A grande crise espiritual do nosso tempo e o urgente chamado para voltar a Deus
Vivemos numa época paradoxal. Nunca antes a humanidade teve acesso a tanta informação, tanta tecnologia, tanto conforto material e tantas possibilidades de comunicação. No entanto, ao mesmo tempo, nunca existiu um sentimento tão difundido de vazio, ansiedade, solidão e perda de sentido.
O mais surpreendente é que esta realidade não afeta apenas aqueles que se declaram ateus ou agnósticos. Ela também alcança muitos católicos batizados. De fato, um dos fenómenos mais preocupantes que a Igreja enfrenta atualmente é que inúmeros católicos continuam a identificar-se como crentes enquanto vivem, na prática, como se Deus não existisse.
Vão à Missa ocasionalmente. Conservam certas tradições religiosas. Celebram batismos, casamentos e funerais católicos. Podem até rezar de vez em quando. Contudo, quando chega o momento de tomar decisões importantes, organizar prioridades, administrar o tempo, enfrentar o sofrimento ou discernir o sentido da vida, Deus parece estar completamente ausente.
Não estamos necessariamente a falar de uma apostasia formal nem de uma rejeição explícita da fé. Estamos a falar de algo mais subtil e, precisamente por isso, mais perigoso: uma fé reduzida a um rótulo cultural que já não transforma a existência.
Esta é uma das doenças espirituais mais profundas do nosso tempo.
O diagnóstico da Igreja: o ateísmo prático
A teologia católica distingue entre ateísmo teórico e ateísmo prático.
O ateu teórico nega explicitamente a existência de Deus.
O ateu prático, por outro lado, pode afirmar que acredita em Deus e, ainda assim, organizar a sua vida como se Deus não existisse.
Esta segunda forma é particularmente grave porque muitas vezes passa despercebida.
Muitos católicos batizados jamais diriam:
«Não acredito em Deus.»
Mas as suas vidas parecem dizer:
«Deus não tem qualquer influência real sobre as minhas decisões.»
O problema não é apenas intelectual.
É existencial.
É possível acreditar com a mente enquanto se vive com um coração completamente afastado de Deus.
Por isso o Senhor adverte:
«Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim» (Mateus 15,8).
A fé autêntica não consiste apenas em aceitar determinadas verdades doutrinais. Consiste em permitir que essas verdades transformem toda a vida.
Uma crise anunciada
Muito antes da secularização moderna, a Sagrada Escritura já descrevia esta tentação.
O povo de Israel experimentou repetidamente períodos de prosperidade que acabaram por provocar uma perigosa amnésia espiritual.
Quando as dificuldades desapareciam, o povo começava a esquecer-se de Deus.
Moisés advertiu solenemente:
«Guarda-te de te esqueceres do Senhor teu Deus» (Deuteronómio 8,11).
E acrescentou:
«Não suceda que, depois de comerdes e ficardes saciados, depois de construirdes belas casas e nelas habitardes… o vosso coração se ensoberbeça e vos esqueçais do Senhor vosso Deus» (Deuteronómio 8,12-14).
Estas palavras parecem ter sido escritas para o nosso tempo.
As sociedades ocidentais alcançaram níveis de bem-estar material inimagináveis para as gerações anteriores.
No entanto, muitas pessoas passaram a acreditar, consciente ou inconscientemente, que já não precisam de Deus.
A tecnologia parece substituir a Providência.
A medicina parece substituir a esperança.
A economia parece substituir a confiança.
O entretenimento parece substituir a alegria.
E as redes sociais parecem substituir a comunhão humana.
Mas nenhuma destas coisas pode ocupar o lugar de Deus.
O secularismo: a religião invisível do nosso tempo
Muitas pessoas pensam que o principal inimigo da fé é o ateísmo militante.
Na realidade, o maior desafio atual é o secularismo.
O que é o secularismo?
É uma visão do mundo na qual Deus é considerado irrelevante para a vida quotidiana.
A sua existência não é necessariamente negada.
Ele é simplesmente excluído das decisões reais.
Deus é relegado à esfera privada.
A religião torna-se um passatempo pessoal.
A fé deixa de ser o centro da existência.
Nesta mentalidade, Deus pode estar presente durante uma hora ao domingo, mas ausente durante as outras cento e sessenta e sete horas da semana.
Este fenómeno penetrou até mesmo em muitos ambientes católicos.
Quando Deus deixa de ser o centro
A grande questão espiritual do nosso tempo não é:
«Acreditas em Deus?»
A verdadeira questão é:
«Deus é realmente o centro da tua vida?»
Porque é possível acreditar em Deus e, ainda assim, viver centrado em si mesmo.
É possível rezar e continuar escravo do ego.
É possível participar na Missa e continuar a colocar o dinheiro, o prazer, o sucesso profissional ou a aprovação social acima de Deus.
O Primeiro Mandamento continua a ser o fundamento de toda a vida espiritual:
«Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente» (Mateus 22,37).
Reparemos que Cristo não diz uma parte do teu coração.
Ele diz todo.
A conversão autêntica começa quando Deus deixa de ocupar apenas um canto da nossa vida e volta a ocupar o trono que Lhe pertence.
As causas desta indiferença espiritual
1. O materialismo moderno
O homem contemporâneo está rodeado de estímulos constantes.
Vivemos obcecados por produzir, consumir, comprar e acumular.
O problema não está em possuir bens materiais.
A Igreja nunca condenou a prosperidade legítima.
O problema surge quando os bens materiais ocupam o lugar de Deus.
