Vivemos numa época marcada pelo arrependimento. Muitas pessoas carregam o peso de decisões erradas, pecados do passado, oportunidades perdidas ou feridas que nunca cicatrizaram completamente. É comum ouvir expressões como: «Se ao menos eu pudesse voltar atrás…», «Gostaria de ter agido de outra forma…» ou «Agora já é tarde demais para mudar o que aconteceu.»
Mas aqui surge uma pergunta profundamente fascinante, uma questão que tem despertado o interesse de teólogos, santos e pensadores cristãos ao longo dos séculos:
Será possível que as orações que faço hoje possam ter algum efeito sobre acontecimentos do meu passado?
À primeira vista, a resposta parece evidente: o passado já aconteceu e não pode ser mudado. Contudo, quando introduzimos Deus nesta reflexão — Aquele que não está sujeito ao tempo como nós — toda a perspetiva ganha uma profundidade extraordinária.
A Igreja Católica ensina que Deus é eterno. Ele contempla simultaneamente toda a história: o passado, o presente e o futuro. Sob esta perspetiva, as nossas orações possuem um alcance muito maior do que normalmente imaginamos.
Este tema não pertence ao campo da ficção científica nem da fantasia espiritual. Trata-se, antes, de uma questão profundamente teológica que diz respeito à eternidade de Deus, à Divina Providência, à eficácia da oração e à harmonia entre a liberdade humana e a omnisciência divina.
Acompanhemo-nos nesta viagem através de um dos mistérios mais fascinantes da fé católica.
Deus não vive dentro do tempo
Para compreendermos esta questão, devemos primeiro compreender quem é Deus.
Nós vivemos mergulhados no tempo.
Experimentamos:
- um ontem que já passou;
- um hoje que estamos a viver;
- um amanhã que ainda não existe para nós.
O nosso conhecimento desenvolve-se sempre de forma sucessiva.
Deus, porém, não experimenta o tempo como uma sucessão de instantes.
Ele é eterno.
Isto não significa simplesmente que exista desde há um tempo imensurável.
A eternidade não é um tempo sem fim.
A eternidade é a ausência do tempo.
São Tomás de Aquino explica que Deus possui uma existência que não passa de um instante para outro, mas permanece num único presente eterno.
Para Deus não existe «antes» nem «depois».
Tudo está presente diante d’Ele.
Por isso o salmista afirma:
«Mil anos aos teus olhos são como o dia de ontem que passou.» (Salmo 90,4)
E São Pedro repete a mesma verdade:
«Para o Senhor, um dia é como mil anos e mil anos como um dia.» (2 Pedro 3,8)
Estas palavras não são simples imagens poéticas.
Elas exprimem uma verdade teológica fundamental:
Deus contempla simultaneamente toda a história da humanidade.
Então… Deus já conhecia as orações que faço hoje?
Sim.
Desde toda a eternidade, Deus conhecia cada uma das tuas orações.
Sabia exatamente:
- quando as farias;
- com que intenção;
- com que grau de fé;
- com quanto amor;
- com quanta perseverança.
E aqui encontramos uma consequência surpreendente.
Quando Deus permitiu que um determinado acontecimento ocorresse há vinte anos…
…Ele já sabia que hoje rezarias por esse acontecimento.
Por outras palavras:
a tua oração nunca chega «demasiado tarde» para Deus.
Ela chega até Ele precisamente no momento previsto pela sua eterna Providência.
O passado pode ser mudado?
Aqui devemos ser muito precisos.
A Igreja responde claramente:
Não.
O passado histórico não pode ser alterado.
O que aconteceu, aconteceu.
Nenhuma oração pode fazer com que um pecado cometido deixe de ter sido cometido.
Nenhuma oração pode fazer com que um acidente nunca tenha acontecido.
Nenhuma oração pode alterar os factos históricos.
No entanto…
Deus pode ter querido, desde toda a eternidade, conceder determinadas graças precisamente naquele momento, tendo em conta as orações que tu oferecerias livremente muitos anos depois.
O acontecimento em si não muda.
O que muda é a distribuição das graças que Deus quis conceder naquele momento.
Um exemplo simples
Imaginemos que uma criança sofreu um acidente em 1995.
A sua mãe rezou desesperadamente.
