Quarta-feira , Abril 29 2026

«De lá há de vir a julgar os vivos e os mortos»: o sétimo artigo do Credo explicado para o nosso tempo

Todos os domingos, milhões de cristãos recitam o Credo quase de memória. As palavras saem naturalmente dos seus lábios: «e de novo há de vir em glória para julgar os vivos e os mortos…» No entanto, poucas frases do Credo geram hoje tanto desconforto, confusão ou até silêncio quanto esta.

Falar do juízo de Deus parece, para muitos, algo ultrapassado. Vivemos numa época que tolera quase tudo, exceto a ideia de que exista uma verdade definitiva sobre o bem e o mal. Fala-se constantemente de autoestima, bem-estar emocional ou crescimento pessoal, mas muito pouco de responsabilidade moral, eternidade ou juízo.

E, no entanto, a Igreja nunca deixou de ensinar esta verdade fundamental: Jesus Cristo voltará em glória no fim dos tempos e julgará toda a humanidade.

Não se trata de uma ameaça inventada para assustar as consciências. Nem de uma imagem medieval criada para controlar as pessoas. O Juízo Final pertence ao próprio núcleo da fé cristã. Está presente no Evangelho, na pregação apostólica, nos Padres da Igreja e no Credo professado há séculos.

O sétimo artigo do Credo obriga-nos a olhar para a vida a partir de uma perspetiva muito maior do que a do presente imediato. Recorda-nos que a história tem um sentido, que o mal não triunfará para sempre, que a injustiça não terá a última palavra e que cada ato humano possui um peso eterno.


Cristo voltará: uma verdade esquecida

O Catecismo tradicional ensina:

«No fim do mundo, Jesus Cristo, cheio de glória e majestade, virá do céu para julgar todos os homens, bons e maus, e dar a cada um o prémio ou o castigo que tiver merecido.»

Este ensinamento fundamenta-se diretamente nas palavras de Cristo:

«Verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu com grande poder e glória» (Mt 24,30).

A primeira vinda de Cristo foi humilde. Nasceu numa manjedoura, viveu oculto durante muitos anos e morreu pregado numa cruz. Muitos O desprezaram, zombaram d’Ele e condenaram-n’O injustamente.

Mas a segunda vinda será completamente diferente.

Virá como Rei universal.
Virá como Senhor da história.
Virá como Juiz.

A tradição cristã chama a este acontecimento a Parusia, isto é, a manifestação gloriosa de Cristo no fim dos tempos.

Hoje o mundo vive como se Jesus Cristo nunca fosse voltar. A cultura moderna está obcecada com o presente: consumir, produzir, divertir-se, distrair-se. A eternidade desaparece do horizonte mental. O homem contemporâneo organiza frequentemente toda a sua vida como se nunca tivesse de prestar contas diante de ninguém.

Mas o Credo destrói essa ilusão.

A história humana não caminha para o vazio. Caminha para um encontro definitivo com Cristo.


O juízo particular e o juízo universal

Aqui surge uma pergunta importante, à qual o Catecismo tradicional responde claramente:

Se cada alma é julgada imediatamente após a morte, porque haverá também um juízo universal?

A Igreja ensina dois juízos:

1. O juízo particular

Acontece imediatamente após a morte.

A alma comparece diante de Cristo e recebe o seu destino eterno:

  • céu,
  • purgatório,
  • ou inferno.

Não existe reencarnação.
Não existe uma «segunda oportunidade» após a morte.
Não existe dissolução da alma numa energia cósmica.

A vida presente é o tempo da decisão.

Como ensina a Carta aos Hebreus:

«Está determinado que os homens morram uma só vez, e depois disso vem o juízo» (Heb 9,27).

2. O juízo universal

Acontecerá no fim do mundo, quando Cristo voltar em glória.

Então toda a humanidade comparecerá publicamente diante d’Ele.

Não porque Deus precise de mais informações — Deus já conhece perfeitamente cada alma — mas porque este juízo terá uma dimensão universal, visível e definitiva.

O Catecismo aponta cinco razões profundas para este juízo final.


1. O juízo universal manifestará a glória de Deus

Vivemos num mundo onde muitas vezes parece reinar a injustiça.

Os corruptos prosperam.
Os violentos triunfam.
Os mentirosos são admirados.
Os impuros são celebrados.
Os fiéis são ridicularizados.

Muitos perguntam:
«Onde está a justiça de Deus?»

Precisamente o Juízo Final revelará que Deus nunca perdeu o controlo da história.

