A fé entre palcos e telas: luzes e sombras dos grandes eventos católicos

Quando a Igreja enche estádios e as redes sociais se iluminam

Vivemos uma época singular na história da Igreja. Nunca antes foi possível que milhões de pessoas acompanhassem simultaneamente uma celebração religiosa a partir de qualquer lugar do mundo. Uma Missa papal celebrada numa grande cidade pode ser assistida ao vivo por fiéis dos cinco continentes. Um grande encontro de jovens pode gerar milhares de vídeos, fotografias e publicações em questão de minutos. As palavras do Santo Padre percorrem o mundo antes mesmo de ele terminar de pronunciá-las.

A recente visita do Papa à Espanha voltou a evidenciar esta realidade. Grandes concentrações, palcos monumentais, telas gigantes, apresentações musicais, testemunhos, celebrações multitudinárias e uma enorme presença mediática acompanharam dias que muitos viveram com emoção, esperança e alegria.

No entanto, ao lado deste entusiasmo legítimo, também surgiram perguntas. Alguns fiéis observaram com preocupação certos elementos que pareciam mais próprios de um concerto moderno ou de um espetáculo do que de um evento religioso. Outros, pelo contrário, celebraram precisamente esta capacidade da Igreja de alcançar as novas gerações através de formas de expressão contemporâneas.

Quem tem razão?

A resposta, como acontece frequentemente em questões complexas, exige discernimento. Não basta aplaudir tudo, nem condenar tudo. A tradição católica sempre procurou distinguir cuidadosamente entre o essencial e o acidental, entre o depósito da fé e as formas históricas através das quais essa fé é transmitida.

Por isso, vale a pena refletir serenamente sobre as luzes e as sombras dos grandes eventos católicos contemporâneos.


A Igreja sempre reuniu multidões

Algumas pessoas pensam que os grandes ajuntamentos são uma inovação recente. Contudo, a história demonstra o contrário.

Nosso Senhor Jesus Cristo pregou diante de milhares de pessoas. Os Evangelhos narram a multiplicação dos pães para cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças (cf. Mt 14,13-21). As multidões seguiam Cristo pelas cidades e pelos caminhos.

A Igreja primitiva também conheceu grandes reuniões. Peregrinações, festas patronais, jubileus e grandes celebrações acompanharam a vida católica durante séculos.

A Idade Média testemunhou imensas procissões, as pregações de santos como São Vicente Ferrer e São Bernardino de Sena diante de multidões enormes, bem como reuniões de fiéis que percorriam centenas de quilómetros para venerar relíquias ou participar em celebrações especiais.

Portanto, o problema não está na multidão em si.

A Igreja nunca teve receio de reunir milhares ou até milhões de pessoas quando o objetivo era glorificar Deus.

A questão fundamental é outra: quem ocupa o centro?


O critério decisivo: Cristo deve ser o protagonista

A teologia católica ensina que toda a ação da Igreja deve conduzir a Cristo.

O risco permanente de qualquer grande evento é que o centro se desloque.

Por vezes, pode parecer que o protagonista é o artista, o orador, o influenciador digital, a organização ou até mesmo o próprio Papa.

Contudo, o Papa não é o centro da Igreja.

Cristo é o centro.

O Sucessor de Pedro possui precisamente a missão de apontar para Cristo, e não para si mesmo.

As palavras de São João Batista deveriam ecoar constantemente em toda a atividade eclesial:

«É necessário que Ele cresça e que eu diminua» (Jo 3,30).

Quando um evento deixa os participantes com um amor mais profundo por Jesus Cristo, uma maior devoção à Eucaristia, uma vida sacramental mais intensa e um desejo sincero de conversão, podemos dizer que alcançou o seu objetivo.

Mas se a experiência acaba reduzida a uma emoção passageira, a uma fotografia para as redes sociais ou a uma recordação sentimental sem consequências espirituais, algo essencial foi perdido.


