A verdade da fé católica e o diálogo com as religiões no mundo atual
Nas últimas décadas, difundiu-se uma expressão que, embora possa parecer bem-intencionada, necessita de um profundo esclarecimento à luz da perspectiva católica:
«Todos nós adoramos o mesmo Deus.»
Muitas vezes, esta expressão é utilizada como sinal de respeito, de convivência e de desejo de paz entre as religiões. No entanto, de um ponto de vista teológico católico rigoroso, esta afirmação pode ser imprecisa e até conduzir a uma importante confusão doutrinal.
A Igreja Católica ensina que existe um só Deus verdadeiro, Criador do Céu e da Terra, mas também ensina que a plenitude da Revelação divina se encontra em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.
Por isso, embora a Igreja reconheça elementos de verdade e de santidade presentes noutras religiões, não afirma que todas as religiões adorem o mesmo Deus no mesmo sentido, nem que todas as conceções religiosas sejam equivalentes.
Esta questão torna-se particularmente importante quando se estuda a declaração do Concílio Vaticano II:
«Nostra Aetate», promulgada a 28 de outubro de 1965, sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs.
Este documento marcou uma mudança histórica na forma como os católicos são chamados a relacionar-se com aqueles que pertencem a outras tradições religiosas.
Não representou um abandono da identidade cristã nem uma afirmação de que todas as religiões são iguais. Pelo contrário: foi um apelo à verdade, ao respeito e ao diálogo, partindo da firmeza da própria fé.
1. O que é realmente Nostra Aetate?
A expressão latina Nostra Aetate significa «No nosso tempo».
Trata-se de uma declaração breve, mas de enorme importância, aprovada durante o Concílio Vaticano II.
O seu principal objetivo foi responder a uma realidade evidente: o mundo moderno tornava-se cada vez mais interligado, com povos, culturas e religiões a viverem lado a lado nos mesmos espaços.
A Igreja compreendeu que não podia ignorar esta realidade. Era necessário oferecer aos católicos uma orientação clara sobre a forma de se relacionarem com pessoas pertencentes a outras tradições religiosas.
O documento começa afirmando:
«No nosso tempo, em que o género humano se torna cada dia mais estreitamente unido e aumentam as relações entre os diversos povos, a Igreja considera com maior atenção as suas relações com as religiões não cristãs.»
A intenção do Concílio não era dizer:
- Todas as religiões são verdadeiras.
- Todas as religiões conduzem igualmente a Deus.
- Todas as religiões adoram o mesmo Deus.
- Jesus Cristo é apenas uma opção entre muitas outras.
Nenhuma destas ideias aparece em Nostra Aetate.
O que realmente aparece é um convite a reconhecer que Deus não deixou a humanidade sem qualquer sinal da Sua presença.
2. Um só Deus, mas a Revelação plena em Cristo
A fé católica parte de uma verdade fundamental:
Existe um só Deus.
A Sagrada Escritura exprime-o claramente:
«Escuta, Israel: o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.»
(Deuteronómio 6,4)
O cristianismo não acredita em vários deuses. Não é simplesmente uma religião entre muitas que propõe uma imagem diferente da divindade.
A fé cristã afirma que o único Deus Se revelou definitivamente em Jesus Cristo.
O próprio Jesus disse:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim.»
(João 14,6)
Esta afirmação de Cristo é fundamental para compreender a posição católica.
A Igreja não pode afirmar que todas as religiões apresentam a mesma imagem de Deus, porque as diferenças são reais e profundas:
- O cristianismo professa Deus como Pai, Filho e Espírito Santo.
- O judaísmo não reconhece Jesus Cristo como o Messias e Senhor.
- O islão rejeita a divindade de Cristo e a Santíssima Trindade.
- Outras religiões possuem conceções do divino radicalmente diferentes.
Assim, embora possa existir uma referência comum a Deus como Criador, não existe uma identidade plena entre a fé católica e as outras religiões.
3. Então, o que quer realmente dizer a Igreja quando fala de diálogo inter-religioso?
Este é um dos pontos em que mais frequentemente surgem confusões.
Dialogar não significa colocar tudo no mesmo plano.
Respeitar não significa aceitar tudo.
Amar o próximo não significa negar a verdade.
