Vivemos numa época em que quase tudo é esvaziado de sentido. As festas tornam-se desculpas para o excesso, as tradições transformam-se em simples eventos folclóricos e as palavras em sons sem profundidade. Entre essas palavras que perderam a alma está Carnestolendas.
Para muitos, “carnaval” significa fantasias, desregramento e diversão antes da Quaresma. Mas o termo original — carnestolendas — encerra uma imensa riqueza espiritual. Vem do latim carnes tollendas: “as carnes que devem ser retiradas”. Mais popularmente, de carne vale: “adeus à carne”.
Mas o que significa realmente dizer adeus à carne?
É apenas deixar de comer carne por alguns dias?
Ou é algo muito mais profundo e radical?
Este artigo quer ajudá-lo a redescobrir o verdadeiro significado teológico e pastoral das Carnestolendas, não como uma celebração superficial, mas como uma porta espiritual para a conversão.
1. A origem cristã das Carnestolendas
Antes que o mundo transformasse o carnaval num espetáculo de excessos, a Igreja já havia estabelecido um tempo sério de preparação para a Quaresma.
Na tradição litúrgica antiga, os dias que precediam a Quarta-feira de Cinzas — Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima — introduziam progressivamente a alma no espírito penitencial. O “Aleluia” desaparecia da liturgia. A cor roxa antecipava o combate espiritual. A Igreja, como uma mãe sábia, preparava o coração.
As Carnestolendas marcavam o limiar entre dois mundos:
- O tempo comum.
- O tempo de penitência.
Não eram um convite ao pecado, mas uma despedida consciente dos prazeres legítimos para se dispor ao sacrifício.
O cristianismo nunca foi inimigo da alegria. Mas ensina que há tempos para celebrar e tempos para purificar o coração.
“Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3,1).
As Carnestolendas eram precisamente isso: o momento de tomar consciência de que o combate espiritual se aproxima.
2. “Adeus à carne”: mais que uma dieta, uma decisão espiritual
Quando a Igreja falava de “carne”, não se referia apenas ao alimento. Na Sagrada Escritura, a carne simboliza a inclinação desordenada, a fraqueza humana, o homem velho.
São Paulo explica claramente:
“Os que vivem segundo a carne inclinam-se para as coisas da carne; mas os que vivem segundo o Espírito, para as coisas do Espírito” (Romanos 8,5).
Dizer “adeus à carne” não é simplesmente mudar o cardápio.
É declarar guerra àquilo que nos escraviza interiormente.
A carne, no sentido bíblico, representa:
- O egoísmo.
- A sensualidade desordenada.
- A preguiça espiritual.
- A soberba.
- O apego excessivo ao prazer.
Carnestolendas, no seu sentido mais profundo, é o momento de perguntar:
- O que domina a minha vida?
- O que me impede de amar mais a Deus?
- Que apetites governam as minhas decisões?
Porque o verdadeiro jejum começa no coração.
3. O contraste com o mundo atual
Se olharmos para a cultura contemporânea, veremos exatamente o contrário do espírito original das Carnestolendas.
Hoje o carnaval é sinônimo de:
- Excesso.
- Sexualização.
- Inibição moral abandonada.
- Zombaria do sagrado.
- Quebra de limites.
O que deveria ser uma despedida sóbria tornou-se uma apoteose do desregramento.
Mas isso não é casual. A sociedade moderna perdeu o sentido da penitência. Esqueceu que o homem precisa de purificação. Confundiu liberdade com falta de controle.
E, no entanto, o coração humano continua sedento de ordem, sentido e redenção.
Quando o mundo exagera o prazer, no fundo está tentando preencher um vazio espiritual que só Deus pode saciar.
4. A pedagogia espiritual da Igreja
A Igreja não propõe a Quaresma como um castigo, mas como uma terapia da alma.
Assim como o corpo precisa de desintoxicação, a alma também precisa.
As Carnestolendas eram o último aviso antes do tratamento espiritual:
- Prepara-te.
- Simplifica.
- Desapega-te.
- Reordena os teus desejos.
O jejum, a abstinência e a penitência têm uma lógica profundamente humana e teológica:
- Recordam-nos que não somos escravos dos nossos impulsos.
- Ensinam-nos que o prazer não é o fim último.
- Reorientam-nos para o amor verdadeiro.
