A santidade não consiste em deslumbrar o mundo, mas em permanecer fiel a Deus quando ninguém nos vê.
Vivemos numa época fascinada pelo talento. Admiramos aqueles que se destacam, possuem uma inteligência excepcional, falam com eloquência ou parecem capazes de transformar o mundo com uma única intervenção. Também no âmbito religioso existe a tentação de medir a santidade pelo brilho intelectual, pelo carisma ou pela capacidade de influenciar os outros.
No entanto, quando abrimos as Sagradas Escrituras e contemplamos a história da Igreja, descobrimos uma verdade surpreendente: o demônio não teme tanto as almas extraordinárias quanto as almas constantes.
Porque o inimigo sabe que um cristão brilhante pode cair vítima do orgulho. Em contrapartida, um cristão humilde que persevera dia após dia acaba por se tornar um gigante espiritual.
A vitória do Reino de Deus normalmente não é construída por grandes feitos isolados, mas por milhões de pequenos atos de fidelidade.
Essa verdade percorre toda a história da salvação.
A estratégia do demônio: ele não precisa tornar-te mau, basta fazer-te desistir
Existe uma imagem equivocada do combate espiritual.
Muitas pessoas imaginam que Satanás tenta apenas levar o homem a cometer pecados gravíssimos. Contudo, os grandes mestres da vida espiritual ensinam outra coisa.
O seu principal objetivo é quebrar a perseverança.
Não lhe preocupa tanto uma queda seguida de um arrependimento sincero.
Preocupa-o muito mais uma pessoa que:
- reza todos os dias;
- levanta-se novamente depois de cada pecado;
- nunca abandona os sacramentos;
- conserva a esperança mesmo em meio à escuridão.
Porque essa pessoa acabará por tornar-se santa.
O demônio compreende perfeitamente algo que nós esquecemos com facilidade:
a graça atua lentamente.
Assim como uma gota pode perfurar uma rocha, a graça transforma pouco a pouco o coração humano.
Por isso, ele procura interromper esse processo.
A perseverança é um dos maiores dons de Deus
A tradição católica distingue entre começar bem e terminar bem.
Muitos começam com entusiasmo.
Poucos perseveram.
Nosso Senhor explicou isso de maneira magistral na parábola do semeador.
Algumas sementes brotam rapidamente.
Mas não têm raízes.
Quando chega o calor…
…secam.
Cristo diz:
“Mas aquele que perseverar até o fim será salvo.”
(Mateus 24,13)
Essa frase resume toda a espiritualidade cristã.
Não basta um momento de fervor.
Não basta uma conversão espetacular.
Não basta ter sido um grande apóstolo durante alguns anos.
É preciso permanecer.
Deus trabalha no tempo
Vivemos numa cultura da imediatidade.
Queremos resultados rápidos.
Conversões instantâneas.
Respostas imediatas.
Mudanças visíveis.
Mas Deus quase nunca age dessa forma.
A pedagogia divina consiste em formar lentamente o coração.
Basta contemplar a história bíblica.
Abraão esperou décadas.
José passou anos na prisão.
Moisés viveu quarenta anos no deserto antes de iniciar a sua missão.
Davi foi ungido rei muito antes de ocupar o trono.
Os Apóstolos precisaram de anos para compreender plenamente quem era Cristo.
A santidade amadurece lentamente.
O brilho pode tornar-se uma tentação
A inteligência é um dom de Deus.
Também o são a eloquência, a liderança e a capacidade de organização.
Mas todos esses dons podem transformar-se em ocasião de orgulho.
São Paulo adverte:
“O conhecimento ensoberbece, mas o amor edifica.”
(1 Coríntios 8,1)
Ele não critica o conhecimento.
Critica o orgulho.
Porque, quando o homem começa a confiar mais nas suas capacidades do que na graça, já começou a perder o combate espiritual.
O demônio conhece perfeitamente essa fraqueza.
Foi precisamente o orgulho que provocou a sua queda.
E ele procura reproduzi-lo continuamente no coração humano.
A perseverança nasce da humildade
Quem persevera sabe que necessita continuamente da ajuda de Deus.
Não confia em si mesmo.
Confia em Cristo.
Todas as manhãs recomeça.
Cada queda torna-se uma nova oportunidade para levantar-se.
Aqui aparece uma diferença fundamental entre o orgulhoso e o humilde.
O orgulhoso pensa:
“Se caí, já não tenho valor.”
