Terça-feira , Fevereiro 17 2026

Carnaval (Carnestolendas): Recuperando o verdadeiro significado do “adeus à carne”

Vivemos numa época em que quase tudo é esvaziado de sentido. As festas tornam-se desculpas para o excesso, as tradições transformam-se em simples eventos folclóricos e as palavras em sons sem profundidade. Entre essas palavras que perderam a alma está Carnestolendas.

Para muitos, “carnaval” significa fantasias, desregramento e diversão antes da Quaresma. Mas o termo original — carnestolendas — encerra uma imensa riqueza espiritual. Vem do latim carnes tollendas: “as carnes que devem ser retiradas”. Mais popularmente, de carne vale: “adeus à carne”.

Mas o que significa realmente dizer adeus à carne?
É apenas deixar de comer carne por alguns dias?
Ou é algo muito mais profundo e radical?

Este artigo quer ajudá-lo a redescobrir o verdadeiro significado teológico e pastoral das Carnestolendas, não como uma celebração superficial, mas como uma porta espiritual para a conversão.


1. A origem cristã das Carnestolendas

Antes que o mundo transformasse o carnaval num espetáculo de excessos, a Igreja já havia estabelecido um tempo sério de preparação para a Quaresma.

Na tradição litúrgica antiga, os dias que precediam a Quarta-feira de Cinzas — Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima — introduziam progressivamente a alma no espírito penitencial. O “Aleluia” desaparecia da liturgia. A cor roxa antecipava o combate espiritual. A Igreja, como uma mãe sábia, preparava o coração.

As Carnestolendas marcavam o limiar entre dois mundos:

  • O tempo comum.
  • O tempo de penitência.

Não eram um convite ao pecado, mas uma despedida consciente dos prazeres legítimos para se dispor ao sacrifício.

O cristianismo nunca foi inimigo da alegria. Mas ensina que há tempos para celebrar e tempos para purificar o coração.

“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3,1).

As Carnestolendas eram precisamente isso: o momento de tomar consciência de que o combate espiritual se aproxima.


2. “Adeus à carne”: mais que uma dieta, uma decisão espiritual

Quando a Igreja falava de “carne”, não se referia apenas ao alimento. Na Sagrada Escritura, a carne simboliza a inclinação desordenada, a fraqueza humana, o homem velho.

São Paulo explica claramente:

“Os que vivem segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que vivem segundo o Espírito, para as coisas do Espírito” (Romanos 8,5).

Dizer “adeus à carne” não é simplesmente mudar o cardápio.
É declarar guerra àquilo que nos escraviza interiormente.

A carne, no sentido bíblico, representa:

  • O egoísmo.
  • A sensualidade desordenada.
  • A preguiça espiritual.
  • A soberba.
  • O apego excessivo ao prazer.

Carnestolendas, no seu sentido mais profundo, é o momento de perguntar:

  • O que domina a minha vida?
  • O que me impede de amar mais a Deus?
  • Que apetites governam as minhas decisões?

Porque o verdadeiro jejum começa no coração.


3. O contraste com o mundo atual

Se olharmos para a cultura contemporânea, veremos exatamente o contrário do espírito original das Carnestolendas.

Hoje o carnaval é sinônimo de:

  • Excesso.
  • Sexualização.
  • Inibição moral abandonada.
  • Zombaria do sagrado.
  • Quebra de limites.

O que deveria ser uma despedida sóbria tornou-se uma apoteose do desregramento.

Mas isso não é casual. A sociedade moderna perdeu o sentido da penitência. Esqueceu que o homem precisa de purificação. Confundiu liberdade com falta de controle.

E, no entanto, o coração humano continua sedento de ordem, sentido e redenção.

Quando o mundo exagera o prazer, no fundo está tentando preencher um vazio espiritual que só Deus pode saciar.


4. A pedagogia espiritual da Igreja

A Igreja não propõe a Quaresma como um castigo, mas como uma terapia da alma.

Assim como o corpo precisa de desintoxicação, a alma também precisa.

As Carnestolendas eram o último aviso antes do tratamento espiritual:

  • Prepara-te.
  • Simplifica.
  • Desapega-te.
  • Reordena os teus desejos.

O jejum, a abstinência e a penitência têm uma lógica profundamente humana e teológica:

  1. Recordam-nos que não somos escravos dos nossos impulsos.
  2. Ensinam-nos que o prazer não é o fim último.
  3. Reorientam-nos para o amor verdadeiro.

