Onde ocorreu a Ascensão de Jesus Cristo ao Céu? O mistério entre Jerusalém e a Galileia que muitos não compreendem

A Ascensão de Nosso Senhor Jesus Cristo ao Céu é um dos acontecimentos mais solenes, gloriosos e profundos de toda a história da salvação. Contudo, também é um dos episódios evangélicos que mais suscitam perguntas entre muitos fiéis.

Onde exatamente aconteceu?
Foi em Jerusalém ou na Galileia?
Por que algumas passagens insistem que os discípulos não deviam afastar-se de Jerusalém, enquanto outras mostram Cristo convocando-os para a Galileia?
Uma fica ao norte e a outra ao sul.
Existe contradição?
Ou estamos diante de um mistério muito mais rico do que parece?

A resposta, longe de enfraquecer a fé, revela a extraordinária coerência dos Evangelhos e a profundidade teológica do plano de Deus.

Porque a Ascensão não é simplesmente “Jesus subindo ao Céu”. É a coroação da Redenção, o triunfo definitivo de Cristo sobre a morte, a abertura do Céu para a humanidade e o início da missão universal da Igreja.


A Ascensão: o último ato visível de Cristo na terra

Antes de entrar na questão geográfica, é necessário compreender o que realmente significa a Ascensão.

Depois de ressuscitar gloriosamente, Jesus Cristo permaneceu quarenta dias aparecendo aos seus discípulos:

“Aos quais também, depois de ter padecido, se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas concernentes ao Reino de Deus.”
— Atos 1,3

Durante esses quarenta dias:

  • confirmou a realidade da Ressurreição,
  • instruiu os Apóstolos,
  • fortaleceu a fé deles,
  • estabeleceu definitivamente a missão evangelizadora,
  • e preparou a Igreja nascente para receber o Espírito Santo.

A Ascensão foi o momento em que Cristo, com a sua humanidade glorificada, entrou solenemente na glória celeste.

Ele não abandonou a humanidade.
Levou-a consigo ao Pai.

Como ensina o Catecismo:

“A Ascensão de Cristo marca a entrada definitiva da humanidade de Jesus no domínio celeste de Deus.”

Isso muda completamente a história humana.
Pela primeira vez, um homem — verdadeiro homem e verdadeiro Deus — entra glorificado no Céu.


Onde ocorreu a Ascensão?

A tradição cristã, a Escritura e a Igreja apontaram historicamente para um lugar concreto:

O Monte das Oliveiras, perto de Betânia, a leste de Jerusalém

O Evangelho de São Lucas afirma:

“Então os levou para fora, até perto de Betânia; e, levantando as mãos, os abençoou. E aconteceu que, enquanto os abençoava, separou-se deles e foi elevado ao Céu.”
— Lucas 24,50-51

E nos Atos dos Apóstolos lemos:

“Então voltaram para Jerusalém, do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém.”
— Atos 1,12

Portanto, o lugar tradicional da Ascensão é:

  • o Monte das Oliveiras,
  • mais precisamente nas proximidades de Betânia,
  • muito perto de Jerusalém.

Por que este lugar é tão importante?

Não é coincidência.

O Monte das Oliveiras está profundamente ligado à Paixão e à glória de Cristo.

Ali:

  • Jesus chorou sobre Jerusalém,
  • ensinou sobre o fim dos tempos,
  • passou noites em oração,
  • sofreu a agonia no Getsêmani,
  • foi traído,
  • e finalmente ascendeu gloriosamente ao Pai.

O mesmo monte que viu a sua humilhação contemplou depois a sua exaltação.

Aqui aparece uma das grandes leis espirituais do cristianismo:

Deus transforma o lugar do sofrimento em lugar de glória.


Então… por que Jesus mandou os discípulos para a Galileia?

Aqui surge a grande dificuldade.

O Evangelho de São Mateus relata:

“Mas, depois da minha ressurreição, irei adiante de vós para a Galileia.”
— Mateus 26,32

E mais adiante:

“Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado.”
— Mateus 28,16

Além disso, o anjo diz às mulheres:

“Ide depressa e dizei aos seus discípulos que Ele ressuscitou dos mortos e vai adiante de vós para a Galileia; lá o vereis.”
— Mateus 28,7

Então, como isso se encaixa com a Ascensão em Jerusalém?

