Quando hoje ouvimos a palavra Inquisição, o imaginário coletivo dispara: masmorras húmidas, torturas intermináveis, fanatismo religioso e uma Igreja sedenta de sangue. É uma imagem repetida tantas vezes que quase ninguém para para perguntar se é historicamente honesta.
Mas a história — como quase sempre — é mais complexa, mais humana… e também mais desconfortável para os nossos preconceitos.
Um dos factos mais surpreendentes e, ao mesmo tempo, menos conhecidos é este: muitos prisioneiros comuns blasfemavam deliberadamente para serem transferidos para as prisões da Inquisição.
Sim, leste bem.
Porque é que alguém desejaria acabar nas mãos do Santo Ofício?
A resposta obriga-nos a repensar não só a história, mas também a nossa forma moderna de compreender a justiça, a misericórdia e a dignidade humana.
1. Um mito moderno diante de uma realidade medieval
A chamada lenda negra da Inquisição foi construída, em grande parte, séculos depois do seu funcionamento real. Foi alimentada por interesses políticos, conflitos religiosos e propaganda anticatólica, especialmente entre os séculos XVIII e XIX.
Isto não significa negar os abusos — houve-os, como em qualquer instituição humana —, mas significa rejeitar a caricatura.
A Inquisição não nasceu como um instrumento de terror, mas como um tribunal jurídico-religioso num contexto em que:
- não existia a separação moderna entre crime civil e falta moral
- a fé era considerada um bem comum, e não apenas privado
- a ordem social estava profundamente ligada à verdade religiosa
Nesse quadro, a Inquisição atuava — pelo menos em teoria — com procedimentos mais garantistas para o acusado do que muitos tribunais civis da sua época.
2. As prisões civis: o verdadeiro inferno quotidiano
Para compreender por que um prisioneiro blasfemava para ser julgado pela Inquisição, é preciso primeiro olhar para como eram as prisões civis medievais.
Características habituais:
- superlotação extrema
- falta de higiene e de cuidados médicos
- abusos constantes por parte dos carcereiros
- alimentação escassa (se não tivesses família que te levasse comida, passavas fome)
- detenções preventivas indefinidas, muitas vezes sem um julgamento claro
A prisão não era uma pena em si, mas um lugar de espera… muitas vezes pior do que a condenação.
Nesse contexto, as prisões eclesiásticas revelavam-se surpreendentemente diferentes.
3. Como eram as prisões da Inquisição?
Aqui surge o grande paradoxo histórico.
As prisões inquisitoriais ofereciam geralmente:
- celas individuais ou uma superlotação muito menor
- alimentação regular
- cuidados médicos básicos
- proibição de abusos físicos não autorizados
- acesso à confissão e à assistência espiritual
- registos escritos dos processos e das sentenças
Além disso, o objetivo principal não era punir, mas corrigir e reconciliar.
O herege arrependido não era um inimigo a destruir, mas um filho a recuperar.
«Não me comprazo na morte do ímpio, mas em que ele se converta do seu caminho e viva.»
(Ezequiel 33,11)
4. A blasfêmia como “estratégia” de sobrevivência
Aqui encontramos um dos factos mais reveladores.
Alguns prisioneiros comuns, condenados por roubo, violência ou crimes civis, blasfemavam publicamente ou declaravam-se suspeitos de heresia para que o seu caso fosse transferido para o tribunal inquisitorial.
Porquê?
Porque sabiam que:
- teriam um processo mais ordenado
- seriam tratados com maior dignidade humana
- poderiam até salvar a vida, pois as penas inquisitoriais eram frequentemente espirituais ou penitenciais
Este facto desmonta completamente a imagem da Inquisição como o pior destino possível.
Ninguém blasfema para fugir do inferno… a menos que o inferno esteja noutro lugar.
5. A lógica teológica do Santo Ofício
Do ponto de vista da teologia católica tradicional, a Inquisição movia-se dentro de uma lógica hoje quase incompreensível:
a alma é mais importante do que o corpo.
Isso não justificava tudo, mas estabelecia prioridades.
O pecado da heresia não era visto apenas como um erro intelectual, mas como:
- uma ferida no Corpo de Cristo
- um escândalo para os fiéis
- um perigo espiritual para a comunidade
Por isso, o objetivo era a conversão, não a eliminação.
São Paulo expressa-o com clareza:
«Irmãos, se alguém for surpreendido em alguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de mansidão. E tem cuidado contigo mesmo, para não caíres também em tentação.»
(Gálatas 6,1)
6. Misericórdia, penitência e justiça: um equilíbrio esquecido
As penas inquisitoriais consistiam frequentemente em:
- jejuns
- peregrinações
- orações
- penitências públicas
- uso temporário de hábitos penitenciais
- reclusão acompanhada de orientação espiritual
À luz da nossa mentalidade moderna, isto pode parecer duro, mas em comparação com:
- mutilações
- execuções sumárias
- castigos coletivos
…tratava-se de um sistema surpreendentemente moderado para o seu tempo.
Não era perfeito.
Mas também não era o monstro que nos contaram.
7. O que tudo isto nos diz hoje?
É aqui que o tema deixa de ser apenas histórico e se torna profundamente atual.
1. Sobre a justiça
Hoje punimos muito… mas curamos pouco.
Encarceramos corpos, mas não acompanhamos almas.
2. Sobre a dignidade humana
A Igreja, mesmo em contextos difíceis, manteve a ideia de que ninguém deixa de ser pessoa, nem sequer o culpado.
3. Sobre a verdade
Vivemos tempos em que discordar pode custar-te o “exílio social”. Cancelamento, linchamento mediático, rótulos rápidos.
Somos assim tão diferentes, no fundo?
8. Guia espiritual: aprender com esta história incómoda
Esta história convida-nos a várias atitudes espirituais muito concretas:
🔹 Humildade histórica
Antes de julgar o passado, perguntemo-nos se o nosso presente é realmente tão luminoso como acreditamos.
🔹 Misericórdia verdadeira
Não a que desculpa tudo, mas a que procura redimir o pecador sem negar a verdade.
🔹 Conversão pessoal
A blasfêmia fingida daqueles prisioneiros recorda-nos que mesmo a partir da miséria humana… Deus pode abrir caminhos de graça.
«Onde abundou o pecado, superabundou a graça.»
(Romanos 5,20)
9. Uma última reflexão
A verdadeira pergunta não é se a Inquisição foi perfeita (não foi).
A pergunta é: somos hoje mais justos, mais misericordiosos e mais humanos?
Talvez seja por isso que esta história incomoda tanto.
Porque quebra a narrativa fácil e obriga-nos a olhar para o espelho.
E porque, no fim, a Igreja — com todas as suas sombras — continua a recordar-nos algo profundamente cristão:
👉 nenhum ser humano é irrecuperável
👉 nenhuma verdade se defende com ódio
👉 e nenhuma justiça é autêntica sem caridade