Terça-feira , Fevereiro 24 2026

Pecados contra o Sétimo Mandamento

«Não roubarás» (Êxodo 20,15)

1. Introdução: um mandamento mais atual do que pensamos

Quando ouvimos o Sétimo Mandamento — «Não roubarás», muitos pensam imediatamente: «Isso não se aplica a mim, eu não sou ladrão». No entanto, esta visão é demasiado superficial e perigosa para a vida espiritual.

A Tradição da Igreja ensina que este mandamento não se limita ao roubo violento ou evidente, mas abrange toda forma de injustiça contra os bens do próximo, sejam eles materiais, profissionais, intelectuais, econômicos ou sociais. Em uma sociedade onde a fraude é normalizada, o engano é disfarçado de “esperteza” e a exploração é justificada como “modelo de negócio”, este mandamento interpela diretamente a nossa consciência cotidiana.

O Sétimo Mandamento protege:

  • O direito natural à propriedade privada
  • A justiça nas trocas
  • A honestidade no trabalho
  • A responsabilidade social
  • O destino universal dos bens, sem cair em distorções ideológicas

2. Fundamento teológico e moral

A propriedade privada não é um capricho humano, mas um direito reconhecido pela lei natural, ordenado ao bem pessoal, familiar e social. Roubar não significa apenas “tomar algo”, mas romper a justiça, prejudicar o próximo e pecar contra a caridade.

📖 «Aquele que roubava não roube mais; antes trabalhe, fazendo honestamente com as próprias mãos» (Efésios 4,28)

São Tomás de Aquino ensina que a injustiça relativa aos bens temporais é pecado grave quando causa dano sério ao próximo, especialmente quando há abuso de poder, engano deliberado ou prejuízo relevante.


3. Pecados contra o Sétimo Mandamento

Lista extensa e minuciosa para o exame de consciência

A seguir apresenta-se uma lista detalhada de pecados concretos, muitos deles frequentes, mas raramente confessados, organizada por âmbitos da vida.


A. Roubos diretos e apropriação indevida

  • Roubar dinheiro, objetos ou bens materiais.
  • Levar “pequenas coisas” achando que não têm importância.
  • Retirar material do local de trabalho (dinheiro, ferramentas, produtos, material de escritório).
  • Ficar com objetos perdidos sem tentar devolvê-los.
  • Reter dinheiro recebido por engano.
  • Usar bens emprestados como se fossem próprios.
  • Não devolver o que foi emprestado.
  • Reter injustamente bens pertencentes a outros.
  • Roubar tempo remunerado (fingir trabalhar, ausências injustificadas).

B. Fraude, engano e trapaça

  • Mentir para obter benefício econômico.
  • Fraudar pessoas ou empresas.
  • Vender produtos defeituosos ocultando seus defeitos.
  • Enganar no peso, na quantidade ou na qualidade.
  • Inflacionar preços injustamente, aproveitando-se da necessidade alheia.
  • Assinar contratos sem intenção de cumpri-los.
  • Explorar brechas legais para cometer injustiças.
  • Usar informações privilegiadas para enriquecer-se injustamente.

C. Pecados relacionados ao trabalho

Como trabalhador:

  • Trabalhar com negligência, preguiça ou irresponsabilidade.
  • Receber salário sem cumprir corretamente o trabalho.
  • Fingir doença para não trabalhar.
  • Provocar prejuízos por preguiça ou grave negligência.
  • Desobedecer normas justas estabelecidas pelo empregador.
  • Sabotar o próprio trabalho ou o trabalho alheio.
  • Utilizar habitualmente o horário de trabalho para assuntos pessoais.

Como empregador ou responsável:

  • Pagar salários injustos ou insuficientes.
  • Atrasar o pagamento de salários sem causa justa.
  • Explorar os trabalhadores.
  • Impor condições de trabalho indignas.
  • Demitir injustamente.
  • Não respeitar períodos de descanso, férias ou direitos básicos.
  • Tratar os trabalhadores como objetos e não como pessoas.

📖 «O salário dos trabalhadores não deve ser retido» (cf. Tiago 5,4)


D. Pecados fiscais e contra o bem comum

  • Sonegar impostos justos.
  • Falsificar declarações fiscais.
  • Trabalhar “na informalidade”.
  • Receber auxílios públicos sem ter direito.
  • Fazer uso indevido de subsídios ou benefícios sociais.
  • Fraudar sistemas de previdência social.
  • Justificar a sonegação fiscal como algo “normal”.
  • Recusar-se a contribuir para o bem comum podendo fazê-lo.

E. Danos aos bens alheios

  • Danificar voluntariamente a propriedade de outros.
  • Não reparar danos causados por culpa própria.
  • Atos de vandalismo.
  • Uso negligente de bens alugados ou emprestados.
  • Recusar-se a assumir responsabilidade pelos danos causados.

F. Pecados contra a justiça no comércio e no consumo

  • Comprar bens roubados sabendo sua origem.
  • Apoiar negócios claramente injustos.
  • Consumir de maneira irresponsável e egoísta.
  • Endividar-se sem intenção real de pagar.
  • Aproveitar-se dos erros do vendedor.
  • Especulação abusiva.
  • Promover ou sustentar sistemas econômicos injustos quando se tem poder para evitá-los.

G. Pecados contra a propriedade intelectual

  • Baixar conteúdo pirata.
  • Compartilhar ilegalmente material protegido por direitos autorais.
  • Copiar trabalhos alheios e apresentá-los como próprios.
  • Plágio acadêmico ou profissional.
  • Uso ilegal de softwares.
  • Falsificação de marcas ou produtos.

H. Usura e pecados financeiros

  • Emprestar dinheiro com juros excessivos.
  • Aproveitar-se da necessidade econômica do próximo.
  • Endividar intencionalmente outras pessoas.
  • Manipular financeiramente pessoas vulneráveis.
  • Jogar ou investir de forma irresponsável, colocando a família em risco.

I. Pecados de omissão

  • Não devolver o que foi roubado, podendo fazê-lo.
  • Não reparar uma injustiça conhecida.
  • Calar diante de uma injustiça grave quando se tem o dever moral de agir.
  • Não realizar a restituição após uma confissão válida.
  • Ignorar as necessidades graves do próximo apesar de possuir meios suficientes.

4. A restituição: a chave esquecida do Sétimo Mandamento

Um ponto essencial e muitas vezes esquecido:
👉 Não basta confessar o pecado.
👉 É moralmente obrigatório restituir o que foi roubado ou reparar o dano, sempre que possível.

Sem restituição, não há arrependimento completo, e a própria absolvição pode ficar comprometida.


5. Um chamado final à conversão

O Sétimo Mandamento não procura acusar, mas libertar o coração do apego desordenado aos bens materiais. Cristo não condena a riqueza, mas condena o coração injusto.

Viver fielmente este mandamento:

  • Purifica a consciência
  • Fortalece a justiça
  • Humaniza a economia
  • Dá testemunho cristão em um mundo corrompido

💬 «Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração» (Mateus 6,21)

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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