Trinta anos depois, essa mesma criança descobre a fé e começa a rezar por toda a sua família.
Do nosso ponto de vista cronológico, pareceria impossível que essas novas orações tivessem alguma relação com aquele antigo acidente.
Mas Deus contemplava simultaneamente:
- as súplicas da mãe em 1995;
- as orações do filho em 2025;
- todas as graças concedidas durante esse acidente.
Deus pode ter decidido conceder determinadas ajudas precisamente em vista dessas futuras orações.
Não porque o futuro tenha mudado o passado.
Mas porque para Deus tudo está presente desde toda a eternidade.
São Tomás de Aquino e a Providência eterna
São Tomás ensina que Deus governa todas as causas secundárias.
Entre essas causas secundárias…
…encontram-se também as nossas próprias orações.
Quando rezamos, não estamos a tentar convencer Deus.
Não Lhe comunicamos nada que Ele já não saiba.
Nem alteramos inesperadamente o seu plano.
Muito pelo contrário.
A nossa oração faz parte do próprio plano eterno de Deus.
Desde toda a eternidade, Ele quis que determinadas graças fossem concedidas precisamente porque nós escolheríamos livremente rezar.
Isto explica por que motivo a oração possui uma verdadeira eficácia sem diminuir, de forma alguma, a soberania de Deus.
A oração faz parte do plano eterno de Deus
Aqui descobrimos uma das maiores belezas do cristianismo.
Deus não age sozinho.
Ele quer contar com a nossa colaboração.
Por isso Jesus Cristo diz:
«Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei e abrir-se-vos-á.» (Mateus 7,7)
Não porque Deus precise de ser convencido.
Mas porque quis livremente associar as nossas orações à sua obra da Divina Providência.
Podemos rezar por aqueles que já morreram?
A Igreja responde sim.
E esta prática tem as suas raízes nos tempos mais antigos.
Já no Antigo Testamento lemos:
«É, pois, um pensamento santo e piedoso rezar pelos mortos, para que sejam libertados dos seus pecados.» (2 Macabeus 12,46)
Muitas pessoas perguntam:
«Mas se eles já morreram, o seu destino não está já definitivamente decidido?»
A resposta leva-nos, mais uma vez, à eternidade de Deus.
Desde toda a eternidade, Deus já conhecia todas as Santas Missas, todos os Rosários, todas as indulgências e todos os sufrágios que um dia ofereceríamos por essas almas.
Do nosso ponto de vista, rezamos depois da sua morte.
Do ponto de vista eterno de Deus, porém, essas orações já estavam presentes no próprio momento do seu Juízo Particular.
Isto não significa que o julgamento mude.
Significa, antes, que Deus teve eternamente em conta essas orações ao exercer a sua perfeita justiça e a sua infinita misericórdia.
E quanto aos meus pecados do passado?
Aqui encontramos um dos maiores consolos da vida cristã.
Não podemos apagar o pecado que cometemos.
Mas podemos obter o seu perdão.
Quando nos aproximamos do Sacramento da Confissão, acontece algo verdadeiramente maravilhoso.
O pecado permanece como um facto histórico.
Mas a sua culpa é apagada.
O profeta Isaías proclama esta promessa de Deus:
«Ainda que os vossos pecados sejam como o escarlate, tornar-se-ão brancos como a neve.» (Isaías 1,18)
A graça transforma completamente a nossa relação com o passado.
Já não somos escravos dele.
A misericórdia de Deus também cura a nossa memória
Muitas pessoas vivem atormentadas por erros cometidos há muitos anos.
Não conseguem perdoar-se a si próprias.
Revivem continuamente acontecimentos dolorosos.
A graça atua também sobre a nossa memória.
Não apaga as nossas recordações.
Mas pode curar a ferida que essas recordações provocam.
Muitos santos experimentaram esta profunda paz interior depois de longos anos de sofrimento espiritual.
Santa Mónica: um exemplo luminoso
Santa Mónica rezou durante décadas pela conversão do seu filho.
Quando tudo parecia perdido…
Deus interveio.
Aquele jovem rebelde tornou-se um dos maiores santos e Doutores da Igreja:
Santo Agostinho.
Durante muitos anos parecia que as suas orações não produziam qualquer fruto.
Contudo, Deus estava a tecer silenciosamente uma história de salvação.