Então ficará claro:

  • porque permitiu certos sofrimentos,
  • como a graça atuou secretamente,
  • quais foram as verdadeiras consequências das nossas decisões,
  • e como a Sua justiça foi perfeita mesmo quando parecia silenciosa.

Quantas vezes os santos foram perseguidos enquanto os ímpios eram elogiados. Pensemos em tantos mártires, religiosos, mães sacrificadas, sacerdotes fiéis ou cristãos escondidos que nunca receberam reconhecimento humano.

O Juízo Final será a revelação pública da verdade completa.

Nada ficará oculto.

O próprio Cristo disse:

«Nada há escondido que não venha a ser descoberto» (Lc 8,17).


2. O juízo universal manifestará a glória de Jesus Cristo

Esta parte é profundamente comovente.

Jesus Cristo foi julgado pelos homens.

O Inocente foi tratado como culpado.
A própria Verdade foi condenada.
O Autor da vida foi executado.

Diante de Pilatos parecia derrotado.
Diante de Herodes parecia ridículo.
Diante da multidão parecia um fracasso.

Mas o juízo universal inverterá completamente a cena.

Esse Cristo humilhado aparecerá como o Juiz soberano do universo.

O mesmo que foi cuspido será adorado.
O mesmo que foi coroado de espinhos será coroado de glória.
O mesmo que foi condenado pelos tribunais humanos julgará toda a humanidade.

Aqui existe um ensinamento muito atual.

A nossa cultura tenta constantemente «julgar» Cristo:

  • julga a Sua moral,
  • julga a Sua Igreja,
  • julga os Seus mandamentos,
  • julga o Evangelho.

O homem moderno quer sentar-se no trono de Deus e decidir o que é bem e o que é mal.

Mas o Credo recorda-nos algo essencial:
não somos nós que julgamos definitivamente Cristo; será Cristo quem nos julgará.


3. O juízo universal manifestará a glória dos santos

Muitos santos morreram incompreendidos.

Alguns foram considerados loucos.
Outros fanáticos.
Outros inúteis.
Outros fracassados.

O mundo raramente compreende a verdadeira santidade.

Pensemos em tantos:

  • monges escondidos,
  • mães dedicadas,
  • idosos que ofereceram os seus sofrimentos,
  • jovens que defenderam a pureza,
  • sacerdotes perseguidos,
  • cristãos ridicularizados por permanecerem fiéis.

Hoje as redes sociais recompensam a aparência, o ego e a exibição constante. Mas Deus olha para outra coisa: a fidelidade silenciosa.

O juízo universal revelará o verdadeiro valor dessas vidas escondidas.

Então muitos que pareciam insignificantes brilharão com uma glória imensa.

E muitos que pareciam importantes serão desmascarados.

Cristo já nos advertiu:

«Muitos dos primeiros serão os últimos, e muitos dos últimos serão os primeiros» (Mt 19,30).


4. O juízo universal trará a confusão dos maus

Este ponto é especialmente incómodo para a mentalidade contemporânea, mas faz parte da doutrina cristã.

O Catecismo ensina que a confusão dos maus será imensa, especialmente daqueles que:

  • oprimiram os justos,
  • fingiram virtude,
  • manipularam os outros,
  • ou esconderam vidas gravemente pecaminosas sob aparências respeitáveis.

Vivemos numa cultura profundamente obcecada pela imagem.

Muitos constroem identidades públicas cuidadosamente desenhadas:

  • aparências de bondade,
  • discursos moralistas,
  • ativismo superficial,
  • espiritualidade estética,
  • virtude exibida para obter aprovação social.

Mas Deus vê o coração.

O juízo universal destruirá todas as máscaras.

Não haverá marketing pessoal.
Não haverá propaganda.
Não haverá manipulação mediática.
Não haverá maneira de esconder a verdade.

Isto não deveria provocar em nós um medo neurótico, mas antes um sincero apelo à autenticidade.

A santidade não consiste em parecer bom.
Consiste em ser realmente transformado pela graça.


5. O corpo também participará do prémio ou do castigo

Esta verdade é profundamente cristã e muito importante.

Não somos almas aprisionadas em corpos, como acreditavam algumas filosofias antigas. O ser humano é uma unidade de alma e corpo.

Por isso, no fim dos tempos, acontecerá também a ressurreição dos mortos.

Os corpos ressuscitarão:

  • para a glória eterna,
  • ou para a condenação eterna.