O humilde pensa:
“Caí. Senhor, levanta-me mais uma vez.”
Essa diferença parece pequena.
Mas decide a eternidade.
São Pedro e Judas: duas quedas muito diferentes
Ambos traíram o Senhor.
Ambos choraram.
Ambos experimentaram o fracasso.
Contudo, apenas um se tornou santo.
Por quê?
Porque Pedro perseverou.
Judas desesperou.
O demônio não venceu quando Pedro negou Cristo três vezes.
Perdeu quando Pedro aceitou humildemente o perdão.
Em contrapartida, venceu quando Judas deixou de acreditar na misericórdia.
Os santos não foram os mais brilhantes
Muitas vezes imaginamos que todos os santos possuíam talentos extraordinários.
Não é verdade.
Muitos mal sabiam ler.
Outros jamais escreveram um livro.
Alguns nunca pregaram.
E, no entanto, mudaram a história.
Por quê?
Porque foram fiéis.
São José não pronuncia uma única palavra nos Evangelhos.
Mas nunca deixa de obedecer.
Santa Bernadette era uma menina pobre e sem instrução.
São João Maria Vianney teve enormes dificuldades nos estudos.
Muitos religiosos escondidos jamais realizaram milagres espetaculares.
E, no entanto, Deus transformou-os em colunas invisíveis da Igreja.
A paciência desespera o demônio
Existe uma virtude pouco valorizada nos dias de hoje:
a paciência.
Ela não é resignação.
Não é passividade.
É fortaleza.
É permanecer quando tudo convida a desistir.
São Paulo escreve:
“Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não desfalecermos.”
(Gálatas 6,9)
O demônio odeia essa atitude.
Porque sabe que a graça precisa de tempo para produzir fruto.
A santidade é construída com pequenas fidelidades
Existe uma enorme mentira do mundo moderno:
só o extraordinário tem valor.
Mas Deus costuma agir precisamente ao contrário.
Uma oração diária.
Uma confissão mensal.
Uma Comunhão recebida com fervor.
Um Rosário rezado com perseverança.
Uma pequena mortificação.
Um ato cotidiano de paciência.
Um sorriso oferecido por amor a Cristo.
Tudo isso parece insignificante.
No entanto, vai transformando lentamente a alma.
É assim que Deus trabalha.
Não através de explosões de entusiasmo que duram alguns dias, mas por meio da fidelidade silenciosa que atravessa anos e até décadas.
É precisamente essa constância que o demônio teme.
Porque sabe que cada pequeno ato de fidelidade fortalece a alma, aumenta a graça santificante e prepara o coração para graças ainda maiores.
Na vida espiritual não existem gestos pequenos quando são realizados por amor.
Como ensinava Santa Teresinha do Menino Jesus, Deus se agrada das pequenas coisas feitas com um amor imenso.
A chamada “pequena via” da santa de Lisieux é uma das maiores demonstrações de que a perseverança humilde pode produzir frutos extraordinários para toda a Igreja.
O combate da rotina
Paradoxalmente, os maiores combates espirituais raramente são travados em momentos extraordinários.
São travados numa segunda-feira qualquer.
Quando ninguém nos observa.
Quando estamos cansados.
Quando o trabalho nos absorve.
Quando surgem preocupações familiares.
Quando rezar parece difícil.
Quando a Missa exige um esforço.
Quando a leitura espiritual parece árida.
Quando sentimos que Deus permanece em silêncio.
É precisamente aí que nasce a verdadeira perseverança.
Porque perseverar não significa sentir entusiasmo.
Perseverar significa amar.
O amor cristão não é apenas um sentimento.
É uma decisão.
É escolher novamente Cristo todos os dias.
Mesmo quando o coração parece frio.
Mesmo quando não experimentamos consolações espirituais.
Mesmo quando tudo parece estéril.
Foi assim que Nosso Senhor amou até o fim.
E é assim que convida cada discípulo a amar.
A noite espiritual não significa abandono de Deus
Uma das maiores dificuldades da vida espiritual consiste em compreender o valor das aridezes interiores.
Muitos cristãos acreditam que, se deixaram de sentir fervor, Deus os abandonou.
Nada está mais distante da tradição espiritual da Igreja.
Os grandes mestres da vida interior — como São João da Cruz, Santa Teresa de Jesus, São Francisco de Sales e tantos outros — ensinam que Deus frequentemente purifica a alma retirando as consolações sensíveis.
