Segunda-feira , Junho 1 2026

Por que Deus permite o mal e a injustiça? Um olhar católico sobre o mistério que mais inquieta o coração humano

Introdução: a pergunta que todos nós já fizemos

Poucas perguntas acompanharam a humanidade tanto quanto esta: se Deus é bom, todo-poderoso e nos ama, por que permite o mal e a injustiça?

A pergunta surge espontaneamente quando contemplamos uma guerra, uma doença incurável, o sofrimento de uma criança inocente, uma tragédia familiar ou as inúmeras injustiças que vemos todos os dias no mundo. Ela também aparece nos momentos mais pessoais: quando uma oração parece não ser atendida, quando uma perda parte o nosso coração ou quando experimentamos a dor da traição, da pobreza ou do abandono.

Não se trata de uma questão nova. Desde os tempos mais antigos, filósofos, teólogos, santos e pessoas simples procuraram compreender este mistério. Na verdade, grande parte da história da teologia cristã pode ser entendida como uma busca para responder a esta pergunta sem diminuir nem a bondade de Deus nem a realidade do sofrimento humano.

A Igreja Católica não oferece uma resposta simplista nem uma fórmula mágica que elimine a dor. O que ela oferece é algo mais profundo: uma compreensão do mal à luz da Revelação, da Cruz de Cristo e da esperança eterna.

Este artigo procura explorar rigorosamente este mistério a partir de uma perspetiva teológica, bíblica, filosófica e pastoral, ajudando-nos a descobrir como Deus continua a agir mesmo no meio do sofrimento.


O problema do mal: uma das maiores objeções à fé

Ao longo da história, muitos argumentaram que a existência do mal parece incompatível com a existência de Deus.

A objeção costuma ser formulada da seguinte forma:

  • Se Deus é bom, quer eliminar o mal.
  • Se Deus é todo-poderoso, pode eliminar o mal.
  • No entanto, o mal existe.
  • Portanto, Deus não existe ou não é bom.

À primeira vista, este parece ser um argumento poderoso. Contudo, a tradição cristã mostrou que ele se baseia numa compreensão incompleta tanto de Deus quanto da natureza do mal.

A pergunta correta não é simplesmente:

«Por que existe o mal?»

Mas sim:

«Por que Deus permite temporariamente a existência do mal dentro de um plano de salvação maior?»

A diferença é fundamental.

A fé cristã nunca negou a existência do sofrimento. Pelo contrário. Leva-o extremamente a sério.

A Bíblia está cheia de lágrimas, perseguições, doenças, guerras e tragédias humanas. A diferença é que a fé afirma que o mal não tem a última palavra.


O que é realmente o mal?

Antes de perguntarmos por que Deus o permite, devemos compreender o que ele é.

São Tomás de Aquino, seguindo Santo Agostinho, ensinou que o mal não é uma realidade criada por Deus.

O mal é uma privação de um bem devido.

Por exemplo:

  • A cegueira é a ausência da visão.
  • A mentira é a ausência da verdade.
  • A injustiça é a ausência da justiça.
  • O ódio é a ausência do amor.

Deus criou tudo bom.

Como lemos no Génesis:

«E Deus viu tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom» (Gn 1,31).

O mal não é uma substância criada por Deus. É uma corrupção ou deformação de um bem previamente existente.

Por isso a Igreja ensina que Deus não é o autor do mal.


A origem do mal moral: a liberdade humana

A primeira grande resposta cristã ao problema do mal encontra-se no dom da liberdade.

Deus quis criar seres capazes de amar.

Mas o amor autêntico exige liberdade.

Não pode existir amor verdadeiro onde existe apenas programação.

Um robô pode obedecer.

Um ser livre pode amar.

E precisamente porque pode amar, também pode rejeitar o amor.

Aqui encontramos a origem do pecado.

Os anjos caídos utilizaram mal a sua liberdade.

Os nossos primeiros pais utilizaram mal a sua liberdade.

E cada um de nós continua a fazê-lo.

Grande parte do sofrimento do mundo provém diretamente das decisões humanas:

  • Guerras.
  • Corrupção.
  • Exploração.
  • Aborto.
  • Violência.
  • Ódio.
  • Injustiças económicas.
  • Perseguições.

Deus poderia eliminar toda possibilidade de pecado.

Mas, para o fazer, teria de eliminar a liberdade.

