se um católico não conhece a sua própria fé, facilmente substituirá o cristianismo pelas suas próprias opiniões.
Por isso precisamos urgentemente de redescobrir:
- o Catecismo;
- a Sagrada Escritura;
- a Tradição;
- os Padres da Igreja;
- a teologia;
- a vida dos santos;
- os documentos do Magistério.
Não para nos tornarmos especialistas incapazes de amar.
Mas para que a nossa fé crie raízes.
Uma fé sem formação transforma-se facilmente em sentimentalismo.
32. Quinta aplicação: reencontrar o sentido do sacrifício
Vivemos numa cultura que procura eliminar todo o desconforto.
Mas o cristianismo possui outra palavra:
sacrifício.
Jejum.
Penitência.
Mortificação.
Renúncia.
Silêncio.
Disciplina.
Generosidade.
Serviço.
Tudo isto educa o coração.
Porque quem nunca aprendeu a dizer «não» a si mesmo terá grandes dificuldades em dizer «sim» a Deus.
A liberdade cristã não significa obedecer a cada um dos nossos desejos.
Significa ser livre para escolher o bem.
33. Sexta aplicação: aprender a viver contra a corrente
O cristão não deve procurar continuamente o conflito.
Mas também não deve ter medo de viver segundo o Evangelho quando este entra em conflito com as tendências dominantes.
Quando a cultura diz:
«Todo desejo deve ser satisfeito»,
o cristão responde:
Nem todo desejo é bom.
Quando diz:
«A verdade depende de cada pessoa»,
responde:
A verdade existe.
Quando diz:
«A religião é uma opinião privada»,
responde:
Deus é real.
Quando diz:
«A morte é o fim»,
responde:
Cristo ressuscitou.
Quando diz:
«O homem salva-se a si próprio»,
responde:
Precisamos de um Salvador.
34. O perigo de transformar o cristianismo numa ideologia
Existe também um perigo para aqueles que querem combater o cristianismo naturalizado.
Podemos passar do extremo de um cristianismo sem doutrina ao extremo de uma doutrina sem vida.
Podemos falar continuamente de tradição, liturgia, moral, política e cultura e esquecer a caridade.
Podemos defender corretamente uma verdade e fazê-lo, no entanto, com um coração incapaz de amar.
Podemos ganhar discussões e perder almas.
Isto seria outra forma de naturalização: transformar a fé numa identidade cultural ou ideológica.
A verdadeira tradição católica não é uma ideologia.
É a transmissão viva da fé apostólica que a Igreja recebeu de Cristo e dos Apóstolos.
E o seu centro continua a ser Cristo.
35. Tradição não significa nostalgia
Este ponto é particularmente importante.
A verdadeira Tradição não consiste simplesmente em conservar formas do passado.
Tradição significa receber e transmitir aquilo que a Igreja recebeu de Cristo e dos Apóstolos.
A liturgia católica tradicional pode contribuir poderosamente para redescobrir o sentido do sagrado.
A música sacra pode elevar a alma.
O silêncio pode ensinar a adoração.
O latim pode recordar a universalidade da Igreja.
A arquitetura sacra pode ser catequese.
Mas nenhuma forma externa pode substituir a conversão interior.
A liturgia deve conduzir-nos a Cristo.
A Tradição deve conduzir-nos a Cristo.
A doutrina deve conduzir-nos a Cristo.
A piedade deve conduzir-nos a Cristo.
36. O cristianismo sobrenatural restitui ao homem a sua verdadeira grandeza
Paradoxalmente, quanto mais sobrenatural é, mais profundamente o cristianismo valoriza o homem.
Porque não diz:
«És simplesmente um animal inteligente».
Diz:
Foste criado para Deus.
Não diz:
«A tua vida termina no túmulo».
Diz:
És chamado à ressurreição.
Não diz:
«Os teus pecados definem-te para sempre».
Diz:
Podes receber o perdão.
Não diz:
«Tens de salvar-te pelas tuas forças».