A oração nunca se perde.
A Cruz de Cristo transcende todos os tempos
Existe uma dimensão ainda mais profunda deste mistério.
A morte de Cristo aconteceu historicamente há quase dois mil anos.
No entanto…
o seu sacrifício possui um valor eterno.
Cada Santa Missa torna sacramentalmente presente esse único sacrifício redentor.
Não é repetido.
Não é multiplicado.
É tornado presente.
Por isso, as graças da Cruz alcançam todos os homens de todos os tempos.
Os justos do Antigo Testamento foram salvos por Cristo antes mesmo de a Crucifixão acontecer na história.
Porquê?
Porque o sacrifício de Nosso Senhor possui uma eficácia eterna.
Isto demonstra que a ação salvífica de Deus não está limitada pela nossa compreensão cronológica da história.
O que realmente pode mudar hoje
Embora não possamos alterar os acontecimentos do passado, podemos transformar profundamente as suas consequências espirituais.
Hoje podemos:
- pedir perdão;
- reparar o mal que causámos;
- oferecer atos de penitência;
- obter indulgências;
- mandar celebrar Santas Missas pelos nossos defuntos;
- reconciliar-nos com aqueles que ferimos;
- aceitar em paz as provações que vivemos;
- unir os nossos sofrimentos aos de Cristo, oferecendo-os a Ele.
Deste modo, o passado deixa de ser uma corrente que nos aprisiona e transforma-se num caminho de santidade.
Um ensinamento especialmente necessário para o nosso tempo
A nossa sociedade está obcecada com a ideia de «reescrever» o passado. Procura-se apagar os erros através do esquecimento, da manipulação da história ou até da negação da própria realidade. O cristianismo, pelo contrário, propõe um caminho muito mais profundo e verdadeiro.
A fé cristã não nos convida a fingir que o passado nunca existiu.
Convida-nos antes a contemplá-lo à luz da Cruz.
É aí que descobrimos que Deus é capaz de fazer nascer um imenso bem até dos nossos fracassos, desde que os coloquemos nas suas mãos.
São Paulo exprime esta certeza numa das passagens mais consoladoras de toda a Sagrada Escritura:
«Sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.» (Romanos 8,28)
Ele não diz que tudo o que acontece seja bom.
O pecado, o sofrimento e a injustiça continuam a ser verdadeiros males.
O que ele afirma é que Deus, na sua infinita sabedoria, pode fazer com que até esses males se tornem ocasiões de graça e de salvação para aqueles que O amam.
Viver hoje sob o olhar da eternidade
Cada oração oferecida com fé possui um valor que ultrapassa a nossa compreensão. Talvez nunca venhamos a saber, durante esta vida, quantas almas foram ajudadas por um Rosário rezado em silêncio, quantas conversões nasceram de uma Santa Missa oferecida com amor ou quantas graças Deus concedeu ao ter em consideração as nossas humildes súplicas.
Da nossa limitada perspetiva humana, vemos a história como uma linha que avança inexoravelmente do passado para o futuro. Deus, porém, contempla toda essa história do alto da eternidade. Nada escapa ao seu olhar; nada está fora da sua Divina Providência.
Por isso, quando hoje rezas por alguém, por um ente querido falecido, por uma antiga ferida ou até por uma decisão errada tomada há muitos anos, podes fazê-lo com total confiança. Não estás a tentar mudar a história. Através da oração, estás a entrar no desígnio eterno d’Aquele para quem não existe um «tarde demais».
A esperança cristã não consiste em voltar atrás para corrigir os nossos erros, mas em caminhar para Deus com a certeza de que a sua misericórdia é capaz de abraçar toda a nossa existência. Desde toda a eternidade, Ele já conhecia cada uma das nossas lágrimas, cada ato de arrependimento e cada oração pronunciada com humildade.
Por isso, nunca penses que a oração é inútil ou que chegaste tarde demais. Para nós existe um ontem e um amanhã; para Deus existe um eterno presente, no qual a tua oração sempre esteve presente diante d’Ele.
E é precisamente esta certeza que transforma a nossa vida: o passado deixa de ser uma prisão, o presente torna-se uma oportunidade de graça e o futuro enche-se de uma esperança que só pode nascer da confiança plena na Divina Providência.