Um católico pode e deve dialogar com pessoas de outras religiões porque toda a pessoa humana possui uma dignidade que lhe vem de Deus.
A Igreja ensina que cada ser humano foi criado à imagem de Deus:
«Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.»
(Génesis 1,27)
Por isso, o cristão deve olhar para o outro com respeito, mesmo quando existam profundas diferenças doutrinais.
Mas o verdadeiro amor nunca elimina a verdade.
Um pai que ama os seus filhos não lhes diz que tudo é indiferente. Uma mãe que ama não esconde a realidade para evitar dificuldades. Do mesmo modo, a Igreja ama todos os homens, mas não pode abandonar a verdade que recebeu de Cristo.
4. A relação com o judaísmo: uma história única
Nostra Aetate dedica uma secção especial ao povo judeu.
A razão é profunda: o cristianismo nasceu no seio da história de Israel.
Jesus era judeu.
A Virgem Maria era judia.
Os Apóstolos eram judeus.
A Igreja reconhece que:
«A Igreja de Cristo reconhece que os primórdios da sua fé e da sua eleição já se encontram nos Patriarcas, em Moisés e nos Profetas.»
São Paulo exprime esta relação dizendo:
«Eles são israelitas; a eles pertencem a adoção filial, a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os Patriarcas, e deles procede Cristo segundo a carne.»
(Romanos 9,4-5)
No entanto, reconhecer esta raiz comum não significa afirmar que o judaísmo e o cristianismo sejam atualmente a mesma fé.
A diferença fundamental é Jesus Cristo.
Para a Igreja Católica, Jesus não é apenas um mestre espiritual ou um profeta, mas:
«E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.»
(João 1,14)
A relação com o judaísmo deve ser marcada pelo respeito, pela gratidão histórica e pela rejeição absoluta do antissemitismo, mas também pela fidelidade a Cristo.
5. A relação com o islão: pontos comuns e diferenças essenciais
Nostra Aetate fala também dos muçulmanos.
O documento reconhece que:
«A Igreja olha também com estima para os muçulmanos, que adoram o Deus único.»
Esta afirmação deve ser compreendida corretamente.
A Igreja reconhece que o islão possui uma referência monoteísta e que muitos muçulmanos procuram sinceramente servir a Deus.
Contudo, isso não significa que a doutrina islâmica acerca de Deus seja idêntica à Revelação cristã.
Existem diferenças fundamentais.
A Santíssima Trindade
A fé católica professa:
Um só Deus em três Pessoas:
- O Pai.
- O Filho.
- O Espírito Santo.
O islão rejeita esta verdade porque considera que ela compromete a unidade absoluta de Deus.
Jesus Cristo
Para o cristão:
Jesus é Deus feito homem.
Para o islão:
Jesus (ʿĪsā) é um grande profeta, mas não é Deus.
Aqui encontramos uma diferença essencial.
Por isso, afirmar simplesmente «adoramos o mesmo Deus», sem mais explicações, pode criar uma falsa impressão de unidade doutrinal que, na realidade, não existe.
6. Porque é que algumas pessoas dizem que todas as religiões adoram o mesmo Deus?
Normalmente, esta expressão nasce de três intenções.
1. Procurar a paz
Muitas pessoas desejam evitar conflitos religiosos e afirmam:
«Todos acreditamos em algo superior.»
A intenção pode ser boa, mas a expressão exige precisão.
2. Reconhecer elementos comuns
Muitas religiões partilham:
- A oração.
- A busca espiritual.
- A importância da moral.
- A crença numa realidade transcendente.
Mas possuir elementos comuns não significa professar a mesma fé.
Duas pessoas podem falar do amor, mas compreendê-lo de formas completamente diferentes.
3. Uma visão relativista
Em alguns casos surge uma ideia moderna:
«Todas as religiões são caminhos igualmente válidos para Deus.»
Esta posição não corresponde à doutrina católica.
A Igreja ensina que existem sementes de verdade nas outras religiões, mas afirma que Cristo é a plenitude definitiva da Revelação.
7. O que ensina realmente a Igreja sobre as religiões não cristãs?
O Concílio Vaticano II utiliza uma expressão importante:
«As sementes do Verbo».
Isto significa que podem existir elementos de verdade e de bondade em diferentes tradições religiosas.