E então desapareceria também a possibilidade do amor.


Por que Deus não intervém constantemente?

Muitas pessoas perguntam:

«Se Deus vê uma injustiça, por que não a impede imediatamente?»

A resposta implica compreender como Deus governa o mundo.

Deus sustenta continuamente a criação, mas normalmente age respeitando as leis naturais e a liberdade das suas criaturas.

Se Deus interviesse milagrosamente sempre que alguém tentasse fazer algo mau:

  • Nenhuma decisão teria consequências.
  • A liberdade seria uma ilusão.
  • A responsabilidade moral desapareceria.

O mundo tornar-se-ia um cenário artificial.

No entanto, Deus quis uma criação autêntica, na qual as nossas escolhas tenham verdadeiro peso.

Isto não significa que Deus seja indiferente.

Significa que Ele permite temporariamente certas ações porque vê a história completa, enquanto nós vemos apenas fragmentos.


O mistério do sofrimento dos inocentes

Aqui chegamos ao ponto mais difícil.

E quanto às crianças que sofrem?

E quanto às vítimas inocentes?

E quanto àqueles que suportam doenças devastadoras?

A resposta cristã reconhece humildemente que existe um mistério.

Nem tudo pode ser plenamente compreendido a partir da nossa condição limitada.

O Livro de Job é provavelmente a reflexão mais profunda de toda a Sagrada Escritura sobre este tema.

Job era justo.

No entanto, perdeu:

  • Os seus bens.
  • A sua saúde.
  • Os seus filhos.
  • A sua posição social.

Os seus amigos insistiam que ele devia ter cometido algum pecado oculto.

Mas estavam errados.

No final do livro, Deus não lhe dá uma explicação detalhada.

Mostra-lhe algo maior:

a imensidão da sua sabedoria em comparação com as limitações humanas.

Nem todas as perguntas recebem respostas imediatas.

Mas a fé ensina que nenhuma lágrima cai fora da providência divina.


A Cruz de Cristo: a resposta definitiva de Deus ao sofrimento

A resposta mais profunda ao problema do mal não é uma teoria.

É uma pessoa.

Jesus Cristo.

Muitos imaginam um Deus distante observando o sofrimento humano a partir do céu.

Mas o cristianismo proclama algo radicalmente diferente.

O próprio Deus entrou no sofrimento humano.

Foi perseguido.

Foi traído.

Foi caluniado.

Foi torturado.

Foi condenado injustamente.

Foi crucificado.

A Cruz revela que Deus não é alheio à dor.

Ele assumiu-a pessoalmente.

Como diz o profeta Isaías:

«Verdadeiramente, Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas dores» (Is 53,4).

E São Paulo proclama:

«Sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus» (Rm 8,28).

A Cruz mostra-nos que Deus pode tirar um bem imenso até mesmo do pior mal imaginável.

A Crucificação foi o crime mais injusto da história.

No entanto, dela surgiu a salvação do mundo.


Deus pode tirar bens maiores dos males que permite

Este ensinamento é fundamental na teologia católica.

Deus não quer o mal.

Mas pode permiti-lo porque é capaz de tirar dele um bem maior.

Um exemplo evidente é a conversão de muitas pessoas após experiências dolorosas.

Inúmeros santos descobriram Deus precisamente através do sofrimento.

Não porque o sofrimento fosse bom em si mesmo.

Mas porque Deus transformou essa dor num caminho de santificação.

Santo Agostinho expressou esta verdade com uma frase célebre:

«Deus julgou melhor tirar o bem do mal do que não permitir mal algum.»

Isto não significa que devamos procurar o sofrimento.

Significa que nenhum sofrimento precisa de ser inútil.


A injustiça não terá a última palavra

Uma das maiores angústias humanas surge quando vemos os maus prosperarem.

Por vezes os corruptos têm sucesso.

Os violentos parecem vencer.

Os inocentes sofrem.

De uma perspetiva exclusivamente terrena, isto é escandaloso.

Mas a fé cristã contempla a história completa.

Existe um julgamento divino.

Existe uma vida eterna.

Existe uma justiça perfeita.

Deus não ignora nenhuma ação humana.

O próprio Jesus ensinou:

«Nada há de oculto que não venha a ser revelado» (Lc 8,17).

A esperança cristã não consiste em negar as injustiças.