O próprio Jesus nos deu o exemplo:
“Esta espécie não se expulsa senão pela oração e pelo jejum” (Mateus 17,21).
O combate espiritual não se vence com discursos, mas com disciplina interior.
5. A carne hoje: de que devemos nos despedir?
Se Carnestolendas significa “adeus à carne”, devemos perguntar com honestidade:
que “carne” domina hoje a nossa vida?
Talvez não seja um pedaço de carne.
Talvez seja:
- O consumo compulsivo.
- A dependência do smartphone.
- A busca constante por aprovação.
- A pornografia.
- A superficialidade.
- A falta de silêncio.
- O orgulho intelectual.
Numa sociedade hiperestimulada, o verdadeiro jejum pode ser:
- Jejum de telas.
- Jejum de ruído.
- Jejum de críticas.
- Jejum de comparações.
- Jejum de ressentimento.
A Quaresma começa muito antes da Quarta-feira de Cinzas: começa quando tomamos consciência do que nos afasta de Deus.
6. Dimensão teológica profunda: o homem velho e o homem novo
São Paulo fala do “homem velho” e do “homem novo” (Efésios 4,22-24).
As Carnestolendas simbolizam a transição entre ambos.
O homem velho vive dominado pela carne.
O homem novo vive no Espírito.
Não se trata de desprezar o corpo. O cristianismo não é dualista. A carne é boa porque foi criada por Deus e assumida por Cristo na Encarnação.
O problema não é a carne em si, mas a sua desordem.
A penitência não destrói a natureza; cura-a.
O jejum não odeia o corpo; disciplina-o.
A renúncia não elimina a alegria; purifica-a.
O cristianismo não procura esmagar o desejo, mas orientá-lo para Deus.
7. Aplicações práticas: como viver hoje verdadeiras Carnestolendas
Se queremos recuperar o sentido autêntico, aqui está um guia espiritual concreto:
1. Faz um exame de consciência sério antes da Quaresma
Pergunta-te:
- Que hábito me domina?
- Que pecado se repete?
- Que apego me é mais difícil abandonar?
2. Escolhe uma renúncia significativa
Não algo superficial, mas algo que realmente te custe.
3. Estabelece um plano espiritual
- Confissão.
- Oração diária estruturada.
- Leitura espiritual.
- Obras concretas de caridade.
4. Pratica sobriedade consciente
Na alimentação, no consumo, nas palavras e nas redes sociais.
5. Recupera a dimensão comunitária
Vive este tempo em família, explicando às crianças o seu verdadeiro significado. A transmissão da fé começa no lar.
8. Carnestolendas como ato de liberdade
O mundo chama liberdade fazer o que se tem vontade.
O cristianismo chama liberdade não ser escravo do que se tem vontade de fazer.
Dizer “adeus à carne” é um ato profundamente revolucionário no nosso tempo.
É afirmar:
- Não sou os meus impulsos.
- Não sou os meus desejos.
- Não sou as minhas dependências.
- Sou filho de Deus.
E essa lembrança transforma a vida.
9. Da renúncia à Ressurreição
Não esqueçamos que as Carnestolendas não terminam na abstinência.
Conduzem à Páscoa.
A renúncia cristã está sempre orientada para algo maior.
Deixa-se algo bom para receber algo melhor.
Deixa-se o imediato para abraçar o eterno.
Cristo não nos pede que renunciemos por renunciar, mas para nos tornar capazes de uma alegria mais profunda.
Conclusão: Recuperar a alma das Carnestolendas
Talvez este ano não possas mudar a cultura.
Mas podes mudar o teu coração.
Talvez o mundo continue a celebrar o excesso.
Mas tu podes celebrar a liberdade interior.
As Carnestolendas não são uma licença para pecar antes de “comportar-se bem”.
São um limiar sagrado.
São um chamado à conversão consciente.
São o sussurro da Igreja que nos diz:
“Prepara-te. Volta para Deus. Reordena a tua vida. Diz adeus ao que te prende.”
Se recuperarmos o verdadeiro significado do “adeus à carne”, não transformaremos apenas a Quaresma.
Transformaremos toda a nossa vida.
E então compreenderemos que a maior festa não é o carnaval passageiro, mas a Páscoa eterna para a qual caminhamos.
Porque a verdadeira alegria não nasce do excesso.
Nasce de um coração purificado.