Diz:
Deus oferece-te a sua graça.
Não diz:
«O teu sofrimento não tem sentido».
Diz:
Podes uni-lo à cruz de Cristo.
Não diz:
«Estás sozinho».
Diz:
Cristo está contigo.
37. O cristianismo não promete simplesmente uma vida melhor: promete uma vida nova
Talvez esta seja a melhor maneira de resumir tudo.
O cristianismo não é simplesmente um método para melhorar a vida.
É o anúncio de uma vida nova.
São Paulo exprime-o maravilhosamente:
«Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura» (2 Cor 5,17).
Uma nova criatura.
Não simplesmente um homem que se tornou um pouco melhor.
Não uma versão otimizada de nós mesmos.
Uma existência renovada pela graça.
Isto explica por que razão os santos podiam viver de uma maneira incompreensível para o mundo.
Não eram simplesmente pessoas dotadas de uma disciplina extraordinária.
Eram homens e mulheres transformados por Deus.
38. O verdadeiro cristianismo começa onde termina o homem autossuficiente
O homem moderno quer o controlo.
Controlo sobre o próprio corpo.
Controlo sobre o próprio futuro.
Controlo sobre a própria imagem.
Controlo sobre a própria reputação.
Controlo sobre o ambiente que o rodeia.
Até controlo sobre a própria identidade.
Mas o Evangelho começa quando o homem descobre que não pode salvar-se a si mesmo.
E então ouve uma notícia extraordinária:
Deus veio procurá-lo.
Não precisamos de subir até Deus pelas nossas próprias forças.
Deus desceu até nós.
O cristianismo começa em Belém.
Prossegue em Nazaré.
Passa pelo Gólgota.
Triunfa na ressurreição.
Espalha-se no Pentecostes.
E continua sacramentalmente na Igreja.
Isto não é uma filosofia inventada pelo homem.
É a história da salvação.
39. Uma pergunta para o nosso tempo: o que restaria se retirássemos Cristo?
Podemos fazer uma experiência muito simples.
Imaginemos que amanhã desaparecessem do discurso cristão todas as referências aos seguintes elementos:
- Deus;
- Cristo;
- pecado;
- graça;
- cruz;
- ressurreição;
- sacramentos;
- Igreja;
- oração;
- conversão;
- vida eterna.
E que permanecessem apenas:
- solidariedade;
- justiça;
- igualdade;
- fraternidade;
- paz;
- dignidade;
- tolerância;
- ajuda aos necessitados.
Ainda teríamos cristianismo?
A resposta é clara:
Não no sentido pleno da palavra.
Teríamos valores compatíveis com o cristianismo.
Mas teríamos perdido aquilo que torna esses valores frutos da vida sobrenatural.
40. O cristão do futuro deve redescobrir a palavra «sobrenatural»
Um dos grandes desafios da evangelização das próximas décadas será talvez precisamente redescobrir uma palavra que deixámos de utilizar:
sobrenatural.
Porque se o sobrenatural não existe, então a oração é apenas autorreflexão.
A Missa é apenas uma reunião.
A confissão é apenas psicologia.
A Eucaristia é apenas um símbolo.
A graça é apenas uma metáfora.
Os milagres são apenas histórias antigas.
A ressurreição é apenas uma imagem.
Os santos são apenas exemplos morais.
O céu é apenas uma esperança poética.
Mas se Deus existe e Cristo ressuscitou, então tudo muda.
A religião deixa de ser uma construção humana.
E torna-se um encontro com a realidade mais profunda que existe:
o próprio Deus.
41. O verdadeiro cristianismo é radicalmente sobrenatural e radicalmente humano
Aqui se encontra a síntese conclusiva.
Não precisamos de escolher entre humanidade e sobrenaturalidade.
O próprio Cristo é a resposta.
O Filho de Deus assumiu uma natureza humana.
A graça não destruiu a humanidade de Cristo.
Conduziu-a à sua plenitude.