Consiste em saber que nenhuma injustiça ficará sem resposta diante de Deus.


O papel dos cristãos diante do mal

Compreender por que Deus permite o mal não significa permanecer passivo.

Muito pelo contrário.

A fé católica exige que combatamos o mal.

Os cristãos são chamados a:

  • Defender a verdade.
  • Ajudar os pobres.
  • Proteger os fracos.
  • Promover a justiça.
  • Consolar os que sofrem.
  • Construir a paz.

Cada obra de misericórdia é uma participação na vitória de Cristo sobre o mal.

A pergunta não deve ser apenas:

«Por que Deus permite o sofrimento?»

Devemos também perguntar:

«O que estou a fazer para aliviar o sofrimento dos outros?»


O sofrimento pode tornar-se um caminho de santidade

Este ensinamento é difícil para a mentalidade moderna.

Vivemos numa cultura que considera o sofrimento algo que deve ser eliminado a qualquer custo.

E certamente é bom combatê-lo sempre que possível.

Mas a fé cristã acrescenta uma dimensão mais profunda.

O sofrimento unido a Cristo pode ter valor redentor.

São Paulo escreve:

«Agora alegro-me nos sofrimentos que padeço por vós e completo na minha carne o que falta às tribulações de Cristo, em favor do seu Corpo, que é a Igreja» (Cl 1,24).

Isto não significa que a Cruz de Cristo seja insuficiente.

Significa que Deus permite que participemos na obra da redenção oferecendo os nossos sofrimentos unidos aos de Jesus.

Assim compreendemos por que tantos santos abraçaram as suas cruzes com serenidade e esperança.


A visão moderna do mal e a perda do sentido transcendente

Uma das grandes tragédias do nosso tempo é que muitas pessoas experimentam o sofrimento sem um horizonte espiritual.

Quando Deus desaparece, a dor parece absurda.

Quando a eternidade desaparece, a injustiça parece definitiva.

Quando a esperança sobrenatural desaparece, o sofrimento parece inútil.

Por isso muitas crises contemporâneas não são apenas psicológicas ou sociais.

São também espirituais.

A fé não elimina automaticamente a dor.

Mas dá-lhe significado.

E um sofrimento com sentido pode ser suportado de forma completamente diferente de um sofrimento que parece absurdo.


A vitória final de Deus

O cristianismo não termina no Calvário.

Termina com a Ressurreição.

A última palavra de Deus sobre a história não é a morte.

É a vida.

Não é o mal.

É o bem.

Não é a injustiça.

É a justiça.

Não é o pecado.

É a santidade.

O Livro do Apocalipse descreve o destino final dos redimidos:

«Ele enxugará toda lágrima dos seus olhos; não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor» (Ap 21,4).

Esta promessa está no coração da esperança cristã.


Conclusão: confiar quando não compreendemos

A questão de saber por que Deus permite o mal provavelmente acompanhará a humanidade até ao fim dos tempos.

Nenhuma explicação intelectual pode eliminar completamente o mistério.

No entanto, a fé católica oferece algumas certezas fundamentais:

  • Deus não criou o mal.
  • Deus não quer o mal.
  • Deus respeita a liberdade humana.
  • Deus pode tirar um bem imenso até dos maiores males.
  • Deus entrou pessoalmente no sofrimento através de Jesus Cristo.
  • Deus julgará toda a injustiça.
  • Deus promete uma vida eterna na qual o mal será definitivamente vencido.

Quando contemplamos a Cruz, compreendemos que Deus nem sempre responde às nossas perguntas da forma que esperamos.

Por vezes responde mostrando-nos a sua presença.

O cristão não acredita porque compreende perfeitamente o mistério do sofrimento.

Acredita porque sabe que, mesmo no meio da escuridão, Cristo percorreu esse caminho antes de nós.

E se a Sexta-Feira Santa terminou na glória da Páscoa, então também as nossas próprias cruzes, unidas à d’Ele, estão destinadas a transformar-se em ressurreição.

Por isso, quando a dor, a injustiça ou a incerteza parecem insuportáveis, podemos repetir com confiança as palavras do salmista:

«Ainda que eu caminhe pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo» (Sl 23,4).

Esta é, em última análise, a resposta cristã ao mistério do mal: não uma explicação fria, mas a certeza de que Deus permanece connosco mesmo quando não conseguimos compreender plenamente os seus caminhos.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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