A resposta está em compreender que:

  • as aparições de Cristo ressuscitado ocorreram em diferentes lugares,
  • e os Evangelhos não pretendem narrar cada episódio de forma cronológica e exaustiva.

Galileia e Jerusalém: dois polos espirituais do cristianismo

Há aqui uma enorme profundidade teológica.

A Galileia: o lugar do começo

A Galileia foi:

  • o lugar onde Jesus chamou os Apóstolos,
  • onde começou a sua pregação,
  • onde realizou muitos dos seus milagres,
  • onde vivia a maioria dos discípulos.

A Galileia representa:

  • o início da missão,
  • a evangelização dos simples,
  • o chamado,
  • o primeiro amor.

Por isso Cristo quis reencontrar os seus discípulos ali.

É como se dissesse:

“Voltemos ao lugar onde tudo começou.”

Muitos santos viram aqui um ensinamento espiritual:
quando a alma esfria, deve voltar à sua “Galileia”, isto é, ao lugar onde verdadeiramente encontrou Cristo.


Jerusalém: o lugar do cumprimento

Jerusalém, por outro lado, representa:

  • a consumação do sacrifício,
  • a Paixão,
  • a Morte e Ressurreição,
  • o nascimento visível da Igreja em Pentecostes.

Cristo devia concluir ali a obra da Redenção.

Por isso diz aos Apóstolos:

“Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a promessa do Pai.”
— Atos 1,4

Por quê?

Porque o Espírito Santo desceria em Jerusalém.

A Igreja devia nascer ali.

A Nova Aliança devia manifestar-se precisamente no coração religioso de Israel.


Houve contradição entre a Galileia e Jerusalém?

Absolutamente não.

O que aconteceu foi o seguinte:

  1. Cristo ressuscitou em Jerusalém.
  2. Apareceu várias vezes em Jerusalém e arredores.
  3. Os discípulos também foram para a Galileia, onde Cristo lhes apareceu.
  4. Mais tarde regressaram a Jerusalém.
  5. Ali permaneceram esperando Pentecostes.
  6. Finalmente, a Ascensão ocorreu no Monte das Oliveiras.

Não existe incompatibilidade.

Os Evangelhos destacam episódios diferentes conforme o objetivo teológico de cada autor sagrado.


Por que São Mateus enfatiza a Galileia?

São Mateus possui uma intenção profundamente missionária.

A Galileia era conhecida como:

“Galileia dos gentios.”
— Mateus 4,15

Era uma região culturalmente misturada e menos rígida do que Jerusalém.

Ao enfatizar a Galileia, Mateus sugere que o Evangelho será anunciado a todas as nações.

E precisamente ali Cristo pronuncia o grande mandato missionário:

“Ide, pois, e fazei discípulos de todas as nações.”
— Mateus 28,19

A Galileia simboliza a universalidade da Igreja.


Por que São Lucas concentra tudo em Jerusalém?

Porque São Lucas quer mostrar a continuidade entre:

  • o Antigo Testamento,
  • o Templo,
  • Israel,
  • e a Igreja nascente.

Em Lucas:

  • tudo converge para Jerusalém,
  • e de Jerusalém o Evangelho expande-se para o mundo.

Essa será precisamente a estrutura dos Atos dos Apóstolos:

  • Jerusalém,
  • Judeia,
  • Samaria,
  • e até os confins da terra.

A Ascensão não foi uma “despedida”

Muitos imaginam a Ascensão como se Jesus simplesmente “fosse embora”.

Mas, teologicamente, acontece exatamente o contrário.

Cristo:

  • não abandona a Igreja,
  • mas inaugura uma nova forma de presença.

Antes, Ele estava visivelmente limitado pelo espaço e pelo tempo.
Agora está presente:

  • na Eucaristia,
  • nos sacramentos,
  • na Igreja,
  • na graça,
  • e espiritualmente em toda parte.

Por isso diz:

“E eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.”
— Mateus 28,20

A Ascensão não significa ausência.
Significa realeza.


O significado cósmico da Ascensão

Aqui entramos num dos aspectos mais esquecidos da teologia moderna.

