Quarta-feira , Abril 29 2026

Do sexto artigo do Credo: “Subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai”

Quando os cristãos recitam o Credo, muitas vezes pronunciam suas palavras com familiaridade, mas sem parar para contemplar toda a profundidade que elas contêm. Uma dessas afirmações imensas, solenes e cheias de esperança é o sexto artigo: “Subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai.”

Estas palavras não são uma simples fórmula litúrgica nem uma expressão simbólica vazia. Elas encerram uma verdade fundamental da nossa fé: Cristo ressuscitado não permaneceu na terra indefinidamente, mas subiu gloriosamente ao céu, onde reina para sempre como Senhor do universo e onde intercede por nós junto do Pai.

Este artigo do Credo abre o nosso olhar para o destino final do homem, para a glória eterna e para a certeza de que a nossa verdadeira pátria não está aqui embaixo, mas no Céu.

Falar da Ascensão do Senhor não é falar de uma despedida triste, mas de uma vitória definitiva. Cristo não se afasta para nos abandonar; Ele sobe para reinar, para nos preparar um lugar e para nos atrair a Si.


1. “Subiu aos céus”: a gloriosa Ascensão do Senhor

O Catecismo ensina:

121.- O que nos ensina o sexto artigo: SUBIU AOS CÉUS; ESTÁ SENTADO À DIREITA DE DEUS PAI?

Ensina-nos que Jesus Cristo, quarenta dias depois da sua ressurreição, subiu por si mesmo ao céu na presença dos seus discípulos, e que, sendo como Deus igual ao Pai na glória, como homem foi exaltado acima de todos os Anjos e Santos e constituído Senhor de todas as coisas.

A Ascensão é o ato glorioso pelo qual Nosso Senhor Jesus Cristo, depois de ter vencido o pecado, o demônio e a morte, entra solenemente na glória celeste.

Não se trata de uma “viagem espacial”, como se o céu fosse simplesmente um lugar físico acima das nuvens. O céu é, antes de tudo, o estado da visão beatífica, a perfeita comunhão com Deus, a plenitude absoluta da glória divina.

Cristo ascende não apenas como Deus — porque como Deus nunca deixou o céu — mas como homem glorificado. Sua santíssima humanidade entra triunfalmente na glória eterna.

Isso tem uma importância imensa: onde entrou a Cabeça, também o Corpo é chamado a entrar. Cristo abriu o caminho.

A Ascensão não é o fim da história de Jesus: é o começo do seu reinado visível a partir do céu.


2. Os quarenta dias depois da Ressurreição

O Catecismo pergunta:

122.- Por que Jesus Cristo, depois da sua ressurreição, permaneceu quarenta dias na terra antes de subir ao céu?

Porque quis provar com várias aparições que verdadeiramente havia ressuscitado, e para instruir cada vez mais os Apóstolos e confirmá-los nas verdades da fé.

Isso é profundamente importante.

Cristo não desapareceu imediatamente depois de ressuscitar. Durante quarenta dias apareceu repetidamente aos Apóstolos, aos discípulos e a numerosos testemunhos.

Comeu com eles.

Falou com eles.

Mostrou-lhes as suas chagas gloriosas.

Permitiu que São Tomé tocasse o seu lado.

Explicou as Escrituras.

Fortaleceu a fé daqueles que se tornariam o fundamento da Igreja.

A Ressurreição não foi uma ilusão piedosa nem uma experiência subjetiva dos discípulos. Foi um fato real, histórico, visível e corporal.

A Igreja não nasceu de uma emoção coletiva, mas do verdadeiro encontro com Cristo ressuscitado.

Além disso, aqueles quarenta dias foram uma escola final para os Apóstolos. O Senhor os preparou para a missão universal: pregar o Evangelho até os confins da terra.

Antes, eram medrosos.

Depois, tornariam-se mártires.

Isso só se explica porque realmente viram o Ressuscitado.


3. Por que Jesus Cristo subiu ao céu?

O Catecismo responde com admirável precisão:

123.- Por que Jesus Cristo subiu ao céu?