Deus pode agir no coração das pessoas que procuram sinceramente a verdade.
Contudo, essas sementes encontram a sua plenitude em Cristo.
Como afirma São Paulo:
«Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento.»
(Colossenses 2,3)
A Igreja não despreza aquilo que existe de bom fora dela.
Mas também não pode ocultar aquilo que acredita ter recebido:
Cristo é o Salvador universal.
8. O perigo de um falso diálogo religioso
Existe um erro frequente nos nossos dias:
Confundir diálogo com renúncia.
Alguns pensam:
«Para respeitar outra religião, devo deixar de afirmar a minha própria fé.»
Isto é falso.
O verdadeiro diálogo exige pessoas que possuam uma identidade clara.
Um católico que não sabe no que acredita dificilmente conseguirá manter um diálogo profundo.
O verdadeiro diálogo não consiste em dizer:
«Tu tens razão e eu também tenho razão, mesmo afirmando coisas contraditórias.»
Isso seria simplesmente relativismo.
O verdadeiro diálogo consiste em dizer:
«Respeito-te como pessoa, escuto a tua experiência religiosa, mas partilho contigo a verdade que acredito ter recebido de Deus.»
9. A atitude do católico perante as outras religiões
Um católico bem formado deve evitar dois extremos.
Primeiro extremo: o desprezo
O cristão nunca deve olhar com arrogância para aqueles que não partilham a sua fé.
Cristo morreu por todos.
Cada pessoa possui uma dignidade infinita.
Segundo extremo: o relativismo
Também não deve pensar:
«Não importa aquilo em que se acredita.»
A fé católica possui um conteúdo objetivo.
Jesus Cristo não disse:
«Eu sou uma possibilidade.»
Disse:
«Eu sou o caminho, a verdade e a vida.»
(João 14,6)
10. Aplicação pastoral na sociedade atual
Vivemos em sociedades onde convivem pessoas de diferentes religiões.
Isso cria desafios concretos:
- Escolas com alunos de diferentes crenças.
- Bairros multiculturais.
- Ambientes de trabalho diversos.
- Casamentos mistos.
- Debates públicos sobre religião.
Como deve agir um católico?
Com caridade
Nunca com ódio nem desprezo.
Com clareza
Sem esconder a sua fé.
Com humildade
Reconhecendo que também ele necessita de conversão todos os dias.
Com espírito missionário
Porque anunciar Cristo continua a ser uma missão.
Jesus disse:
«Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura.»
(Marcos 16,15)
11. A grande questão: se não adoramos o mesmo Deus, devemos combater-nos?
A resposta cristã é claramente:
Não.
As diferenças religiosas nunca devem conduzir ao ódio.
O cristão é chamado a amar até aqueles que pensam de maneira diferente.
Jesus ensinou:
«Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem.»
(Mateus 5,44)
A verdade e a caridade nunca devem ser separadas.
A Igreja rejeita tanto o desprezo pelas outras religiões como a ideia de que todas as religiões são idênticas.
12. Conclusão: fidelidade a Cristo e respeito por todos
Nostra Aetate não é um documento que afirme que todas as religiões são iguais.
É um documento que ensina algo muito mais profundo:
O cristão deve aproximar-se do mundo com amor, levando consigo a verdade de Cristo.
Não adoramos simplesmente «o mesmo Deus» se, com essa expressão, se pretende dizer que todas as religiões são equivalentes.
A Igreja acredita que existe um só Deus verdadeiro, mas acredita também que esse Deus Se revelou plenamente em Jesus Cristo.
Por isso, um católico pode dizer:
«Respeito profundamente todas as pessoas religiosas. Reconheço tudo o que existe de bom nas outras tradições. Desejo viver em paz e em diálogo com todos. Mas a minha fé leva-me a professar que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o Salvador do mundo e a plenitude de toda a Revelação.»
A verdadeira paz não nasce da eliminação das diferenças.
Nasce da verdade acompanhada pela caridade.
Como ensinou o Papa Bento XVI:
A fé cristã não é uma ideia criada pelos homens, mas o encontro com uma Pessoa: Jesus Cristo.
E esse encontro é o maior tesouro que a Igreja é chamada a anunciar ao mundo inteiro.