Cristo ascende:

  • como Rei,
  • como Sumo Sacerdote,
  • como Novo Adão,
  • como vencedor de Satanás,
  • e como Cabeça da humanidade redimida.

Os Padres da Igreja ensinavam que a Ascensão é a entronização do Rei do Universo.

O Salmo 46 parece profetizá-lo:

“Deus sobe entre aclamações; o Senhor, ao som de trombetas.”
— Salmo 46,6

A humanidade de Cristo entra glorificada no Céu.

E isso significa que a nossa natureza humana já possui um lugar junto do Pai.

Que esperança imensa!


A nuvem: um detalhe cheio de teologia

Os Atos dizem:

“Uma nuvem o encobriu aos seus olhos.”
— Atos 1,9

Não se trata simplesmente de uma nuvem meteorológica.

Na Bíblia, a nuvem simboliza:

  • a presença divina,
  • a glória de Deus,
  • a Shekinah.

A nuvem:

  • guiava Israel no deserto,
  • cobria o Sinai,
  • enchia o Templo,
  • apareceu na Transfiguração.

Agora recebe o Filho glorificado.

É uma linguagem profundamente bíblica.


Onde está hoje esse lugar da Ascensão?

A tradição cristã venera há séculos o santuário da Ascensão no Monte das Oliveiras.

Ali existe uma pequena capela construída sobre o lugar tradicional.

Capela da Ascensão

Segundo uma antiquíssima tradição, venerava-se ali até mesmo uma suposta pegada de Cristo na rocha.

Embora isso não possa ser provado com absoluta certeza arqueológica, o valor espiritual do lugar é imenso e ele é venerado desde os primeiros séculos.


Aplicações espirituais para o cristão atual

A Ascensão não é um acontecimento distante do passado.

Ela fala diretamente ao homem moderno.

Vivemos numa época:

  • obcecada pelo material,
  • presa ao imediato,
  • dominada pela ansiedade,
  • e muitas vezes sem horizonte eterno.

A Ascensão recorda-nos que:

  • a nossa verdadeira pátria é o Céu,
  • a vida terrena não é o fim,
  • o sofrimento pode ser transformado em glória,
  • e Cristo reina mesmo quando o mundo parece caótico.

São Paulo escreve:

“Buscai as coisas do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus.”
— Colossenses 3,1

O cristão vive na terra…
mas com o coração voltado para o Céu.


A grande lição de Jerusalém e da Galileia

Finalmente, o aparente “problema” entre Jerusalém e Galileia acaba revelando uma lição preciosa.

O cristão precisa das duas dimensões:

Precisa da Galileia

O lugar do primeiro encontro com Cristo.
A conversão.
O chamado.
A simplicidade do Evangelho.

Mas também precisa de Jerusalém

A Cruz.
A perseverança.
A espera do Espírito Santo.
A maturidade espiritual.
A missão.

Muitos querem uma fé de Galileia sem passar por Jerusalém.

Querem os milagres… mas não a Cruz.
A emoção… mas não a fidelidade.
A inspiração… mas não o sacrifício.

No entanto, Cristo conduz os seus discípulos da Galileia para Jerusalém… e de Jerusalém para o Céu.

Esse também é o nosso caminho.


Conclusão: a Ascensão abre o caminho do Céu

A Ascensão ocorreu realmente perto de Jerusalém, no Monte das Oliveiras, depois de Cristo também ter aparecido na Galileia durante os quarenta dias posteriores à Ressurreição.

Não existe contradição entre os Evangelhos.
Existe complementaridade.

A Galileia representa o início da missão.
Jerusalém representa o seu cumprimento.
E a Ascensão representa a glorificação definitiva de Cristo e a abertura do Céu para a humanidade.

Por isso, quando contemplamos a Ascensão, não estamos simplesmente olhando para um acontecimento histórico.

Estamos contemplando o nosso destino.

Cristo ascende para nos preparar um lugar.

Como Ele próprio prometeu:

“Vou preparar-vos um lugar.”
— João 14,2

E essa promessa continua sendo hoje a maior esperança do cristão.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

Veja também

É pecado faltar à Missa por cansaço ou trabalho?

Uma reflexão católica sobre o descanso, a obrigação dominical e a dignidade humana à luz …

error: catholicus.eu