Quarta-feira , Fevereiro 11 2026

São João e as fogueiras: a origem católica de uma festa que o neopaganismo tentou roubar

Todos os anos, quando chega a noite de 23 para 24 de junho, o fogo volta a tomar conta de praças, praias e campos. Fogueiras, saltos rituais, desejos escritos em papéis, palavras como energia, solstício, renascimento, magia. Muitos acreditam estar celebrando algo antigo, pré-cristão, quase “apropriado” pela Igreja. No entanto, a realidade histórica, teológica e espiritual é exatamente o oposto: a noite de São João tem uma origem profundamente cristã e bíblica, e foi o neopaganismo moderno que tentou esvaziá-la do seu verdadeiro significado.

Este artigo tem três objetivos: desmontar o mito, recuperar a verdade católica e oferecer um guia espiritual atual para viver esta festa como aquilo que ela realmente é: uma celebração de São João Batista, o último dos profetas e aquele que preparou o caminho do Senhor.


1. São João Batista: o único santo cujo nascimento a Igreja celebra

Há um fato que muitos desconhecem e que já deveria nos tornar desconfiados das narrativas neopagãs:
👉 a Igreja celebra liturgicamente o nascimento de apenas três pessoas: Jesus Cristo, a Virgem Maria… e São João Batista.

Por quê? Porque João não é um santo qualquer. Ele é a ponte entre o Antigo e o Novo Testamento, a voz que clama no deserto, o amigo do Esposo.

O Evangelho segundo São Lucas narra o seu nascimento com riqueza de detalhes, cheio de sinais, profecia e alegria:

«Ao ouvir Isabel a saudação de Maria, a criança estremeceu no seu ventre» (Lc 1,41).

E mais adiante:

«Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz, e ela teve um filho. Os seus vizinhos e parentes ouviram que o Senhor lhe tinha feito grande misericórdia, e alegravam-se com ela» (Lc 1,57-58).

Desde o início, a vida de João está associada à alegria, à luz e à preparação para o encontro com Cristo.


2. Por que o dia 24 de junho? A chave está no Evangelho

Aqui está um dos argumentos mais belos — e ao mesmo tempo mais esquecidos — da tradição cristã.

O nascimento de São João é celebrado seis meses antes do nascimento de Jesus, exatamente como indica o Evangelho:

«No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia chamada Nazaré…» (Lc 1,26).

Mas há algo ainda mais profundo:
📉 A partir de 24 de junho, os dias começam a diminuir.
📈 A partir de 25 de dezembro, os dias começam a aumentar.

Coincidência? De modo algum.

São João explica isso com uma frase que resume toda a sua espiritualidade:

«É necessário que Ele cresça e que eu diminua» (Jo 3,30).

A luz física do sol começa a diminuir após o nascimento de João, porque ele não é a Luz, mas aquele que dá testemunho da Luz. E a luz começa a crescer novamente após o nascimento de Cristo, o Sol nascente que vem do alto (cf. Lc 1,78).

Isso não é paganismo: é teologia encarnada no cosmos.


3. O fogo de São João: um símbolo cristão, não uma magia ancestral

O fogo sempre foi um símbolo bíblico. Da sarça ardente a Pentecostes, Deus manifesta-se frequentemente por meio do fogo:

  • O fogo que purifica
  • O fogo que ilumina
  • O fogo que protege
  • O fogo que consome aquilo que não vem de Deus

São João Batista anuncia claramente esse simbolismo:

«Eu vos batizo com água, mas vem aquele que é mais forte do que eu… Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo» (Lc 3,16).

As fogueiras de São João nascem dessa compreensão cristã:
🔥 o fogo como preparação, não como idolatria.
🔥 o fogo que anuncia Cristo, não que o substitui.

As fogueiras não eram acesas para “honrar o sol”, mas para recordar que João veio preparar os corações, queimar o pecado e chamar à conversão.


4. O mito do “solstício roubado pela Igreja”

Uma das grandes narrativas modernas afirma: «a Igreja cristianizou uma festa pagã do solstício». Essa afirmação apresenta vários problemas sérios:

  1. Não existem provas históricas sólidas de uma festa pagã universal em 24 de junho com fogueiras como as atuais.
  2. Muitas práticas chamadas “ancestrais” são recriações românticas dos séculos XIX ou XX.
  3. A Igreja primitiva não tinha poder cultural suficiente para “impor” festas; o que ela fazia era dar um significado cristão à vida real dos povos, não apagá-la.

O que aconteceu foi exatamente o contrário:
👉 o cristianismo deu um significado profundo aos símbolos naturais, integrando-os na história da salvação.

O neopaganismo moderno, por sua vez, faz o oposto: remove Cristo dos símbolos e os deixa sem um horizonte transcendente.


5. São João Batista: uma mensagem de urgente atualidade

Numa época que foge do silêncio, do arrependimento e da verdade, São João Batista é incômodo… e justamente por isso necessário.

A sua mensagem não era “energia positiva”, mas conversão.
Não era “conectar-se com o universo”, mas preparar o coração para Deus.
Não era autoafirmação, mas humildade radical.

«Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo» (Mt 3,2).

Celebrar São João hoje significa voltar a fazer a nós mesmos estas perguntas:

  • O que preciso queimar na minha vida?
  • Quais atitudes me afastam de Deus?
  • Estou preparando o caminho do Senhor ou colocando a mim mesmo no centro?

6. Como viver hoje a noite de São João como cristão

Longe de rejeitar a festa, o cristão é chamado a recuperá-la.

Algumas propostas simples e profundas:

  • 🔥 Acender uma vela ou uma pequena fogueira com uma oração, não como rito mágico, mas como símbolo de purificação.
  • 📖 Ler os trechos do Evangelho sobre São João Batista (Lucas 1 ou João 3).
  • ✍️ Escrever aquilo que precisa ser deixado para trás e oferecê-lo a Deus em oração.
  • 🙏 Dar graças pela vida, pela fé e pelo chamado à conversão.
  • 👨‍👩‍👧 Viver esse momento em família, explicando às crianças quem foi São João e por que ele é tão importante.

Não se trata de “cristianizar” o que é pagão, mas de reconectar-se com aquilo que sempre foi cristão.


7. Conclusão: devolver ao fogo a sua verdadeira luz

São João não é um pretexto para uma noite de excessos nem um ritual vazio.
Ele é um grito profético que continua a ressoar hoje.

«Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas» (Mt 3,3).

As fogueiras não são magia.
O fogo não é um deus.
A noite não é um portal energético.

Tudo aponta para Cristo.

E talvez, em meio ao barulho, à fumaça e às falsas luzes do nosso tempo, São João Batista continue ainda a apontar com o dedo e a repetir, como então:

«Eis o Cordeiro de Deus» (Jo 1,29).

Que esta festa, em vez de ser roubada, seja recuperada.
Que o fogo volte a iluminar, e não a confundir.
E que nós, como João, aprendamos a diminuir… para que Cristo cresça. 🔥✝️

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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