Quarta-feira , Fevereiro 11 2026

São Brás e a bênção dos alimentos: quando a fé se torna garganta, mesa e vida

Há santos que, nos calendários modernos, parecem “menores”, reduzidos a uma bênção rápida no fim da Missa ou a um santinho esquecido numa gaveta. Mas a Igreja, que tem memória longa e coração profundo, sabe bem que São Brás não é uma relíquia do passado, mas um testemunho vivo de como a fé toca o corpo, o alimento, a doença e a vida quotidiana.
Falar de São Brás é falar da garganta… mas também da Palavra. É falar dos alimentos abençoados… mas também do Pão que salva. É falar de uma devoção popular… profundamente enraizada numa teologia muito séria e surpreendentemente atual.

Este artigo quer ajudar-te a compreender, viver e transmitir esta tradição com sentido, profundidade e fruto espiritual.


1. Quem foi São Brás? Um bispo, um mártir e um pastor com o cheiro do seu povo

São Brás (Blasius) foi bispo de Sebaste, na Arménia (atual Turquia), no final do século III e início do século IV. Viveu em tempos de perseguição, particularmente sob o imperador Licínio.
Segundo a tradição, antes de se tornar bispo foi médico, um pormenor nada secundário: desde a sua formação humana esteve ligado ao cuidado do corpo e ao alívio do sofrimento.

Perseguido por causa da sua fé, retirou-se para uma gruta nas montanhas onde — segundo os relatos hagiográficos — os animais acorriam até ele para serem curados, imagem poderosa do pastor que restaura a harmonia da criação ferida pelo pecado.

Por fim, foi preso, torturado e martirizado. A sua morte não foi silenciosa: foi uma confissão pública de Cristo. Por isso, a Igreja venera-o não apenas como taumaturgo, mas como mártir, isto é, testemunha fiel até ao fim.


2. O milagre da garganta: origem de uma devoção universal

A tradição mais conhecida conta que, enquanto São Brás era conduzido à prisão, uma mãe desesperada lhe apresentou o seu filho, que se estava a sufocar por causa de uma espinha presa na garganta.
São Brás rezou… e o menino ficou curado.

Desde então, a Igreja reconhece-o como intercessor especial nas doenças da garganta, e a sua memória (3 de fevereiro) ficou associada a uma bênção muito concreta: a bênção das gargantas.

Convém sublinhar algo essencial:
👉 Não se trata de magia nem de superstição, mas de uma intercessão sacramental. Ou seja, uma súplica confiante dirigida a Deus, apoiada na comunhão dos santos, para que a graça alcance também a nossa fragilidade corporal.


3. A garganta numa perspetiva teológica: mais do que um órgão, um lugar espiritual

Porquê a garganta?
A teologia cristã não separa o corpo da alma. A garganta é:

  • O lugar por onde entra o alimento
  • O lugar por onde sai a palavra
  • O lugar por onde respiramos

Em chave bíblica, a garganta está ligada à vida em si mesma. O Salmo 63 diz:

«Ó Deus, Tu és o meu Deus, desde a aurora Te procuro; a minha alma tem sede de Ti, por Ti desfalece a minha carne, como terra árida, seca, sem água.» (Sl 63,2)

E o próprio Jesus afirma:

«Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» (Mt 4,4)

São Brás, protetor da garganta, recorda-nos que:

  • O que comemos deve ser recebido com gratidão.
  • O que dizemos deve ser purificado.
  • O que respiramos é um dom.

4. A bênção das gargantas: sentido litúrgico e pastoral

A Igreja, na sua sabedoria, conservou esta bênção num rito sóbrio e profundo. Tradicionalmente, realiza-se com duas velas cruzadas, símbolo claro de:

  • A Cruz de Cristo, da qual procede toda a verdadeira cura.
  • A luz, que vence as trevas da doença e do medo.

A fórmula tradicional diz, essencialmente:

«Pela intercessão de São Brás, bispo e mártir, Deus te livre das doenças da garganta e de todo o mal.»

Do ponto de vista teológico, esta bênção:

  • Reconhece Deus como a fonte de toda a cura
  • Invoca a comunhão dos santos
  • Abrange o bem integral da pessoa, não apenas o físico

Do ponto de vista pastoral, é um gesto precioso porque alcança também pessoas afastadas, crianças, idosos, doentes… É uma porta amplamente aberta à graça.


5. São Brás e a bênção dos alimentos: a fé que chega à mesa

Menos conhecida, mas profundamente enraizada em muitos lugares, é a tradição de abençoar os alimentos no dia de São Brás, especialmente o pão, as frutas, os doces ou os produtos básicos.

Porquê?

Porque São Brás está associado a:

  • A garganta
  • A alimentação
  • A proteção contra os males físicos

Mas o fundamento é profundamente bíblico e teológico.
Na Sagrada Escritura, abençoar os alimentos significa reconhecer que tudo vem de Deus:

«Tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças.» (1 Tm 4,4)

A bênção dos alimentos no dia de São Brás exprime três verdades essenciais:

  1. Dependemos de Deus, mesmo para as coisas mais básicas.
  2. O alimento não é apenas consumo, mas um dom.
  3. Comer é um ato humano, mas também espiritual.

6. Guia prática rigorosa: viver São Brás hoje (teologicamente e pastoralmente)

A. Na paróquia

  • Celebrar a bênção das gargantas com uma catequese prévia, explicando o seu sentido.
  • Oferecer a bênção dos alimentos, evitando qualquer tom supersticioso.
  • Relacionar a devoção com a Eucaristia, o verdadeiro Pão que cura e salva.

B. Na família

  • Abençoar a mesa no dia de São Brás de modo especial.
  • Explicar às crianças quem foi o santo e por que é invocado.
  • Rezar por aqueles que sofrem de doenças da garganta, cancro, problemas respiratórios ou da voz.

C. Na vida pessoal

  • Pedir a São Brás não apenas a saúde do corpo, mas também:
    • Pureza na palavra
    • Prudência no falar
    • Força para confessar a fé
  • Fazer um pequeno exame:
    • Uso a minha voz para abençoar ou para ferir?
    • Dou graças pelo que como?
    • Cuido do meu corpo como templo do Espírito?

7. São Brás hoje: uma devoção surpreendentemente atual

Num mundo em que:

  • O alimento é banalizado
  • A palavra é envenenada
  • O silêncio interior é quebrado

São Brás recorda-nos algo profundamente contracultural:
👉 Deus quer salvar tudo, até o que é quotidiano, corporal e pequeno.

Não é por acaso que a sua devoção perdura. Não é nostalgia. É sabedoria cristã.
São Brás não é apenas o santo da garganta: é o santo da vida agradecida, da fé encarnada, da bênção que transforma o ordinário em lugar de graça.


Que São Brás interceda por nós

Para que as nossas gargantas proclamem a verdade,
as nossas mesas sejam lugares de gratidão,
e toda a nossa vida se torne bênção.

Porque quando a fé é vivida assim, o Evangelho torna-se carne… e também pão.

Sobre catholicus

Pater noster, qui es in cælis: sanc­ti­ficétur nomen tuum; advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua, sicut in cælo, et in terra. Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie; et dimítte nobis débita nostra, sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris; et ne nos indúcas in ten­ta­tiónem; sed líbera nos a malo. Amen.

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