Por quê?
Porque deseja ensinar-nos a amá-Lo por Ele mesmo.
Não pelas emoções.
Não pelas experiências extraordinárias.
Não pelas lágrimas.
Não pelos sentimentos.
Mas por quem Ele é.
É nesse momento que a perseverança adquire um valor imenso.
Continuar a rezar quando não sentimos nada.
Continuar a confiar quando tudo parece escuro.
Continuar a esperar quando não compreendemos os desígnios de Deus.
Continuar a amar quando tudo parece silencioso.
Essa fidelidade desinteressada é um golpe profundo contra o reino das trevas.
Porque demonstra que a nossa fé amadureceu.
Já não depende das emoções.
Depende da verdade.
O inimigo quer o “tudo ou nada”
Uma das tentações mais frequentes na vida espiritual consiste em cair nos extremos.
O demônio costuma sugerir pensamentos como:
“Já que hoje não rezaste uma hora inteira, então não rezes nada.”
“Já que caíste novamente no mesmo pecado, já não vale a pena confessar-te.”
“Já que não consegues fazer tudo perfeitamente, é melhor desistires completamente.”
Esses pensamentos não vêm de Deus.
São armadilhas espirituais.
Porque Deus trabalha de forma completamente diferente.
A pedagogia divina é paciente.
Progressiva.
Misericordiosa.
Deus alegra-Se com cada passo sincero em direção à santidade.
Mesmo que seja pequeno.
Mesmo que seja imperfeito.
Mesmo que seja lento.
O importante é continuar caminhando.
É preferível dar um pequeno passo todos os dias do que correr durante um dia e abandonar a caminhada na semana seguinte.
A perseverança vale mais do que o entusiasmo passageiro.
A virtude de recomeçar
Se existe um segredo comum a praticamente todos os santos, é este:
eles sabiam recomeçar.
Não apenas uma vez.
Mas centenas.
Milhares de vezes.
Cada queda tornava-se uma ocasião para regressar a Cristo.
Nunca permitiam que o desânimo tivesse a última palavra.
São Francisco de Sales aconselhava:
“Não vos perturbeis por causa das vossas imperfeições; levantai o coração com suavidade e recomeçai.”
Que extraordinária lição!
O santo não diz para ignorar o pecado.
Também não diz para desesperar.
Ensina algo muito mais profundo:
olhar para Deus antes de olhar para si mesmo.
Porque a misericórdia divina é sempre maior do que a nossa miséria.
Cada novo começo representa uma derrota para Satanás.
Porque ele esperava que desistíssemos.
Esperava que acreditássemos que já não havia esperança.
Esperava convencer-nos de que Deus se cansou de nós.
Mas Deus nunca Se cansa de levantar aquele que humildemente volta para Ele.
É precisamente essa confiança perseverante que faz crescer a santidade.
A perseverança alimentada pelos sacramentos
A Igreja nunca compreendeu a perseverança como um simples esforço humano.
Se dependesse apenas das nossas forças, nenhum cristão permaneceria fiel por muito tempo.
A natureza humana está ferida pelo pecado original.
Somos frágeis.
Inconstantes.
Facilmente nos deixamos levar pelo desânimo, pelas paixões desordenadas e pelas distrações do mundo.
Por isso, a perseverança é, antes de tudo, um dom da graça.
E essa graça chega até nós, de maneira privilegiada, através dos sacramentos.
Os sacramentos não são simples símbolos.
São meios eficazes instituídos por Cristo para comunicar a Sua própria vida divina.
Cada sacramento fortalece a alma para o combate espiritual.
A Santa Eucaristia alimenta a vida sobrenatural.
É o próprio Cristo que se entrega como alimento.
Quem recebe a Comunhão com fé e em estado de graça não recebe apenas um auxílio espiritual.
Recebe o próprio Senhor.
Jesus declarou:
“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim, e eu nele.”
(João 6,56)
Observemos bem a palavra utilizada pelo próprio Cristo:
permanece.
Mais uma vez aparece a ideia central da perseverança.
A Eucaristia não serve apenas para alimentar um momento de fervor.
Serve para permanecer unido a Cristo.
Da mesma forma, o sacramento da Confissão torna possível recomeçar continuamente.
Quantas vezes o demônio tenta convencer uma pessoa de que caiu demasiadas vezes?
Quantas vezes sopra ao coração:
“Já não tens remédio.”