A força evangelizadora dos grandes encontros

Seria injusto ignorar os abundantes frutos espirituais que podem surgir destes acontecimentos.

Muitos jovens descobrem pela primeira vez que não estão sozinhos.

Numa sociedade cada vez mais secularizada, muitos católicos vivem a sua fé com um sentimento de isolamento. Ver milhares de pessoas a rezar juntas pode tornar-se uma experiência profundamente transformadora.

Muitos sacerdotes relataram conversões que começaram durante grandes encontros.

Numerosas vocações sacerdotais e religiosas nasceram em encontros de jovens, peregrinações ou celebrações multitudinárias.

Muitas confissões após anos de afastamento espiritual ocorreram precisamente nestes contextos.

A experiência comunitária possui uma enorme força espiritual.

O ser humano necessita de sinais visíveis.

Precisa de ver que a Igreja continua viva.

Precisa de constatar que Cristo continua a atrair almas.

Sob esta perspetiva, os grandes eventos podem tornar-se autênticos instrumentos de evangelização.


A tentação do espetáculo religioso

Mas, ao lado das luzes, surgem também as sombras.

A sociedade contemporânea está profundamente marcada pela cultura do entretenimento.

Tudo deve ser rápido.

Tudo deve provocar emoções.

Tudo deve produzir impacto visual.

Tudo deve competir pela nossa atenção.

Este contexto cultural afeta inevitavelmente a vida religiosa.

Existe uma tentação constante de adaptar a fé à lógica do espetáculo.

Quando isso acontece, o risco é enorme.

A liturgia deixa de ser percebida como adoração e transforma-se numa representação.

A música sacra deixa de elevar a alma e torna-se mero entretenimento.

Os participantes deixam de se sentir peregrinos e tornam-se espectadores.

O silêncio desaparece.

A contemplação desaparece.

A adoração desaparece.

E quando a adoração desaparece, o próprio coração da religião cristã começa a enfraquecer.


O problema não é a alegria cristã

Algumas pessoas acreditam erroneamente que toda a expressão festiva é incompatível com a fé.

A tradição católica demonstra precisamente o contrário.

As festas patronais, as peregrinações, as procissões, as celebrações populares e muitas expressões culturais do catolicismo sempre incluíram alegria, música e celebração.

A fé cristã não é tristeza.

A Ressurreição é motivo de alegria.

O problema não é a alegria.

O problema é a superficialidade.

Existe uma diferença imensa entre a alegria que nasce de Deus e a excitação produzida pelo entretenimento.

A primeira conduz à paz interior.

A segunda desaparece quando o espetáculo termina.

A primeira transforma a alma.

A segunda limita-se a estimular as emoções.

Por isso, a Igreja deve discernir constantemente quais os elementos que realmente ajudam a evangelização e quais apenas imitam os modelos do mundo.


As telas: oportunidade e perigo

Um dos fenómenos mais característicos do nosso tempo é a omnipresença das telas.

Milhões de pessoas conhecem a atividade da Igreja exclusivamente através de vídeos curtos, transmissões em direto ou publicações nas redes sociais.

Isto representa uma oportunidade extraordinária.

Nunca foi tão fácil anunciar o Evangelho.

Um sacerdote pode explicar a doutrina católica a centenas de milhares de pessoas utilizando apenas um telemóvel.

Uma adoração eucarística pode chegar a lugares onde não existem igrejas.

Uma mensagem do Papa pode ser difundida instantaneamente por todo o mundo.

Mas existe também um perigo evidente.

A fé pode ser reduzida a conteúdo.

A vida espiritual pode ser confundida com consumo digital.

Podemos acabar por ver vídeos sobre Deus sem dedicar tempo à oração.

Podemos ouvir homilias durante horas sem ir confessar-nos.

Podemos partilhar imagens religiosas sem viver verdadeiramente o Evangelho.

A tecnologia deve ser uma ponte para Cristo, nunca um substituto de Cristo.


A liturgia não é um concerto

Esta afirmação merece uma atenção especial.