Subiu:

1º para tomar posse do seu reino, conquistado com a sua morte;

2º para nos preparar tronos de glória e para ser nosso Mediador e Advogado junto do Pai;

3º para enviar o Espírito Santo aos seus Apóstolos.

Cada uma dessas razões merece uma profunda meditação.


4. Cristo sobe para tomar posse do seu Reino

Jesus não ascende como um derrotado que abandona o campo de batalha, mas como o Rei vitorioso.

Sua Cruz foi combate.

Sua Ressurreição foi triunfo.

Sua Ascensão foi coroação.

Cristo conquistou o seu Reino não com violência, mas com o sacrifício redentor da Cruz.

Por isso toda autoridade Lhe pertence:

“Foi-me dado todo o poder no céu e na terra.”

Ele reina sobre os anjos.

Reina sobre os santos.

Reina sobre a história.

Reina sobre as nações.

Reina até mesmo sobre aqueles que O rejeitam.

Hoje, numa sociedade que quer destronar Cristo da vida pública, familiar e pessoal, esta verdade é mais atual do que nunca: Cristo é Rei.

Não um rei simbólico.

Não um rei opcional.

Não um rei apenas para a intimidade privada.

Ele é o Rei universal.

O mundo moderno procura construir uma civilização sem Deus, mas toda verdadeira paz só pode ser edificada sob o reinado de Cristo.

Restaurar todas as coisas em Cristo continua sendo uma urgência.


5. Cristo sobe para nos preparar um lugar

Aqui aparece uma das verdades mais consoladoras do cristianismo.

O próprio Jesus disse:

“Vou preparar-vos um lugar.”

Não fomos feitos para esta terra.

Não fomos criados para uma existência limitada ao sofrimento, ao trabalho e à morte.

Fomos criados para o Céu.

Cristo ascende como nosso precursor.

Ele nos espera.

Prepara-nos tronos de glória.

Cada sacrifício oferecido com amor, cada confissão sincera, cada comunhão bem recebida, cada rosário rezado com fé, cada ato silencioso de caridade, tem ressonância eterna.

O Céu não é poesia religiosa.

É realidade.

É a verdadeira pátria.

É o destino para o qual fomos criados.

Por isso o cristão não vive olhando apenas para baixo, mas para o alto.

Não com fuga irresponsável, mas com esperança sobrenatural.

Quem perde o sentido do Céu acaba absolutizando a terra.

E quando a terra se torna absoluta, nasce o desespero.


6. Cristo é o nosso Mediador e Advogado

Jesus subiu também para ser o nosso Mediador junto do Pai.

Isso significa que não estamos sozinhos.

Temos um Advogado no céu.

Temos um Sumo Sacerdote eterno.

Temos Aquele que mostra ao Pai as chagas gloriosas da Redenção.

Cristo intercede por nós.

Não como alguém que suplica algo incerto, mas como o Redentor vitorioso.

Quando caímos, Ele nos chama ao arrependimento.

Quando sofremos, Ele nos sustenta.

Quando temos medo, Ele nos fortalece.

Quando rezamos, as nossas súplicas sobem unidas à sua mediação perfeita.

A oração cristã possui esta imensa certeza: não rezamos no vazio.

Rezamos em Cristo.

Por Cristo.

Com Cristo.

E esta verdade realiza-se de modo sublime na Santa Missa, onde o sacrifício do Calvário se torna sacramentalmente presente.


7. Cristo sobe para enviar o Espírito Santo

A Ascensão prepara Pentecostes.

O próprio Jesus o havia anunciado: convinha que Ele partisse para que viesse o Consolador.

Não era ausência.

Era uma nova forma de presença.

O Espírito Santo desceria sobre os Apóstolos e transformaria o medo deles em coragem apostólica.

Sem Pentecostes não há Igreja missionária.

Sem o Espírito Santo não há santidade.

Sem a graça não há perseverança.