Jesus foi extraordinariamente claro:
«Não podeis servir a Deus e ao dinheiro» (Mateus 6,24).
A idolatria moderna raramente assume a forma de estátuas pagãs.
Hoje assume a forma de contas bancárias, carreiras profissionais, prestígio social e conforto pessoal.
2. A ditadura da imediatidade
A vida espiritual exige paciência.
A cultura moderna exige resultados imediatos.
Queremos respostas imediatas.
Gratificação imediata.
Sucesso imediato.
Mas Deus frequentemente age lentamente.
A oração exige perseverança.
A santificação exige anos.
A maturidade espiritual exige uma vida inteira.
Muitos desistem porque esperam que a sua relação com Deus funcione como uma aplicação móvel.
3. O ruído constante
Nunca foi tão difícil permanecer em silêncio.
Telemóveis.
Redes sociais.
Vídeos.
Notícias.
Mensagens.
Notificações.
A alma necessita de espaços de silêncio para ouvir Deus.
Sem silêncio interior, a voz divina é abafada por milhares de vozes humanas.
Não é por acaso que Deus falou ao profeta Elias não no terramoto nem no fogo, mas no «murmúrio de uma brisa suave» (1 Reis 19,12).
4. A perda do sentido do sobrenatural
Uma das tragédias mais graves do nosso tempo é que muitos católicos perderam a consciência da eternidade.
Pensa-se pouco no Céu.
Pensa-se pouco no juízo.
Pensa-se pouco na salvação.
Pensa-se pouco na santidade.
Tudo é reduzido ao aqui e agora.
Mas o cristão vive orientado para uma realidade infinitamente maior.
Como recorda São Paulo:
«A nossa pátria está nos céus» (Filipenses 3,20).
As consequências espirituais
Quando Deus desaparece do centro da vida, algo inevitavelmente ocupa o Seu lugar.
E seja o que for, nunca conseguirá satisfazer plenamente o coração humano.
Santo Agostinho expressou esta verdade numa das frases mais célebres da história cristã:
«Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não repousar em Ti.»
A crise de sentido, a ansiedade existencial, o desespero e o vazio espiritual que caracterizam o nosso tempo são, em grande medida, consequências da tentativa de construir uma civilização sem Deus.
O homem pode ignorar Deus.
Mas não pode eliminar a necessidade de Deus inscrita na sua própria natureza.
Como voltar a viver com Deus no centro?
A resposta não consiste em grandes teorias.
Consiste numa conversão concreta.
Recuperar a oração diária
Não existe vida cristã sem oração.
Não se trata apenas de rezar quando surgem problemas.
A oração é a respiração da alma.
Um católico que não reza acabará inevitavelmente por afastar-se de Deus.
Voltar aos sacramentos
A confissão frequente e a receção digna da Sagrada Eucaristia são pilares essenciais.
Cristo não nos deixou apenas ensinamentos.
Deixou-nos sacramentos.
E é precisamente através deles que comunica a Sua graça.
Redescobrir a leitura espiritual
Muitos católicos consomem horas de conteúdo digital todos os dias, mas dedicam apenas alguns minutos às Escrituras.
A Palavra de Deus transforma a mente e o coração.
Santificar a vida quotidiana
A santidade não está reservada aos mosteiros e conventos.
Deus pode ser encontrado no trabalho, na família, nas tarefas domésticas e nas responsabilidades diárias.
O verdadeiro desafio consiste em viver cada momento na presença de Deus.
Recuperar o sentido da eternidade
Recordar que esta vida é uma peregrinação muda completamente a nossa perspetiva.
As preocupações temporais encontram a sua justa medida quando contemplamos as realidades eternas.
O grande desafio da nova evangelização
Hoje a Igreja não enfrenta apenas aqueles que nunca conheceram Cristo.
Ela também deve reevangelizar milhões de batizados que esqueceram como viver de acordo com a fé que professam.
A nova evangelização começa em cada um de nós.
Antes de perguntarmos por que razão o mundo vive afastado de Deus, devemos perguntar-nos:
Deus é realmente o centro da minha vida?
Molda as minhas decisões?
Influencia as minhas prioridades?
Transforma as minhas relações?
Dirige os meus projetos?
Porque a fé autêntica não consiste apenas em acreditar que Deus existe.
Até os demónios acreditam nisso.
Como escreve São Tiago:
«Tu acreditas que há um só Deus? Fazes bem. Também os demónios acreditam e tremem» (Tiago 2,19).
A verdadeira fé consiste em confiar em Deus, obedecer-Lhe, amá-Lo e viver para Ele.
Conclusão: voltar ao Deus vivo
Talvez a grande tragédia espiritual do nosso tempo não seja o ateísmo declarado.
Talvez seja algo muito mais silencioso: cristãos batizados que aprenderam a viver sem realmente contar com Deus.
Contudo, há sempre esperança.
Cristo continua a chamar.
Continua a procurar.
Continua à espera.
Continua a bater à porta do coração humano.
A questão decisiva não é saber se Deus está presente.
Deus está sempre presente.
A questão é saber se estamos dispostos a colocá-Lo novamente no lugar que Lhe pertence.
Porque quando Deus regressa ao centro, tudo encontra a sua verdadeira ordem.
A fé deixa de ser um simples hábito.
A religião deixa de ser uma tradição vazia.
E a vida inteira adquire um significado novo, profundo e eterno.
Num mundo que vive como se Deus não existisse, os santos são precisamente aqueles que vivem como se Deus fosse real.
Porque sabem que Ele é.