A liturgia constitui a ação sagrada por excelência da Igreja.

Não é uma atividade de animação.

Não é um espetáculo.

Não é uma reunião motivacional.

Não é um concerto.

A Santa Missa torna sacramentalmente presente o sacrifício redentor de Cristo no Calvário.

Nada poderia ser mais importante.

Por isso, a tradição católica sempre insistiu na dignidade, na beleza e no caráter sagrado do culto divino.

Quando elementos excessivamente mundanos invadem o espaço litúrgico, muitos fiéis sentem confusão.

Não se trata necessariamente de nostalgia ou de resistência à mudança.

Muitas vezes trata-se de uma profunda intuição espiritual: a necessidade de preservar a transcendência.

O homem moderno está rodeado de ruído.

Precisamente por isso necessita de lugares onde possa encontrar o silêncio.

Está saturado de entretenimento.

Precisamente por isso necessita de espaços de adoração.

A Igreja não deve competir com o mundo no campo do espetáculo.

Deve oferecer aquilo que o mundo não pode oferecer.

A presença de Deus.


O risco da papolatria

As visitas papais despertam naturalmente entusiasmo.

É compreensível.

O Papa é o Sucessor de Pedro.

É o Vigário de Cristo.

É o sinal visível da unidade da Igreja.

Contudo, a tradição católica sempre advertiu contra uma exaltação excessiva do protagonismo papal.

A fé católica não consiste em seguir a personalidade de um pontífice específico.

Consiste em seguir Jesus Cristo.

Os Papas passam.

Cristo permanece.

As multidões mudam.

A Igreja permanece.

As modas desaparecem.

A verdade permanece.

Uma visita papal, quando bem vivida, deve fortalecer o amor pela Igreja, pelos sacramentos e pela vida cristã quotidiana.

Não deve gerar uma dependência emocional baseada exclusivamente em acontecimentos extraordinários.


O que permanece quando os holofotes se apagam

Toda visita papal chega ao fim.

Os palcos são desmontados.

As telas desligam-se.

Os cânticos cessam.

As multidões regressam a casa.

Então surge a pergunta decisiva.

O que permanece?

Se, depois do evento, houver mais confissões, mais adoração eucarística, mais famílias a rezar juntas, mais jovens a discernir a sua vocação e mais fiéis a viver coerentemente o Evangelho, então o acontecimento terá produzido fruto.

Mas se restarem apenas recordações, fotografias e emoções passageiras, a semente terá caído sobre um terreno pouco profundo.

O próprio Cristo advertiu-nos:

«Pelos seus frutos os conhecereis» (Mt 7,16).

Este é o critério definitivo.

Não o número de participantes.

Não a cobertura mediática.

Não as tendências das redes sociais.

Os frutos espirituais.


Um apelo ao discernimento católico

A recente visita do Papa à Espanha convida todos os católicos a exercer um discernimento sereno e equilibrado.

Não devemos cair na ingenuidade de aprovar tudo sem reflexão.

Nem devemos cair numa crítica permanente que vê apenas defeitos.

O olhar autenticamente católico procura sempre a verdade inteira.

Dá graças pelos frutos da evangelização.

Reconhece os riscos existentes.

Defende a sacralidade da liturgia.

Valoriza a alegria cristã.

Aproveita os meios modernos de comunicação.

Mas nunca sacrifica a essência da fé para se adaptar ao espírito do mundo.

A Igreja tem a missão de evangelizar cada época.

Incluindo a nossa.

Deve falar ao homem contemporâneo.

Deve utilizar os meios disponíveis.

Deve ir ao encontro das novas gerações.

Mas deve recordar sempre que o seu maior tesouro não são os palcos, as telas ou as estratégias de comunicação.

O seu maior tesouro é Jesus Cristo.

Ontem, hoje e para sempre.

E quando Ele permanece no centro, cada celebração, por maior que seja, torna-se verdadeiramente um caminho que conduz a Deus.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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