Quarta-feira , Fevereiro 11 2026

A “Quaresma de São Martinho” praticada pelos seus antepassados

Um jejum esquecido que pode renovar a sua vida espiritual hoje

Quando pensamos na Quaresma, quase todos nós imaginamos imediatamente os quarenta dias que antecedem a Páscoa: Quarta-feira de Cinzas, jejum, penitência, conversão do coração. Mas o que muitos não sabem é que, durante séculos, os nossos antepassados cristãos viviam outra Quaresma, mais curta, mas não menos intensa, profundamente enraizada na vida litúrgica e espiritual da Igreja: a Quaresma de São Martinho, também conhecida como jejum do Advento.

Redescobri-la não é um exercício de nostalgia, mas uma oportunidade providencial para retomar o sentido da espera, da sobriedade e da preparação interior num mundo que transformou o Advento num longo prelúdio consumista para o Natal.


O que era a Quaresma de São Martinho?

A chamada Quaresma de São Martinho começava tradicionalmente no dia seguinte à festa de São Martinho de Tours (11 de novembro) e durava até ao Natal. Em muitos lugares, estendia-se por quarenta dias, imitando deliberadamente a Quaresma pascal.

Não se tratava de uma invenção tardia nem de uma prática marginal. Já pelo menos desde o século V, especialmente na Gália, Hispânia, Itália e em partes do mundo monástico, os cristãos viviam este tempo como um período de jejum, penitência e preparação espiritual para a vinda do Senhor.

São Martinho de Tours – soldado convertido em monge e depois bispo – personificava um ideal cristão muito concreto: renúncia, caridade radical e vida austera. A sua figura tornou-se modelo para preparar o coração para o grande mistério da Encarnação.


Advento: espera alegre… mas também penitencial

Hoje tendemos a descrever o Advento exclusivamente como um período “alegre”. E ele é. Mas durante séculos, a Igreja compreendeu que não existe verdadeira alegria cristã sem prévia conversão.

O Advento tradicional tinha um caráter duplo:

  • Esperança alegre pela vinda do Messias
  • Penitência humilde diante da necessidade de preparar a alma

Algo muito semelhante ao que proclama São João Batista, figura central do Advento:

“Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas” (Lc 3,4)

Preparar o caminho não significa decorar a casa ou começar a cantar canções de Natal em novembro. Significa endireitar o coração, remover obstáculos interiores, reconhecer o pecado e voltar para Deus.


Jejum, sobriedade e vida quotidiana

A Quaresma de São Martinho incluía práticas muito concretas:

  • Jejum (especialmente às segundas, quartas e sextas-feiras)
  • Abstinência de carne
  • Oração mais intensa
  • Limitar celebrações e banquetes
  • Maior atenção aos pobres

Não se tratava de uma espiritualidade desligada do corpo. Pelo contrário: afetava a mesa, o calendário social, o ritmo do lar. A fé ordenava a vida quotidiana.

Aqui há uma lição muito atual: os nossos antepassados compreendiam que o corpo educa a alma. Reduzir, simplificar, abster-se… não para se punir, mas para ampliar o desejo de Deus.

Como diz o profeta Joel:

“Convertei-vos a mim de todo o coração, com jejum, choro e lamentação” (Jl 2,12)


Por que essa prática se perdeu?

As razões são múltiplas:

  1. Relaxamento progressivo das disciplinas penitenciais
  2. Mudança cultural: o inverno passou de tempo de recolhimento a época de festas
  3. Secularização do Natal, cada vez mais centrada no exterior
  4. Ignorância litúrgica, mesmo entre católicos praticantes

O resultado é paradoxal: chegamos ao Natal exaustos, saturados e distraídos, quando deveríamos estar vigilantes, sóbrios e cheios de esperança.


A profunda relevância teológica deste “jejum esquecido”

A Quaresma de São Martinho lembra-nos algo essencial: Deus vem, e a sua vinda exige sempre preparação.

O Advento não olha apenas para o Menino de Belém. Olha também para:

  • A vinda de Cristo na história
  • A sua vinda sacramental
  • E a sua vinda gloriosa no fim dos tempos

Por isso, a Igreja coloca sobre os nossos lábios palavras tão sérias neste tempo:

“Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25,13)

A penitência não é tristeza; é lucidez espiritual. Desperta-nos da letargia do mundo.


Faz sentido viver hoje a Quaresma de São Martinho?

Mais do que nunca.

Numa sociedade barulhenta, acelerada e saturada de estímulos, retomar uma espiritualidade de espera e sobriedade é profundamente contracultural… e profundamente cristã.

Não se trata de impor fardos impossíveis, mas de recuperar o espírito desta tradição.

Algumas aplicações práticas para hoje

  • Reduzir o consumo durante o Advento (compras, lazer, redes sociais)
  • Introduzir pequenos jejuns semanais
  • Orar diariamente com as leituras do Advento
  • Confessar-se antes do Natal, não depois
  • Praticar a esmola de forma concreta
  • Recuperar o silêncio, especialmente em casa

Pequenos gestos, vividos com constância, podem transformar profundamente a forma como celebramos o Natal.


Preparar o presépio… dentro do coração

Os nossos antepassados sabiam algo que esquecemos: não se pode acolher dignamente Cristo se o coração estiver cheio de barulho.

São Bernardo expressou-o com clareza desarmante:

“De que serve que Cristo tenha nascido uma vez em Belém, se Ele não nasce todos os dias no teu coração?”

A Quaresma de São Martinho não é um relicário arqueológico da fé. É um chamado urgente a redescobrir a profundidade espiritual do Advento, a viver o Natal não apenas como uma memória agradável, mas como um evento que nos transforma.


Conclusão: uma tradição que espera ser redescoberta

Talvez hoje não vivamos exatamente como os nossos antepassados. Mas a sua sabedoria espiritual continua válida. Eles sabiam esperar. Eles sabiam preparar-se. Eles sabiam que Deus não se recebe levianamente.

Redescobrir a Quaresma de São Martinho é, no fundo, aprender novamente a esperar por Deus.

E talvez, se o fizermos, o Natal volte a ser o que sempre foi:
não um ruído passageiro,
mas a irrupção silenciosa de Deus no coração do homem.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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