O próprio Jesus nos deu o exemplo:

“Esta espécie não se expulsa senão pela oração e pelo jejum” (Mateus 17,21).

O combate espiritual não se vence com discursos, mas com disciplina interior.


5. A carne hoje: de que devemos nos despedir?

Se Carnestolendas significa “adeus à carne”, devemos perguntar com honestidade:
que “carne” domina hoje a nossa vida?

Talvez não seja um pedaço de carne.
Talvez seja:

  • O consumo compulsivo.
  • A dependência do smartphone.
  • A busca constante por aprovação.
  • A pornografia.
  • A superficialidade.
  • A falta de silêncio.
  • O orgulho intelectual.

Numa sociedade hiperestimulada, o verdadeiro jejum pode ser:

  • Jejum de telas.
  • Jejum de ruído.
  • Jejum de críticas.
  • Jejum de comparações.
  • Jejum de ressentimento.

A Quaresma começa muito antes da Quarta-feira de Cinzas: começa quando tomamos consciência do que nos afasta de Deus.


6. Dimensão teológica profunda: o homem velho e o homem novo

São Paulo fala do “homem velho” e do “homem novo” (Efésios 4,22-24).

As Carnestolendas simbolizam a transição entre ambos.

O homem velho vive dominado pela carne.
O homem novo vive no Espírito.

Não se trata de desprezar o corpo. O cristianismo não é dualista. A carne é boa porque foi criada por Deus e assumida por Cristo na Encarnação.

O problema não é a carne em si, mas a sua desordem.

A penitência não destrói a natureza; cura-a.
O jejum não odeia o corpo; disciplina-o.
A renúncia não elimina a alegria; purifica-a.

O cristianismo não procura esmagar o desejo, mas orientá-lo para Deus.


7. Aplicações práticas: como viver hoje verdadeiras Carnestolendas

Se queremos recuperar o sentido autêntico, aqui está um guia espiritual concreto:

1. Faz um exame de consciência sério antes da Quaresma

Pergunta-te:

  • Que hábito me domina?
  • Que pecado se repete?
  • Que apego me é mais difícil abandonar?

2. Escolhe uma renúncia significativa

Não algo superficial, mas algo que realmente te custe.

3. Estabelece um plano espiritual

  • Confissão.
  • Oração diária estruturada.
  • Leitura espiritual.
  • Obras concretas de caridade.

4. Pratica sobriedade consciente

Na alimentação, no consumo, nas palavras e nas redes sociais.

5. Recupera a dimensão comunitária

Vive este tempo em família, explicando às crianças o seu verdadeiro significado. A transmissão da fé começa no lar.


8. Carnestolendas como ato de liberdade

O mundo chama liberdade fazer o que se tem vontade.
O cristianismo chama liberdade não ser escravo do que se tem vontade de fazer.

Dizer “adeus à carne” é um ato profundamente revolucionário no nosso tempo.

É afirmar:

  • Não sou os meus impulsos.
  • Não sou os meus desejos.
  • Não sou as minhas dependências.
  • Sou filho de Deus.

E essa lembrança transforma a vida.


9. Da renúncia à Ressurreição

Não esqueçamos que as Carnestolendas não terminam na abstinência.
Conduzem à Páscoa.

A renúncia cristã está sempre orientada para algo maior.

Deixa-se algo bom para receber algo melhor.
Deixa-se o imediato para abraçar o eterno.

Cristo não nos pede que renunciemos por renunciar, mas para nos tornar capazes de uma alegria mais profunda.


Conclusão: Recuperar a alma das Carnestolendas

Talvez este ano não possas mudar a cultura.
Mas podes mudar o teu coração.

Talvez o mundo continue a celebrar o excesso.
Mas tu podes celebrar a liberdade interior.

As Carnestolendas não são uma licença para pecar antes de “comportar-se bem”.
São um limiar sagrado.
São um chamado à conversão consciente.
São o sussurro da Igreja que nos diz:

“Prepara-te. Volta para Deus. Reordena a tua vida. Diz adeus ao que te prende.”

Se recuperarmos o verdadeiro significado do “adeus à carne”, não transformaremos apenas a Quaresma.

Transformaremos toda a nossa vida.

E então compreenderemos que a maior festa não é o carnaval passageiro, mas a Páscoa eterna para a qual caminhamos.

Porque a verdadeira alegria não nasce do excesso.

Nasce de um coração purificado.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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