“Deus já não te quer.”
“Sempre cometerás o mesmo pecado.”
Tudo isso é mentira.
Enquanto existe arrependimento sincero, existe esperança.
O confessionário é uma das maiores derrotas do inferno.
Ali, aquilo que Satanás julgava ser uma vitória transforma-se numa ocasião para uma graça ainda maior.
É por isso que tantos santos recomendavam a confissão frequente.
Não porque fossem grandes pecadores.
Mas porque desejavam perseverar até ao fim.
Também a Confirmação, ao fortalecer-nos com os dons do Espírito Santo, prepara-nos para testemunhar Cristo com firmeza.
O Matrimónio concede aos esposos a graça própria para permanecerem fiéis na sua vocação.
A Ordem Sacerdotal fortalece o sacerdote para perseverar no seu ministério.
A Unção dos Enfermos oferece força especial para enfrentar a doença e o momento derradeiro da vida.
Toda a economia sacramental da Igreja está orientada para conduzir o homem à perseverança final.
A oração constante: o alimento diário da perseverança
Se os sacramentos são as grandes fontes da graça, a oração é a respiração da alma.
Ninguém pode viver espiritualmente sem rezar.
Nosso Senhor insistiu repetidamente nesta necessidade.
Disse aos discípulos:
“Vigiai e orai, para não cairdes em tentação.”
(Mateus 26,41)
Reparemos que Jesus não diz apenas:
“Orai.”
Diz:
“Vigiai e orai.”
Porque conhece a fraqueza do coração humano.
Quem deixa de rezar acaba, mais cedo ou mais tarde, por perder a sensibilidade espiritual.
O pecado não começa normalmente com uma grande queda.
Começa com pequenas negligências.
Uma oração omitida.
Uma Missa vivida com distração.
Uma confissão adiada.
Uma leitura espiritual abandonada.
Uma pequena tibieza consentida.
Pouco a pouco, o coração vai arrefecendo.
É precisamente isso que o demônio procura.
Por outro lado, quem persevera na oração quotidiana fortalece-se interiormente.
Mesmo quando não sente nada.
Mesmo quando as distrações parecem intermináveis.
Mesmo quando tudo parece árido.
Porque Deus não mede a oração apenas pelos sentimentos.
Mede-a pelo amor.
E o amor manifesta-se sobretudo na fidelidade.
A Santíssima Virgem Maria: modelo perfeito de perseverança
Se existe uma criatura que derrotou continuamente o demônio pela sua perseverança, essa criatura é a Santíssima Virgem Maria.
Desde o primeiro instante da sua existência, viveu totalmente voltada para Deus.
Mas a sua grandeza não consistiu apenas na Imaculada Conceição.
Consistiu na fidelidade constante ao longo de toda a sua vida.
Maria pronunciou o seu “Fiat” na Anunciação:
“Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
(Lucas 1,38)
Mas esse “sim” não terminou naquele momento.
Teve de repeti-lo todos os dias.
Quando deu à luz numa gruta.
Quando fugiu para o Egito.
Quando viveu trinta anos de vida escondida em Nazaré.
Quando perdeu Jesus durante três dias.
Quando O viu rejeitado pelos chefes religiosos.
Quando O contemplou carregando a Cruz.
Quando permaneceu de pé junto ao Calvário.
Quando recebeu nos braços o corpo sem vida do seu Filho.
Em cada uma dessas circunstâncias, Maria permaneceu fiel.
Nunca abandonou Deus.
Nunca perdeu a esperança.
Nunca deixou de acreditar.
Foi precisamente essa perseverança silenciosa que esmagou a cabeça da antiga serpente.
Por isso, a tradição cristã sempre apresentou Maria como modelo de todos aqueles que desejam permanecer fiéis até ao fim.
Quem se confia verdadeiramente à proteção da Santíssima Virgem encontra nela uma Mãe que conduz constantemente a Cristo.
E quem caminha com Maria aprende também a perseverar.
Aplicações pastorais para a nossa vida
Toda esta reflexão seria inútil se permanecesse apenas no plano teórico.
A teologia existe para transformar a vida.
Por isso, vale a pena perguntar:
Como viver concretamente esta perseverança?
Em primeiro lugar, deixando de nos comparar constantemente com os outros.
Talvez nunca tenhas uma inteligência extraordinária.
Talvez nunca escrevas um grande livro.
Talvez nunca pregues diante de milhares de pessoas.