Da mesma forma, a graça não destrói o homem.
Restaura-o.
Eleva-o.
Santifica-o.
Diviniza-o por participação.
Por isso o verdadeiro cristianismo é profundamente humano precisamente porque é profundamente sobrenatural.
Ama o homem porque ama Deus.
Serve o homem porque reconhece nele a imagem de Deus.
Defende a verdade porque Cristo é a Verdade.
Protege a vida porque a vida vem de Deus.
Ama o inimigo porque Cristo morreu pelos pecadores.
Perdoa porque recebeu o perdão.
Espera porque Cristo venceu a morte.
42. Conclusão: não precisamos de um cristianismo «mais natural», mas de um regresso à fonte sobrenatural
Talvez o problema do nosso tempo não seja existir demasiado cristianismo.
Talvez o problema seja que, em muitos âmbitos, procurámos transformar o cristianismo em algo que o mundo possa aceitar sem ter de se converter.
Reduzimos o Evangelho aos valores.
Jesus a um mestre.
A Igreja a uma instituição.
A liturgia a uma celebração.
Os sacramentos a símbolos.
A moral a regras.
A caridade à solidariedade.
A oração ao bem-estar.
A fé à identidade cultural.
E assim o cristianismo deixa de escandalizar.
Mas também deixa de salvar.
Porque o Evangelho não foi anunciado para que o mundo dissesse:
«Que valores maravilhosos!»
Foi anunciado para que o homem pudesse dizer:
«Senhor, salva-me!»
O cristianismo não anuncia simplesmente que devemos tornar-nos melhores.
Anuncia que Deus nos oferece a sua graça.
Não anuncia simplesmente que devemos amar.
Anuncia que Deus nos amou primeiro.
Não anuncia simplesmente que devemos perdoar.
Anuncia que Cristo morreu pelos nossos pecados.
Não anuncia simplesmente que devemos ter esperança.
Anuncia que Cristo venceu a morte.
Não anuncia simplesmente uma nova ética.
Anuncia uma nova criação.
Por isso a Igreja, diante de toda tentativa de reduzir o cristianismo a uma ética humana, deve proclamar novamente com toda a sua força aquilo que constitui o próprio núcleo da sua existência:
Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Cristo morreu pelos nossos pecados.
Cristo ressuscitou.
Cristo está realmente presente na Eucaristia.
Cristo perdoa os pecados.
Cristo dá a sua graça.
Cristo chama-nos à conversão.
Cristo fundou a sua Igreja.
Cristo voltará.
Cristo é o princípio e o fim.
E é então que compreendemos a verdadeira diferença entre uma religião naturalizada e o cristianismo.
Uma religião naturalizada diz:
«Faz o bem e sê uma boa pessoa».
O Evangelho diz:
«Vem a Cristo, recebe a sua graça, converte-te, segue-o e deixa que Ele transforme a tua vida».
Uma religião naturalizada pode produzir pessoas admiráveis.
Mas somente a graça pode produzir santos.
E a Igreja não existe simplesmente para formar bons cidadãos.
Existe para conduzir os homens a Cristo.
Porque, no fim de todas as nossas obras, de todas as nossas virtudes, de todos os nossos projetos, de todas as nossas discussões e de todas as nossas realizações humanas, permanece uma única pergunta verdadeiramente decisiva:
Conhecemos Cristo?
E ainda mais:
Permitimos que Cristo viva em nós?
Aqui começa o verdadeiro cristianismo.
Não na simples moral.
Não na ideologia.
Não na cultura.
Não no sentimentalismo.
Não numa coleção de valores.
Em Cristo.
Porque o cristianismo não é simplesmente uma maneira de viver.
É a vida de Cristo comunicada ao homem através da graça.
E por isso a Igreja, diante de toda tentativa de reduzi-lo a uma ética humana, deve proclamar novamente com toda a sua força aquilo que constitui o próprio núcleo da sua existência:
«Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância» (Jo 10,10).