Quarta-feira , Fevereiro 11 2026

Pode-se mastigar a Hóstia consagrada?

Um pequeno gesto… com profundidade infinita

Poucas perguntas aparentemente “simples” revelam tanto sobre a nossa fé quanto esta: pode-se mastigar a Hóstia consagrada?
Alguns a fazem com timidez, outros com inquietação, outros ainda até com um certo sentimento de culpa. E isso é compreensível: estamos a falar do Santíssimo Sacramento do Altar, do Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Este artigo pretende educar, iluminar a consciência e oferecer um guia espiritual claro, sem moralismos, sem medo, mas com toda a seriedade teológica e o amor reverente que o tema exige. Porque não se trata apenas de como comungamos, mas de Quem recebemos.


1. O cerne da questão: o que é realmente a Hóstia consagrada?

Antes de responder à pergunta se se pode mastigar, é preciso responder a algo anterior:

👉 O que é a Hóstia consagrada?

A fé católica ensina — e isto não é simbólico, nem poético, nem metafórico — que, após a consagração:

a substância do pão deixa de existir
e se transforma verdadeiramente no próprio Cristo.

Este mistério chama-se Transubstanciação, definido solenemente pelo Concílio de Trento.

Embora permaneçam as aparências sensíveis (sabor, textura, forma), aquilo que recebemos é Cristo vivo e glorioso.

Por isso, São Paulo adverte com palavras de grande severidade:

“Quem comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será réu do Corpo e do Sangue do Senhor.”
(1 Coríntios 11,27)


2. O que fez Jesus na Última Ceia? O verbo-chave em grego

Entramos aqui num ponto fascinante — e pouco conhecido — do texto bíblico original.

Nos Evangelhos, Jesus diz:

“Tomai e comei.”
(Mateus 26,26)

Em grego, o verbo utilizado é:

φάγετε (phágete)

Imperativo do verbo φαγεῖν (phageîn)

Este verbo significa literalmente “comer”, e não “engolir sem mastigar”.
É o mesmo verbo usado para comer pão, peixe ou qualquer alimento comum.

Mas há mais.

No discurso do Pão da Vida (João 6), quando muitos se escandalizam, Jesus não suaviza a linguagem, mas torna-a ainda mais radical:

“Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna.” (João 6,54)

Aqui o verbo muda:

τρώγω (trógō)

Que significa “mastigar, roer, triturar”.

Não é um verbo elegante. É cru, físico, realista.

👉 Jesus escolhe conscientemente um verbo que implica a mastigação.

Isto desmonta pela raiz a ideia de que mastigar a Hóstia seja, em si mesmo, um ato de irreverência.


3. Então… sim ou não? Resposta clara da teologia católica

Sim, pode-se mastigar a Hóstia consagrada.

Não é pecado.
Não é irreverente em si.
Não invalida a Comunhão.

A Igreja nunca ensinou que a Hóstia deva ser engolida sem ser mastigada.

De facto:

  • Desde os primeiros séculos, comungava-se como se come o pão.
  • Os Padres da Igreja nunca proibiram a mastigação.
  • Não existe nenhum documento do Magistério que a condene.

👉 O problema não é a mastigação,
👉 mas a atitude interior e exterior com que se recebe a Comunhão.


4. Por que razão, então, muitos pensam que “não se deve fazer”?

Entramos aqui no campo pastoral e espiritual.

Ao longo dos séculos, para sublinhar a reverência, desenvolveram-se práticas devocionais muito cuidadosas:

  • Hóstias cada vez menores
  • Comunhão na língua
  • Evitar qualquer fragmento
  • Silêncio absoluto

Tudo isso nasce de um amor profundo pelo Santíssimo Sacramento, e não de uma obrigação dogmática.

Mas aconteceu algo importante:
👉 A prática devocional foi confundida com obrigação moral.

Assim, muitos fiéis cresceram a pensar:

“Se eu mastigar, é falta de respeito.”

Não é.
O que seria irreverente, isso sim, seria:

  • Comungar distraidamente
  • Comungar sem fé na Presença Real
  • Comungar em estado de pecado mortal
  • Comungar como quem recebe apenas “algo”

5. Uma verdade-chave que poucos conhecem

São Tomás de Aquino explica algo essencial:

👉 Cristo está presente enquanto subsistem as espécies sacramentais.

Quando a Hóstia já não tem a aparência de pão (após a digestão), a presença sacramental cessa, embora o efeito espiritual permaneça.

Isto significa algo muito importante:

🔹 Mastigar não “fere” Cristo
🔹 Não O “quebra”
🔹 Não O “destrói”

Cristo glorioso não sofre, não é frágil e não está sujeito aos processos físicos de um corpo mortal.


6. Guia prático rigoroso: como comungar com reverência hoje

Chegamos aqui à parte mais importante: a aplicação pastoral.

1. Antes da Comunhão

  • Um exame de consciência sério
  • Confissão em caso de pecado mortal
  • Jejum eucarístico (pelo menos uma hora)
  • Um ato interior de fé:
    “Senhor, não sou digno…”

2. No momento da Comunhão

  • Na língua ou na mão (onde for permitido)
  • Com recolhimento
  • Sem pressa
  • Sem gestos automáticos

3. Mastigar ou não mastigar?

  • Pode-se mastigar suavemente, sem exagero
  • Evitar movimentos bruscos ou descuidados
  • Fazer isso com a consciência de Quem se está a receber

Um gesto exterior sereno educa o coração.

4. Depois da Comunhão

Este é o grande momento esquecido.

👉 Os minutos após a Comunhão são ouro puro.

São João Paulo II dizia:

“É o momento mais íntimo de união com Cristo em toda a Missa.”

Silêncio.
Ação de graças.
Adoração interior.


7. O verdadeiro escândalo não é mastigar… é esquecer Quem recebemos

No nosso contexto atual — rápido, ruidoso, superficial — o problema não é se se mastiga ou não a Hóstia.

O verdadeiro drama é:

  • Comungar sem fé
  • Comungar sem Confissão
  • Comungar sem amor
  • Comungar como um direito automático

Jesus não disse:

“Tomai e consumi um símbolo.”

Disse:

“Isto é o meu Corpo.”
(Τοῦτό ἐστιν τὸ σῶμά μου – Toutó estin to sōmá mou)


8. Para concluir: um convite espiritual

Da próxima vez que comungares, lembra-te disto:

Não estás simplesmente “a fazer algo”.
Estás a receber Alguém.

Podes mastigar a Hóstia.
Mas fá-lo como quem recebe:

  • o seu Rei,
  • o seu Deus,
  • o seu Salvador,
  • o Amigo que se faz Pão.

Porque, no fim, não é a boca que deve ser delicada,
mas o coração que deve arder de fé.

“Quem come este Pão viverá para sempre.”
(João 6,58)

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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