Talvez nunca realizes obras que o mundo considere grandiosas.
Mas podes tornar-te profundamente santo.
Deus nunca nos pedirá contas dos talentos que não recebemos.
Pedir-nos-á contas da fidelidade aos talentos que realmente nos confiou.
Em segundo lugar, é importante compreender que a santidade não consiste em nunca cair.
Consiste em nunca deixar de voltar para Deus.
A diferença entre um santo e um pecador obstinado não é a ausência de quedas.
É a disposição para recomeçar sempre.
Em terceiro lugar, devemos proteger cuidadosamente a nossa vida espiritual diária.
Não abandones a oração porque hoje te distraíste.
Não deixes o Rosário porque uma semana foste inconstante.
Não deixes de confessar-te porque voltaste a cair no mesmo pecado.
Não abandones a Missa por causa da aridez espiritual.
Não deixes de praticar a caridade porque nem sempre recebes gratidão.
Cada pequeno ato de fidelidade fortalece a alma.
Cada pequeno sacrifício oferecido por amor une-nos mais profundamente a Cristo.
E cada vitória escondida aproxima-nos da santidade.
Continua.
Mesmo lentamente.
Mesmo com dificuldades.
Mesmo sem consolações.
Porque Deus nunca abandona quem persevera sinceramente na Sua graça.
Um alerta para o nosso tempo
Vivemos numa sociedade que confunde frequentemente sucesso com santidade.
As redes sociais ensinam-nos a procurar visibilidade.
A cultura atual valoriza aquilo que chama a atenção.
O mundo mede o valor das pessoas pelo número de seguidores, pela influência, pelo reconhecimento público ou pela capacidade de produzir impacto imediato.
Esse modo de pensar pode infiltrar-se também na vida espiritual.
Sem nos apercebermos, começamos a acreditar que uma vida cristã fecunda é aquela que realiza grandes obras visíveis.
No entanto, Deus continua a olhar para aquilo que sempre olhou:
o coração.
Quando o profeta Samuel procurava o futuro rei de Israel entre os filhos de Jessé, Deus recordou-lhe uma verdade que permanece válida para todos os tempos:
“O homem vê as aparências, mas o Senhor olha para o coração.”
(1 Samuel 16,7)
É precisamente aí que reside a grande diferença entre a lógica de Deus e a lógica do mundo.
Enquanto o mundo procura o extraordinário, Deus procura a fidelidade.
Enquanto o mundo aplaude o sucesso imediato, Deus recompensa a perseverança escondida.
Talvez o santo que mais sustenta hoje a Igreja seja uma mãe que reza todas as noites pelos seus filhos.
Talvez seja um pai de família que trabalha honestamente para sustentar a casa.
Talvez seja um sacerdote desconhecido que celebra diariamente a Santa Missa com profunda devoção.
Talvez seja uma religiosa enclausurada que oferece silenciosamente a sua vida pela salvação das almas.
Talvez seja um idoso que une os seus sofrimentos aos de Cristo.
Talvez seja um jovem que luta diariamente para conservar a pureza num mundo que ridiculariza a castidade.
Essas pessoas dificilmente aparecerão nas notícias.
Provavelmente nunca serão famosas.
Mas o Céu conhece os seus nomes.
E o inferno teme a sua perseverança.
Porque cada alma fiel torna presente a vitória de Cristo sobre o pecado.
A grande vitória dos pequenos
Quando contemplamos o Evangelho, percebemos que Jesus não escolheu os homens mais influentes da sua época.
Não procurou os grandes filósofos de Atenas.
Nem os oradores de Roma.
Nem os poderosos de Jerusalém.
Chamou pescadores.
Publicanos.
Homens simples.
Pessoas comuns.
Humanamente falando, ninguém imaginaria que aquele pequeno grupo mudaria o curso da história.
Mas Cristo não procurava o brilho humano.
Procurava corações disponíveis.
Homens capazes de permanecer ao Seu lado.
Depois de Pentecostes, aqueles homens transformaram o mundo.
Não porque fossem extraordinários por si mesmos.
Mas porque permitiram que a graça de Deus atuasse neles.
A história da Igreja repete continuamente esta mesma lógica.
São Bento transformou a Europa começando apenas com uma vida de oração.
São Francisco de Assis renovou a Igreja vivendo radicalmente o Evangelho.
Santa Teresinha do Menino Jesus tornou-se Padroeira das Missões sem nunca sair do seu mosteiro.
