Quarta-feira , Fevereiro 11 2026

A Inquisição que não te contaram: Por que prisioneiros comuns cometiam blasfêmia para serem transferidos para prisões eclesiásticas

Quando hoje ouvimos a palavra Inquisição, o imaginário coletivo dispara: masmorras húmidas, torturas intermináveis, fanatismo religioso e uma Igreja sedenta de sangue. É uma imagem repetida tantas vezes que quase ninguém para para perguntar se é historicamente honesta.

Mas a história — como quase sempre — é mais complexa, mais humana… e também mais desconfortável para os nossos preconceitos.

Um dos factos mais surpreendentes e, ao mesmo tempo, menos conhecidos é este: muitos prisioneiros comuns blasfemavam deliberadamente para serem transferidos para as prisões da Inquisição.
Sim, leste bem.

Porque é que alguém desejaria acabar nas mãos do Santo Ofício?
A resposta obriga-nos a repensar não só a história, mas também a nossa forma moderna de compreender a justiça, a misericórdia e a dignidade humana.


1. Um mito moderno diante de uma realidade medieval

A chamada lenda negra da Inquisição foi construída, em grande parte, séculos depois do seu funcionamento real. Foi alimentada por interesses políticos, conflitos religiosos e propaganda anticatólica, especialmente entre os séculos XVIII e XIX.

Isto não significa negar os abusos — houve-os, como em qualquer instituição humana —, mas significa rejeitar a caricatura.

A Inquisição não nasceu como um instrumento de terror, mas como um tribunal jurídico-religioso num contexto em que:

  • não existia a separação moderna entre crime civil e falta moral
  • a fé era considerada um bem comum, e não apenas privado
  • a ordem social estava profundamente ligada à verdade religiosa

Nesse quadro, a Inquisição atuava — pelo menos em teoria — com procedimentos mais garantistas para o acusado do que muitos tribunais civis da sua época.


2. As prisões civis: o verdadeiro inferno quotidiano

Para compreender por que um prisioneiro blasfemava para ser julgado pela Inquisição, é preciso primeiro olhar para como eram as prisões civis medievais.

Características habituais:

  • superlotação extrema
  • falta de higiene e de cuidados médicos
  • abusos constantes por parte dos carcereiros
  • alimentação escassa (se não tivesses família que te levasse comida, passavas fome)
  • detenções preventivas indefinidas, muitas vezes sem um julgamento claro

A prisão não era uma pena em si, mas um lugar de espera… muitas vezes pior do que a condenação.

Nesse contexto, as prisões eclesiásticas revelavam-se surpreendentemente diferentes.


3. Como eram as prisões da Inquisição?

Aqui surge o grande paradoxo histórico.

As prisões inquisitoriais ofereciam geralmente:

  • celas individuais ou uma superlotação muito menor
  • alimentação regular
  • cuidados médicos básicos
  • proibição de abusos físicos não autorizados
  • acesso à confissão e à assistência espiritual
  • registos escritos dos processos e das sentenças

Além disso, o objetivo principal não era punir, mas corrigir e reconciliar.

O herege arrependido não era um inimigo a destruir, mas um filho a recuperar.

«Não me comprazo na morte do ímpio, mas em que ele se converta do seu caminho e viva.»
(Ezequiel 33,11)


4. A blasfêmia como “estratégia” de sobrevivência

Aqui encontramos um dos factos mais reveladores.

Alguns prisioneiros comuns, condenados por roubo, violência ou crimes civis, blasfemavam publicamente ou declaravam-se suspeitos de heresia para que o seu caso fosse transferido para o tribunal inquisitorial.

Porquê?

Porque sabiam que:

  • teriam um processo mais ordenado
  • seriam tratados com maior dignidade humana
  • poderiam até salvar a vida, pois as penas inquisitoriais eram frequentemente espirituais ou penitenciais

Este facto desmonta completamente a imagem da Inquisição como o pior destino possível.

Ninguém blasfema para fugir do inferno… a menos que o inferno esteja noutro lugar.


5. A lógica teológica do Santo Ofício

Do ponto de vista da teologia católica tradicional, a Inquisição movia-se dentro de uma lógica hoje quase incompreensível:
a alma é mais importante do que o corpo.

Isso não justificava tudo, mas estabelecia prioridades.

O pecado da heresia não era visto apenas como um erro intelectual, mas como:

  • uma ferida no Corpo de Cristo
  • um escândalo para os fiéis
  • um perigo espiritual para a comunidade

Por isso, o objetivo era a conversão, não a eliminação.

São Paulo expressa-o com clareza:

«Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão. E tem cuidado contigo mesmo, para não caíres também em tentação.»
(Gálatas 6,1)


6. Misericórdia, penitência e justiça: um equilíbrio esquecido

As penas inquisitoriais consistiam frequentemente em:

  • jejuns
  • peregrinações
  • orações
  • penitências públicas
  • uso temporário de hábitos penitenciais
  • reclusão acompanhada de orientação espiritual

À luz da nossa mentalidade moderna, isto pode parecer duro, mas em comparação com:

  • mutilações
  • execuções sumárias
  • castigos coletivos

…tratava-se de um sistema surpreendentemente moderado para o seu tempo.

Não era perfeito.
Mas também não era o monstro que nos contaram.


7. O que tudo isto nos diz hoje?

É aqui que o tema deixa de ser apenas histórico e se torna profundamente atual.

1. Sobre a justiça

Hoje punimos muito… mas curamos pouco.
Encarceramos corpos, mas não acompanhamos almas.

2. Sobre a dignidade humana

A Igreja, mesmo em contextos difíceis, manteve a ideia de que ninguém deixa de ser pessoa, nem sequer o culpado.

3. Sobre a verdade

Vivemos tempos em que discordar pode custar-te o “exílio social”. Cancelamento, linchamento mediático, rótulos rápidos.
Somos assim tão diferentes, no fundo?


8. Guia espiritual: aprender com esta história incómoda

Esta história convida-nos a várias atitudes espirituais muito concretas:

🔹 Humildade histórica

Antes de julgar o passado, perguntemo-nos se o nosso presente é realmente tão luminoso como acreditamos.

🔹 Misericórdia verdadeira

Não a que desculpa tudo, mas a que procura redimir o pecador sem negar a verdade.

🔹 Conversão pessoal

A blasfêmia fingida daqueles prisioneiros recorda-nos que mesmo a partir da miséria humana… Deus pode abrir caminhos de graça.

«Onde abundou o pecado, superabundou a graça.»
(Romanos 5,20)


9. Uma última reflexão

A verdadeira pergunta não é se a Inquisição foi perfeita (não foi).
A pergunta é: somos hoje mais justos, mais misericordiosos e mais humanos?

Talvez seja por isso que esta história incomoda tanto.
Porque quebra a narrativa fácil e obriga-nos a olhar para o espelho.

E porque, no fim, a Igreja — com todas as suas sombras — continua a recordar-nos algo profundamente cristão:

👉 nenhum ser humano é irrecuperável
👉 nenhuma verdade se defende com ódio
👉 e nenhuma justiça é autêntica sem caridade

Sobre catholicus

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