A Ascensão não encerra a obra de Cristo: ela a estende sacramentalmente na Igreja até o fim dos tempos.

Cristo sobe, mas permanece realmente presente na Eucaristia, na sua Igreja e na ação do Espírito Santo.


8. A diferença entre Cristo e a Virgem: Ascensão e Assunção

O Catecismo ensina:

124.- Por que se diz de Jesus Cristo que subiu aos céus e de sua Santíssima Mãe que foi assumida?

Porque Jesus Cristo subiu por sua própria virtude, mas Maria subiu pela virtude de Deus.

Aqui aparece uma belíssima distinção teológica.

Dizemos que Cristo ascendeu.

Dizemos que Maria foi assunta.

Não é a mesma coisa.

Jesus Cristo, sendo Homem-Deus, possui em si mesmo o poder divino. Ele sobe por sua própria autoridade.

Maria Santíssima, embora seja a mais perfeita de todas as criaturas, continua sendo criatura. Sua glorificação é um dom recebido.

Cristo ascende por natureza divina.

Maria é elevada pela graça.

Isso não diminui a glória da Virgem, mas a torna ainda mais admirável: toda a sua grandeza vem de Deus.

Ela é a obra-prima da graça.

E onde está a Mãe, aí também se fortalece a nossa esperança de chegar.


9. “Está sentado à direita de Deus Pai”

O Catecismo explica:

125.- Explicai-me as palavras: ESTÁ SENTADO À DIREITA DE DEUS PAI

A expressão “está sentado” significa a posse eterna e pacífica que Jesus Cristo tem da sua glória, e “à direita de Deus Pai” quer dizer que ocupa o lugar de honra acima de todas as criaturas.

Isso não significa que Deus Pai tenha literalmente uma cadeira à sua direita.

É uma linguagem humana usada para expressar uma realidade divina.

Estar sentado indica estabilidade, autoridade, realeza e plenitude de poder.

Cristo reina eternamente.

Não sofrerá mais.

Não morrerá mais.

Não será mais humilhado.

O Crucificado é agora o Glorificado.

A direita simboliza a honra suprema.

Cristo ocupa o lugar da mais alta glória.

Todo joelho deve dobrar-se diante d’Ele.

Todo julgamento final passa por Ele.

Toda a história converge n’Ele.

Isso muda radicalmente a vida cristã: não seguimos um mestre morto do passado, mas um Rei vivo e glorioso que governa agora.


10. Uma lição urgente para o nosso tempo

Vivemos numa época profundamente horizontal.

Pensa-se em produtividade, sucesso, política, consumo, prazer imediato… mas quase nunca no Céu.

O homem moderno perdeu o sentido da eternidade.

E quando o Céu desaparece, a vida torna-se insuportável.

Sem transcendência, tudo termina no absurdo.

Por isso este artigo do Credo é profundamente revolucionário.

Ele nos recorda:

existe um Reino eterno,

existe uma glória futura,

existe um juízo final,

existe uma pátria definitiva,

existe um verdadeiro Rei.

Cristo não pertence ao passado.

Cristo reina agora.

E a pergunta decisiva não é se o mundo O reconhece, mas se nós vivemos realmente sob o seu senhorio.


Conclusão

Dizer “Subiu aos céus; está sentado à direita de Deus Pai” é proclamar que a história não termina no túmulo.

É afirmar que Cristo venceu.

É reconhecer que temos uma pátria eterna.

É recordar que o nosso destino não é a corrupção, mas a glória.

É saber que no céu temos um Rei, um Advogado e um lugar preparado.

Cada vez que olhamos para um crucifixo, devemos também recordar a Ascensão: a Cruz conduz à glória.

Cada vez que sofremos, devemos recordar que o céu existe.

Cada vez que o mundo parece triunfar, devemos recordar que Cristo já reina.

E cada vez que recitamos o Credo, devemos fazê-lo com profunda convicção:

Cristo subiu.

Cristo reina.

Cristo voltará.

E fomos criados para estar com Ele eternamente.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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