São Pio de Pietrelcina converteu milhares de almas sobretudo através da confissão e da oração.
Nenhum deles procurou fama.
Procuraram apenas permanecer fiéis.
É precisamente essa fidelidade que derrota o demônio.
Porque Satanás sabe que uma alma perseverante acaba inevitavelmente por dar muito fruto.
O demônio teme a fidelidade mais do que o talento
Há uma verdade espiritual profundamente consoladora:
o demônio não teme apenas os grandes pregadores.
Não teme apenas os grandes teólogos.
Não teme apenas os santos que realizaram milagres.
Teme sobretudo a alma que nunca deixa de se levantar.
Teme aquele que continua a rezar quando ninguém o vê.
Teme quem persevera no Rosário durante décadas.
Teme quem frequenta regularmente a Confissão.
Teme quem recebe a Eucaristia com amor.
Teme quem continua a confiar em Deus depois de cada fracasso.
Teme quem permanece humilde.
Porque sabe que essa alma está a tornar-se cada vez mais semelhante a Cristo.
E quanto mais uma alma se configura com Cristo, menos poder o maligno tem sobre ela.
O combate espiritual não é vencido por um momento isolado de heroísmo.
É vencido por uma vida inteira de fidelidade.
É por isso que tantos santos insistiam na importância da perseverança final.
Não basta começar.
É preciso terminar.
Não basta correr durante algum tempo.
É preciso chegar ao fim da corrida.
Como escreveu São Paulo pouco antes do seu martírio:
“Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.”
(2 Timóteo 4,7)
Que extraordinário resumo de toda uma vida!
São Paulo não se gloria da sua inteligência.
Nem dos seus milagres.
Nem das suas viagens missionárias.
Gloria-se de uma única coisa:
guardou a fé.
Permaneceu.
Perseverou.
Conclusão: a fidelidade quotidiana vence onde o brilho passageiro fracassa
O mundo celebra o sucesso imediato, a inteligência deslumbrante e o reconhecimento público.
Deus, porém, contempla com especial amor aquele que permanece fiel nas pequenas coisas.
Toda a história da salvação demonstra que o Senhor edifica o Seu Reino através de pessoas que, embora frágeis, se deixam sustentar pela Sua graça e nunca abandonam o combate espiritual.
A perseverança é um dom que devemos pedir todos os dias.
Nenhum cristão pode considerá-la garantida.
Ela nasce da humildade, alimenta-se da oração constante, fortalece-se através dos sacramentos e cresce na confiança inabalável na misericórdia divina.
Como ensina São Paulo:
“Tudo posso naquele que me fortalece.”
(Filipenses 4,13)
Não é a força do homem que vence o maligno.
É a força de Cristo que atua numa alma que nunca deixa de voltar para Ele.
Por isso, se alguma vez te sentires pequeno, pouco brilhante ou incapaz de realizar grandes obras, não desanimes.
Talvez seja precisamente aí que Deus tenha preparado o caminho da tua santidade.
O Céu não se conquista com momentos passageiros de entusiasmo.
Conquista-se através de uma fidelidade silenciosa que, sustentada pela graça, persevera até ao fim.
Cada Rosário rezado com amor.
Cada Comunhão recebida com fé.
Cada Confissão humilde.
Cada ato escondido de caridade.
Cada sofrimento oferecido.
Cada novo começo depois de uma queda.
Tudo isso são verdadeiras vitórias de Cristo.
E são essas vitórias, repetidas dia após dia, que mais fazem tremer o inimigo das almas.
Porque o demônio conhece uma verdade que os santos experimentaram ao longo de toda a história da Igreja:
uma alma perseverante, ainda que desconhecida pelo mundo, pode tornar-se um instrumento imenso da glória de Deus e uma força irresistível para a expansão do Seu Reino.
No fim da vida, Deus não nos perguntará quantos aplausos recebemos, quantos seguidores conquistámos ou quantas pessoas admiraram os nossos talentos.
Perguntar-nos-á se permanecemos fiéis.
Se amámos.
Se confiámos.
Se voltámos a levantar-nos depois de cada queda.
Se perseverámos até ao fim.
Porque é nessa perseverança humilde, silenciosa e constante que floresce a verdadeira santidade.
E é precisamente essa santidade, escondida aos olhos do mundo mas luminosa aos olhos de Deus, que derrota o demônio e prepara a alma para a alegria eterna da visão beatífica.