Aqui compreendemos algo decisivo:
o que fazemos com o corpo importa.

Numa época marcada por:

  • a banalização da sexualidade,
  • o culto do prazer,
  • a pornografia,
  • a ideologia de género,
  • a exploração do corpo humano,
  • e a perda do sentido da dignidade corporal,

a doutrina cristã recorda que o corpo está destinado à eternidade.

O cristianismo não despreza o corpo.
Eleva-o.

Por isso os santos davam tanta importância à pureza, à modéstia, ao sacrifício e à disciplina corporal. Sabiam que o corpo não é um brinquedo nem um objeto de consumo: é templo do Espírito Santo.


Devemos temer o Juízo Final?

A resposta depende de como vivemos.

Para quem rejeita obstinadamente Deus, o juízo é terrível porque significa enfrentar finalmente a verdade.

Mas para quem ama sinceramente Cristo, o juízo é também esperança.

Vivemos num mundo cheio de injustiças não resolvidas:

  • vítimas que nunca receberam justiça,
  • inocentes esquecidos,
  • sofrimentos ocultos,
  • sacrifícios ignorados.

O Juízo Final significa que Deus estabelecerá uma justiça perfeita.

Nenhuma boa ação ficará sem recompensa.
Nenhuma lágrima oferecida por amor será inútil.
Nenhum ato de fidelidade será esquecido.

O problema é que muitas vezes queremos um Cristo Salvador, mas não um Cristo Juiz.

Queremos misericórdia sem conversão.
Consolo sem arrependimento.
Céu sem Cruz.

No entanto, a verdadeira misericórdia não elimina a verdade. Pressupõe-na.


O Juízo Final e a vida quotidiana

Esta doutrina pode parecer pertencer apenas ao campo da escatologia ou dos grandes tratados teológicos. Mas possui consequências muito concretas para a vida diária.

1. Ajuda-nos a viver com responsabilidade

Cada ato possui valor eterno.

Cada decisão importa.

A cultura atual repete:
«Faz o que quiseres.»
Mas o Evangelho ensina:
«Vive olhando para a eternidade.»


2. Liberta-nos do cinismo

Muitos perdem a esperança ao ver tanta corrupção ou maldade.

O Juízo Final recorda-nos que o mal não triunfará definitivamente.

Cristo terá a última palavra.


3. Chama-nos à conversão

Pensar no juízo não deveria produzir desespero, mas despertar espiritual.

A Igreja sempre recomendou meditar sobre as últimas coisas:

  • morte,
  • juízo,
  • inferno,
  • glória eterna.

Não para viver obcecados pelo medo, mas para aprender a viver com sabedoria.


4. Convida-nos à autenticidade

Deus não olha para as aparências.

Podemos enganar o mundo.
Podemos até enganar aqueles que nos são próximos.
Mas não podemos enganar Cristo.


Um apelo urgente para o nosso tempo

Talvez uma das grandes tragédias espirituais do nosso tempo seja ter perdido o sentido da eternidade.

Muitos batizados vivem praticamente como pagãos:

  • sem oração,
  • sem sacramentos,
  • sem exame de consciência,
  • sem jamais pensar no juízo de Deus.

E, no entanto, o Credo continua a ser proclamado todos os domingos.

Cristo voltará.

Não sabemos quando.
Não sabemos exatamente como será esse dia.
Mas sabemos com certeza que virá.

E então apenas uma coisa permanecerá:
se vivemos unidos a Deus ou separados d’Ele.


Conclusão: viver preparados

O sétimo artigo do Credo não é um anúncio de terror. É uma proclamação de verdade e esperança.

A história humana não termina no caos.
O sofrimento não é absurdo.
A injustiça não terá a vitória definitiva.
Cristo reina.
E Cristo voltará.

Por isso o cristão não vive aterrorizado, mas vigilante.

Como ensinaram tantos santos:
devemos viver cada dia de tal maneira que possamos olhar para Cristo sem vergonha quando Ele vier.

A melhor preparação para o Juízo Final não é o medo, mas a amizade com Jesus:

  • confessar-se,
  • viver em estado de graça,
  • praticar a caridade,
  • perseverar na oração,
  • permanecer fiel à verdade,
  • e amar Deus acima de todas as coisas.

Porque o Juiz que virá no fim dos tempos é o mesmo que morreu na Cruz por nós.

E para aquele que tentou viver unido a Ele, o Juízo Final não será o encontro com um desconhecido, mas o abraço definitivo do Senhor.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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